O Maracanazo é uma derrota explicada, entre diversos motivos, pelo excesso de confiança da seleção brasileira. E os resultados da equipe de Flávio Costa naquele quadrangular decisivo, de fato, foram extraordinários. Em 9 de julho de 1950, o Brasil iniciou sua participação na fase final da Copa de 1950. Aplicou aquela que, ainda hoje, é sua maior goleada na história dos Mundiais: 7 a 1 em cima da Suécia, que tinha uma equipe bastante respeitável na época e vinha de um ouro olímpico recente. Diante de 138 mil no Maracanã, a Seleção dava razões à euforia, numa tarde em que Ademir anotou quatro gols e Zizinho ainda foi elogiado como o melhor em campo.

O Brasil não empolgou tanto assim na fase de grupos da Copa do Mundo. Goleou o México por 4 a 0 na estreia, em goleada vista como “suficiente” por parte da imprensa. Na segunda rodada, o empate por 2 a 2 contra a Suíça no Pacaembu gerou críticas, especialmente pela escalação na qual Flávio Costa priorizou jogadores paulistas por politicagem. A volta ao Maracanã teria o encontro decisivo com o bom time da Iugoslávia, que liderava o grupo naquele momento. Um empate bastaria aos balcânicos. Ao final, a vitória do Brasil por 2 a 0 num jogo tenso garantia o alívio e a confiança ao quadrangular decisivo do Mundial.

Com uma semana de folga entre o fim da primeira fase e o início do quadrangular, o Brasil pôde dar um pouco de descanso aos seus jogadores e Flávio Costa ratificou sua base titular. A equipe entraria em campo com 10 jogadores que estariam no duelo decisivo com o Uruguai, exceção feita ao ponta direita Maneca – que se machucaria exatamente naquela partida contra os suecos, dando lugar a Friaça. De resto, a mesma coleção de craques com Barbosa, Augusto, Juvenal; Bauer, Danilo, Bigode; Zizinho, Ademir, Jair e Chico.

A Suécia, de qualquer maneira, merecia respeito. Os escandinavos tinham uma geração aclamada, capaz de conquistar o ouro olímpico em 1948. Já na fase de grupos, a equipe sobreviveu na chave mais equilibrada do torneio. Venceu a Itália de virada na estreia por 3 a 2 e garantiu a classificação com o empate por 2 a 2 contra o Paraguai. O capitão Erik Nilsson era um raríssimo remanescente da Copa de 1938. Já entre os outros destaques estavam Hasse Jeppson, Knut Nordahl, Kalle Svensson e Lennart Skoglund – os dois últimos ainda integrariam o vice em 1958. Mas não seria a formação mais forte possível, considerando que o trio Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm já brilhava no Milan e não veio ao Brasil.

Dentro do Maracanã, porém, a Suécia serviu de mero sparring à qualidade do jogo brasileiro. O começo do embate, curiosamente, seria equilibrado. Os suecos ameaçaram a meta de Barbosa, enquanto o Brasil lamentaria um tento de Zizinho anulado pela arbitragem. Mas a goleada logo começaria a ser desenhada, aos 17 minutos, quando Jair tocou e Ademir acertou um tiro no canto de Kalle Svensson. Mais organizada, a Seleção passou a tomar conta da partida e, depois de uma bola na trave de Maneca, ampliou aos 36. Danilo armou, Jair tocou por cima do zagueiro e serviu Ademir, que só deslocou o goleiro. Três minutos depois, Chico fez o terceiro. Desta vez Ademir foi o garçom e passou ao ponta, que deu dois dribles no marcador antes de fuzilar Svensson, num bonito tento.

O Brasil não diminuiu o ritmo na volta ao segundo tempo. Antes dos 15 minutos, Ademir já tinha completado seus quatro tentos. O Queixada começou carimbando a trave, antes de marcar para valer. Aos sete, Zizinho esticou ao companheiro, que contou com a colaboração do goleiro. Mestre Ziza acertaria a trave pela terceira vez na partida, enquanto os brasileiros gastavam a bola com passes e fintas. Mas Ademir não estava para brincadeira e, depois de uma envolvente troca de passes, assinalou o quinto com a meta aberta. Somente depois disso é que os anfitriões se acalmariam e tirariam o pé do acelerador.

