Flamengo e Corinthians são dois clubes que lidam diariamente com a amplificação de seus fatos, seja no sentido mais favorável / favorecido ou no mais maléfico. E durante as últimas semanas, as faíscas soam alarmes de incêndio tanto na Gávea quanto no Parque São Jorge. Os rubro-negros deixaram a liderança do Brasileiro e foram eliminados na Copa Libertadores, enquanto lutam contra alguns velhos fantasmas: a falta de eficiência, a soberba de seus astros, a cobrança alta por resultados. Não que os corintianos fujam muito de problemas parecidos. As razões, porém, são diferentes. Se de um lado é o investimento que não surte efeitos, do outro é a falta dele que vê o abismo, em um clube que já vinha rendendo muito mais do que se imaginava a partir do pouco. Neste sentido, a semifinal da Copa do Brasil surge para ambos como uma salvação para apaziguar os ânimos. Mas entre desesperos e receios, o Maracanã recebeu um jogo deplorável nesta quarta. Difícil dizer quem foi pior ofensivamente, entre a impotência carioca e a nulidade paulista. Não existia outro placar mais propício que o 0 a 0, ampliando o ranger de dentes para a volta em Itaquera.

O Maracanã de arquibancadas cheias e de fumaceira do lado de fora poderia prometer um grande duelo aos desavisados. Algo que não se esperava tanto assim dentro de campo. A começar pelo próprio gramado que os dois times também tiveram que enfrentar. O excesso de jogos certamente prejudica as condições no Maraca, mas não apenas isso, diante da falta de cuidado evidente. A areia em excesso era um obstáculo a mais para os jogadores driblarem. Pior, sequer o “tapete” foi irrigado no intervalo, por um problema no sistema que distribui água pelo retângulo. Já nas escalações, um pouco mais de alarde pelos jogadores de “seleção” confirmados: Cuéllar e Lucas Paquetá, já de volta após a Data Fufa, e Fágner, no polêmico retorno à lateral direita alvinegra.

Em campo, era fácil notar dois clubes naturalmente pressionados, mas com equipes que não conseguem encarar bem essa cobrança. O Flamengo tinha a iniciativa, com muita posse de bola e pouca objetividade – uma constante nos últimos jogos, que aumenta os pedidos pela demissão de Maurício Barbieri. Enquanto isso, o Corinthians repetia a estratégia que não deu certo no clássico contra o Palmeiras: se fechar inteiro no campo defensivo, com espasmos ofensivos quando os adversários cometiam algum erro. Os alvinegros montavam sua blitz na entrada da área e tinham relativo sucesso na missão, com os rubro-negros limitados a chutes tortos de média distância. Não à toa, depois de mais de 20 minutos de controle do Fla e somente um arremate realmente perigoso, com Vitinho mandando ao lado do gol, as primeiras boas chances surgiram aos corintianos. Paquetá deu um passe totalmente errado e deixou Clayson de frente para o crime, mas o alvinegro acertou a parte externa da rede. Já quando uma boa troca de passes aconteceu pela esquerda, Douglas mandou cruzado para fora.

Os lances indicavam um momento favorável Corinthians, enquanto o Flamengo se acomodava. Ao menos, foram sustos necessários para que os anfitriões acordassem um pouco. O time de Maurício Barbieri daria sua resposta a partir das bolas paradas. Em uma linha de impedimento mal feita pela defesa alvinegra, Paquetá ficou em ótimas condições e exigiu uma defesa excepcional de Cássio. Depois, em uma cobrança de escanteio fechada, o goleiro espalmaria com dificuldades. Era uma pressão flamenguista, mas não tão perigosa quanto se necessitaria. Os defeitos parecem crônicos. Uribe estava isolado no ataque, Diego e Everton Ribeiro cumpriam apenas o protocolar, Lucas Paquetá se afobava na hora de tomar as decisões corretas. Vitinho, por sua vez, se tornou um capítulo à parte. Outra vez desencontrado, não oferecia opções, um tanto quanto desligado. E o mau momento técnico do reforço também pesa contra. Sua falta de ímpeto, aliás, indica como Vinícius Júnior realmente fazia muito do pouco no primeiro semestre. Se dava para esperar algo diferente do garoto, de Vitinho, no máximo, se vê um chute prensado em cima da defesa.

