O duopólio entre Nacional e Peñarol domina o Campeonato Uruguaio, ainda que seu poder não impeça glórias esparsas de alguns figurantes do país. Pelo contrário, há uma frequência razoável de vezes em que Defensor, Danubio ou outro qualquer consegue se intrometer aos gigantes. Bem mais raro, porém, é presenciar uma ocasião em que nenhuma das duas forças apareça entre os dois primeiros colocados de uma competição no Uruguai – e, dentre as ocasionais finais, uma com a ausência dos dominantes. Por isso mesmo, em sua pequenez, o futebol de bairro viveu um domingo histórico. Liverpool e River Plate tiveram a chance de disputar a decisão do Torneio Intermédio, que ocupa a lacuna entre Apertura e Clausura. Fizeram uma baita partida, que premiou, nos pênaltis, os negriazules com o maior título desde sua fundação em 1915.

O Torneio Intermédio é uma solução encontrada pela Associação Uruguaia de Futebol há três temporadas, ao criar um campeonato dentro do campeonato. Para rechear um pouco mais a liga, entre uma perna e outra da competição nacional, a federação apostou em um “mini-torneio” no qual se formam dois grupos com oito equipes e os vencedores de cada chave se enfrentam em uma final. E o certame não serve apenas para “encher linguiça”. Ele dá uma vaga na Copa Sul-Americana, sua pontuação vale para a tabela geral (que classifica às finais anuais do Campeonato Uruguaio) e seu campeão disputa a Supercopa do Uruguai no ano seguinte.

Os grupos do Intermédio foram determinados pela classificação no Apertura 2019. Equipes com posições ímpares ficaram no Grupo A e com posições pares ficaram no Grupo B. Quis o destino que a mesma chave reunisse Peñarol, Nacional, Danubio e Defensor. O River Plate, treinado por Jorge Fossati, parecia o azarão, ao ser incluído como o 15° colocado. Conseguiu surpreender a todos, com uma campanha fulgurante. Permaneceu invicto e terminou na liderança da chave, com um ponto a mais que o Nacional. Encararia na final o Liverpool, oitavo no Apertura, que copou o Grupo B com notáveis seis vitórias em sete compromissos.

Era uma final entre os pequenos, mas grande. O único título do River Plate na elite foi a Copa Preparação, torneio de vida curta realizado em 2012, no qual bateu o Peñarol na final. Além disso, possui seis títulos na segundona e dois vices na primeira. Já o Liverpool nunca ganhara nada além das divisões de acesso. No máximo, tinha um Torneio Início de 50 anos atrás e um jogo-desempate com o Peñarol no Apertura 1995. Poderia erguer uma inédita taça de primeira grandeza. O Estádio Luis Franzini, casa do Defensor, terminou escolhido como palco para a decisão. E, além do interesse pelo inusitado, a partida se provou emocionante. O empate por 1 a 1 se alongou à prorrogação e virou 2 a 2 com mais dois gols no tempo extra. A definição nos pênaltis, por fim, premiou os negriazules com o triunfo por 5 a 4 e permitiu o gosto da rara glória.

Se de um lado a figura principal era Jorge Fossati, treinador que passou a ser aplaudido nos estádios do país pela maneira como o River Plate encarou os gigantes neste Intermédio, o Liverpool contou com a presença decisiva do goleiro Oscar Ustari. O argentino possui uma carreira rodada, que inclui passagens por gigantes como Boca Juniors, Independiente e Newell’s, além de ter trabalhado no exterior com Getafe, Almería, Sunderland e Atlas. Terceiro goleiro da Argentina na Copa de 2006 e campeão olímpico em 2008, o veterano de 33 anos estava sem clube quando abraçou sua aventura no Uruguai. Pegou o pênalti decisivo no Intermédio.

Antes da consagração de Ustari, entretanto, o que se viveu foi uma final intensa. O River Plate começou a partida pressionando bastante e dificultando o jogo dos oponentes, mas não conseguiu segurar o bom ataque do Liverpool, que abriu o placar aos 20 minutos. Artilheiro do Intermédio, o jovem Juan Ignacio Ramírez anotou seu nono tento na competição, com um chute mascado. Já no segundo tempo, apesar de uma bola dos negriazules no travessão, os alvirrubros reagiram e chegaram ao empate aos 25 minutos, graças a um chutaço de Joaquín Piquerez. A igualdade se manteve e proporcionou uma prorrogação ainda mais claudicante.

Nos 30 minutos finais, outra vez o Liverpool tomou a dianteira. Aos oito minutos do primeiro tempo extra, Brian Olivera avançou com liberdade e acertou um chute na gaveta, de canhota. Golaço com letras garrafais. Todavia, depois do que ocorreu na fase de classificação, o River Plate não iria se entregar tão fácil. Arrancou o novo empate na etapa complementar, aos cinco minutos, com Gonzalo Viera. Então, a definição acabou na marca da cal. Durante a série de cinco cobranças, cada equipe acertou uma na trave – incluindo o artilheiro Ramírez. Até que, no início das alternadas, Ustari rebatesse com os pés o arremate de Sebastián Piriz e consagrasse os negriazules.

Nas arquibancadas, era possível se perceber um clima peculiar. Apesar da ocasião memorável, as tribunas não estavam completamente lotadas, o que não significa que careciam de paixão. Notava-se duas torcidas que não estão exatamente acostumadas às glórias, mas que puderam dividir o espaço e torcer avidamente por um tipo de comemoração que gerações não viveram. Entre os presentes para apoiar o Liverpool, havia até mesmo a ilustre presença Nicolás de La Cruz. O meio-campista do River Plate (o argentino) iniciou sua carreira com os negriazules e, aproveitando a pausa da Data Fifa, foi apoiar seu antigo time. É mais um dos valores das categorias de base, que revelaram seis dos titulares deste domingo.

Além de Ustari e Ramírez, outro personagem importante na conquista é o técnico Paulo Pezzolano. Aos 36 anos, o meia-atacante de carreira rodada e modesta teve no Liverpool o seu principal clube nos gramados, com três passagens distintas. Após iniciar a trajetória como treinador no Torque e conquistar a Segundona em 2017, ganhou uma chance com os negriazules. Logo no primeiro ano, classificou o time à Copa Sul-Americana. Agora, novamente terá a chance de disputar o torneio continental, mas com uma taça que possui valor maior.

O desafio de Pezzolano aumentará nos próximos meses. O Liverpool estabeleceu um estilo de jogo que representa uma quebra no futebol uruguaio, com posse de bola e saída paciente desde a defesa, onde o jovem zagueiro Sebastián Cáceres (já negociado com o América do México) se destaca pela condução. A excelente sequência permitiu a classificação à decisão do Intermédio e, em uma partida aberta, a loteria dos pênaltis premiou os negriazules. Repetir o desempenho no Clausura, especialmente pelas cobranças que existirão, não será uma simples missão. Mas, neste momento, o clube se permite sonhar. E o sonho não poderia ser mais concreto do que o brilho prateado de uma taça nas mãos.