Sune Andersson descontou aos 22, em falta fora da área que virou pênalti na visão do árbitro Arthur Ellis. Os suecos se animaram com tento, mas encontraram a defesa brasileira bem postada. E, depois dos 40, caberiam mais dois gols à Seleção. Maneca, já contundido, se esforçou para completar o cruzamento de Jair e anotar o sexto. Por fim, Chico pintou os sete, em mais um passe açucarado de Zizinho. Festa para os 140 mil no Maracanã, numa vitória que poderia até ter garantido mais gols. Ao apito final, os presentes ainda aplaudiram os suecos, em reconhecimento por não desistirem do jogo e nem apelarem à violência.

No dia seguinte, o Correio da Manhã exaltava em sua manchete: “Valeu mais a exibição do que o número de tentos. Finalmente conseguiu o selecionado brasileiro tranquilizar a torcida através de uma excelente atuação. Ademir, o artilheiro, e Zizinho, a maior figura. Esportividade e cavalheirismo demonstraram os suecos”. Sobre os destaques individuais, o jornal incluía Bauer entre os melhores em campo, a ponto de compará-lo com Domingos da Guia.

Zizinho era elogiado pela maneira como ritmou o ataque: “Atuou como verdadeira máquina o meia direita nacional. Executou magnificamente o trabalho de pião da equipe, aparecendo ainda como eficiente infiltrador. Pode ser considerado como a mais ativa figura do quadro brasileiro”. Já sobre Ademir, além do oportunismo, ficava claro seu empenho para abrir a marcação: “Além dos quatro tentos que conquistou, confirmando as suas qualidades de grande artilheiro, conduziu-se admiravelmente como desbaratador da retaguarda sueca”.

O Diário de Notícias, por sua vez, elogiava Barbosa: “Muito bom nas poucas, porém excelentes, intervenções que praticou. Uma única vez sua meta foi vazada. Para tal ser conseguido, foi necessário transformar-se uma falta fora da área em penalidade máxima”. Zizinho também era o mais aplaudido no periódico: “O grande trabalhador do time nacional, a maior figura dos brasileiros. Incansável elemento de ligação entre as linhas média e atacante. O grande número de tentos deve-se em grande parte à sua ação em campo”. O colunista José Brígido ainda escrevia: “Zizinho foi a figura máxima do ataque brasileiro. Teve a preocupação de amor à equipe. Enquanto Jair não se mostrava combativo, não disputava a bola, ele lutava com sangue, servia os companheiros, realizava um trabalho de ligação e de alimentação do ataque que o torna a figura mais impressionante das ofensivas que até agora vimos atuar no Mundial”.

Mais curiosas eram as críticas a Jair e a Chico. O ponta, autor do tento mais bonito, foi analisado assim no Correio da Manhã: “Mesmo sem ter produzido grande atuação, mostrou-se mais desembaraçado desta vez. Marcou dois tentos, o primeiro de bela feitura, contribuindo decisivamente para o triunfo de nossas cores”. Já sobre Jair, responsável por três assistências, assim analisavam: “Não atingiu ainda a sua plena forma. Contudo, esforçou-se bastante e transformou-se num colaborador valioso para o grande feito”.

Ao Jornal dos Sports, o técnico Flávio Costa declarava que pediu aos jogadores para diminuírem o ritmo no segundo tempo: “Não houve desinteresse espontâneo dos jogadores. Depois do quinto tento, lembrei-me de que quinta-feira teremos pela frente a seleção da Espanha. Era, portanto, necessário economizar energias. E foi por isso que dei instruções para que evitassem as jogadas mais difíceis, os lances em que fosse necessário o emprego do corpo”.

“Foi muito boa a produção de nossa equipe. Vencemos um rival bem credenciado. Não foi possível aos escandinavos resistir ao nosso poderio ofensivo, porque de fato os nossos craques não deram margem a qualquer reação. Gostei dos suecos. Perderam com dignidade. Foram cavalheiros e tiveram o grande mérito de lutar até o último instante”, complementava o treinador. “As vitórias são a compensação do trabalho. Felizmente, tudo vai caminhando à altura do desejado. E isso já representa alguma coisa nesse período de grande responsabilidade que vive o futebol brasileiro”.

Nascido na Inglaterra e grande mentor da seleção sueca, o técnico George Raynor era outro que se rendia, em aspas reproduzidas pelo jornal A Noite: “Perdemos para uma equipe que representa uma das forças máximas do futebol mundial. A Inglaterra nem nenhum outro quadro teria chance frente ao jogo praticado hoje, pelos brasileiros. O time brasileiro apresentou-se em campo fazendo lembrar uma orquestra bem regida”.