O segundo tempo não mudou muito o ritmo do jogo. O Corinthians até se fechava com competência, mas era pouquíssimo ao que se imagina da equipe. Sequer conseguia esboçar os contra-ataques, mal passando do meio-campo. Só deu para perceber que Diego Alves saiu dos vestiários quando os rubro-negros recuavam a bola ou quando ele ia reclamar de algo com a arbitragem. Mas não que o Flamengo fosse tão melhor do que isso. Se há um bom exemplo de que posse de bola não significa agressividade, o time de Maurício Barbieri escancara isso. Muitos passes de um lado a outro do campo, falta de aproximação para triangulações, jogadas previsíveis. O único repertório se dava nos cruzamentos infindáveis para a área, sem muito resultado. O primeiro chute no alvo veio apenas aos 16 minutos, com Diego batendo de longe, e Cássio realizando a defesa sem grandes problemas.

A letargia em campo parece ter contaminado os técnicos, que mudaram somente depois dos 27 minutos. Barbieri trocou seis por meia dúzia, com Henrique Dourado e Willian Arão nos lugares de Uribe e Paquetá – depois, acionaria Lincoln na vaga de Vitinho. Jair Ventura botou Mateus Vital no lugar de Clayson, antes de introduzir também Paulo Roberto e Araos. Nada suficiente. A única possibilidade de se ver um gol no Maracanã estava na aflição do Flamengo em busca de uma bola vadia que, sabe-se lá como, tomasse o caminho das redes. Os rubro-negros não tinham a mínima ideia de como fazer isso além dos chuveirinhos, mas insistiam desesperadamente. E a aflição começava a se notar cada vez mais nas arquibancadas, em uma torcida que rangia os dentes. As imagens da TV mostravam senhores se descabelando, crianças xingando, olhos marejados. O som do lado de fora se abafava pela ansiedade. Um ritual de acreditar e não ser correspondido que se repete continuamente com este time flamenguista.

O quase ficou na ponta da língua. Algumas dessas bolas alçadas até levaram perigo. No entanto, foram diversos os momentos em que o Corinthians afastou como pôde, ou então os anfitriões furaram a bola. Era uma espiral de alternâncias entre os cruzamentos inúteis em vermelho e preto ou os chutões em preto e branco para onde o bico da chuteira apontasse. No mais, todas as finalizações que os rubro-negros conseguiam concluir não tinham qualquer direção. As vaias ecoavam nas arquibancadas. E depois de cinco minutos de acréscimos, o apito final encerrou o martírio de ver uma partida que ardia os olhos. Da inoperância à acomodação, o único placar possível foi mesmo o 0 a 0. Os corintianos finalizaram míseras três vezes em 90 minutos, nenhuma no segundo tempo, contra 21 arremates flamenguistas, pouquíssimos deles que aceleraram os batimentos cardíacos. Além disso, os cariocas cruzaram 32 vezes, somente quatro com sucesso. Os paulistas rifaram 47 bolas. Estatísticas inchadas e desnecessárias quando aquela que mais importa, a de bolas nas redes, morreu por inanição.

E o fim do jogo não levanta uma reflexão apenas sobre a fase dos times, mas sim sobre aquilo que se vende como entretenimento no futebol brasileiro. Um futebol que se resume à espera frustrada por uma jogada bem trabalhada e o mau costume com tanta falta de precisão. É triste pensar que 48,8 mil pessoas pagaram caro pelo ingresso para ver duas equipes tão fracas. Pior também a quem gastou 90 minutos diante da televisão para isso. Jair Ventura terá muito trabalho para construir algo com esse Corinthians. Embora o time mostre acertos defensivamente, não existiu no ataque durante os últimos dois compromissos. Já o Flamengo precisa questionar o que Maurício Barbieri e seus jogadores vêm produzido nos treinamentos. Não se vê uma inventividade sequer nas jogadas, entre a demora nas definições, a falta de movimentação e os medalhões que só querem a bola no pé. Não é uma equipe funcional e que se mostra mais manjada a cada partida. Se há uma esperança para o reencontro em Itaquera, parafraseando Casagrande, é que dificilmente poderá ocorrer algo pior do que o visto no Maracanã.