Numa Espanha recheada de opções, mas carente de protagonistas, Ferran Torres reivindicou os holofotes contra a Alemanha

Fica até difícil apontar quem foi o melhor jogador da Espanha nos 6×0 sobre a Alemanha, nesta terça-feira. Vários atletas fizeram uma partida de gala no Estádio Olímpico de La Cartuja. O meio-campo certamente foi a chave ao sucesso, com a trinca formada por Rodri, Koke e Fabián Ruiz mandando no jogo. Álvaro Morata abriu a porteira ao placar elástico. José Gayà foi muito bem no apoio pela esquerda, enquanto Dani Olmo também infernizou a marcação por ali. Mesmo sem ser exigido defensivamente, Pau Torres comandou a zaga. De qualquer maneira, fica difícil não dar um destaque especial a Ferran Torres. O ponta do Manchester City anotou três gols, criou chances para mais e também se saiu muitíssimo bem ao gerar ocasiões aos companheiros.

A Espanha é uma das seleções mais bem servidas de nomes no momento. Há bons jogadores em praticamente todas as posições, sobretudo do meio para frente. No entanto, pensar em uma equipe titular da Roja não é das tarefas mais simples. Há poucos atletas realmente inquestionáveis, como acontece com Sergio Ramos na zaga ou Thiago Alcântara no meio. Na maioria das outras posições, há talentos que buscam a afirmação na equipe nacional, mas que não têm necessariamente um histórico que garanta a titularidade. Ou então são veteranos que não passam por uma fase tão reluzente assim, a exemplo de David de Gea ou Sergio Busquets.

Desta maneira, a Espanha depende de novos protagonistas. E foi exatamente neste posto que Ferran Torres se alçou, pela maneira como destroçou a Alemanha em Sevilha. Aos 20 anos, o ponta tem uma grande margem de progressão. Vinha sendo um dos melhores jogadores do Valencia e se transferiu ao Manchester City, procurando seu espaço na Premier League. A tripleta contra os alemães pode significar justamente a explosão de um talento que pode servir de referência à Espanha, enquanto Luis Enrique acerta seus ponteiros.

O próprio treinador aponta que não tem um time titular tão bem definido. Tenta se aproveitar da abundância de qualidade e do momento de seus jogadores. Ainda assim, é importante contar com aqueles que chamem a responsabilidade nos momentos importantes. É para isso que Ferran Torres aponta, arrebentando no duelo decisivo pela Liga das Nações. Conseguir regularidade é outro desafio ao novato, mas a Roja se beneficia quando esses possíveis destaques se prontificam a dar um passo além.

A recuperação de Morata na Juventus já é bastante bem-vinda à Espanha, mostrando-se o centroavante mais confiável para esse momento. Nomes como Adama Traoré, Gerard Moreno e Mikel Oyarzabal tentam mostrar serviço, com Dani Olmo em vantagem por sua versatilidade e poder de criação. Ainda há Ansu Fati, que agradou em suas primeiras aparições pela Roja e tende a seguir bem cotado quando se recuperar de lesão, caso mantenha o brilho tão intenso no Barcelona. Assim como o prodígio blaugrana pode fazer estrago, Ferran Torres também se mostra pronto a desequilibrar.

Ferran Torres soma sete partidas pela Espanha. Havia anotado seu primeiro gol no segundo jogo, os 4 a 0 sobre a Ucrânia pela Liga das Nações. Nesta Data Fifa, apareceu duas vezes como titular e recompensou a aposta em Sevilha. Seu nível de desempenho ainda depende diretamente do que acontecerá no Manchester City, onde é um nome esporádico, embora tenha marcado gols em suas três primeiras aparições pela Champions League com o clube. Muito incisivo e habilidoso, o ponta demonstra que merece consideração de seus treinadores, pela forma como agrediu a Alemanha na goleada histórica.

Não é a goleada sobre a Alemanha que deve alçar a Espanha de imediato como favorita à Eurocopa. Vale lembrar que o time também goleou a Croácia por 6 a 0 na última Liga das Nações, com os adversários badalados pela campanha na Copa do Mundo, e mesmo assim não conseguiram se classificar ao Final Four. Há um processo contínuo e que ainda não está totalmente consolidado, até pelas questões pessoais que interromperam a continuidade de Luis Enrique no cargo durante as Eliminatórias da Euro. Mas as bases são interessantes e, com um pouco mais de acerto, dá para esperar os espanhóis bem mais competitivos – como não conseguem ser desde 2012.

Entre os goleiros, Unai Simón vem em momento mais seguro e reivindica a titularidade. A lateral direita tem nomes rodados como Dani Carvajal e Sergi Roberto, enquanto na esquerda José Gayà e Sergio Reguillón devem ser opções por anos. Já na zaga, enquanto Sergio Ramos sustenta a braçadeira, Eric García e Pau Torres devem ascender. O meio possui um trio idealizado com Rodri, Thiago e Koke, mas também várias outras peças possíveis – como Sergio Canales, Marcos Llorente, Dani Ceballos, Mikel Merino ou o próprio Fabián Ruiz, excelente ao sair do banco contra a Alemanha. Por fim, o ataque pode ser composto pelos nomes citados acima, além de ter Rodrigo Moreno e Marco Asensio como alternativas na rotação.

Hoje, pelas peças que tem, a Espanha indica um futebol muito mais veloz e direto do que nos tempos de Vicente del Bosque. Foi assim que a equipe atropelou a Alemanha nesta terça. Além disso, é um time muito menos dependente do dualismo de Barcelona e Real Madrid. Não à toa, nomes importantes surgem nos clubes médios de La Liga, que crescem de produção e diminuem os abismos na competição nacional. Ainda que transferido ao Manchester City, Ferran Torres é um retrato desse processo, que agora vem à tona com a atuação meteórica nos 6 a 0.