Zizinho, por sua vez, também indicava ao jornal A Noite a sua simpatia com os adversários derrotados: “Jogamos bem e vencemos. Precisávamos desse triunfo para nos candidatarmos ao título, que tanto ambicionamos, de campeões do mundo. O nosso quadro acertou e por isso rendeu à altura da nossa expectativa. Lamento, entretanto, que a contagem tenha sido tão chocante para com os nossos leais amigos da Suécia. Mesmo batidos por tão pesado score, os suecos mantiveram uma linha de conduta impecável, merecendo por isso nossa admiração”.

O Jornal dos Sports ainda reproduzia um texto de Willy Meisl, jornalista vienense radicado em Londres e irmão do lendário Hugo Meisl, treinador do Wunderteam da Áustria na Copa de 1934. Mesmo acostumado ao futebol-arte, o autor se rendia: “Finalmente vimos o Brasil jogando em sua forma máxima. Tiro o maior chapéu do país ante este 11 e ante Flávio Costa como representantes do futebol brasileiro. Contra os suecos, jogaram futebol como se deve jogar. Foram virtuoses perfeitos, verdadeiros malabaristas com a bola e podem fazer de tudo o que quiserem com o couro”.

“Apanham-no com um pé no ar, o deixam cair e atiram sem pulo com o outro pé. Suas cabeças são melhores do que tudo o que vi até hoje, mas sobretudo guardam a bola no chão e infiltram-se com um padrão de jogo tão bonito, sobre o excelente gramado de seu estádio, que qualquer oponente deve se tornar maluco. Até hoje, a grande revelação deste campeonato era o magnífico estádio. Agora, vimos lá um jogo digno deste monumento único”, concluía. “Foi o maior futebol que vi em muitos anos. Esta espécie de futebol quase sumiu da Europa e com certeza da Grã-Bretanha. Mas mesmo na Áustria, Hungria, Iugoslávia, onde costumamos jogar futebol similar, não podíamos jogá-lo com a velocidade tremenda dos brasileiros. Não conheço um país que possa escalar onze artistas deste valor atualmente”.

Já Mário Filho pontuava em sua coluna: “A medida da capacidade do scratch brasileiro foi dada no match contra a Suécia. O scratch brasileiro pode jogar como jogou contra a Suécia se se dispuser ao mesmo esforço. Se cada jogador assumir consigo mesmo o compromisso de dar o melhor de si mesmo. Exaltemos essa vitória perfeita, uma das maiores que já conquistou o football brasileiro. Nenhuma outra, até agora, elevou tanto o nome do football brasileiro no mundo. Foi a vitória do coração e da técnica. Da arte e da ciência. Agora o scratch brasileiro tem mais uma coisa a defender: é a repercussão mundial dessa vitória. A impressão de assombro da crítica mundial diante desta vitória. Desta exibição maravilhosa”.

Por fim, no Sport Illustrado, Luiz Mendes já cravava que o campeão começava a surgir no Maracanã: “Se continuar jogando assim, o Brasil não perderá o Mundial. A verdade nua e crua, doa a quem doer, é que domingo flutuaram aos olhos de 200 mil pessoas as verdadeiras virtudes contidas no imenso estoque de possibilidades do futebol nacional. É assim o futebol brasileiro. Não é só aquilo que vimos contra o México. Não é cheio de defeitos como o foi contra a Suíça e nem somente o que se viu contra a Iugoslávia. É, isso sim, o que se pôde ver esta última vez no Estádio Municipal. Sem tirar nem pôr”.

Naquele mesmo dia, Uruguai e Espanha também se enfrentaram no Pacaembu. Empataram por 2 a 2, o que reforçava o favoritismo do Brasil. Alcides Ghiggia abriu o placar à Celeste, a Fúria virou com dois tentos de Estanislau Basora e Obdulio Varela buscou o empate no segundo tempo. Os espanhóis viajariam ao Rio de Janeiro para encarar a Seleção quatro dias depois. E tomariam outro vareio, em histórica goleada por 6 a 1. Outra dose enorme de fascinação antes do drama em 16 de julho, contra os uruguaios.

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Sobre este jogo, vale conferir ainda o texto de 2018 publicado pelos amigos do Sem Firulas, responsáveis também pelo vídeo acima, com narração da rádio nacional. Abaixo, as páginas do Correio da Manhã, do Diário de Notícias e do Globo Sportivo.