Faz alguns anos que Danilo não pode mais ser considerado um jogador do Corinthians. Ele é uma instituição do clube, que permanece no Parque São Jorge às vésperas do final de sua carreira. A história do meia com a camisa alvinegra é inquestionável. Poucos atletas inspiram tanto respeito quanto o veterano, inclusive de torcedores rivais – e não necessariamente apenas do São Paulo. Dono de uma categoria acima da média e de uma inteligência tática descomunal, foi herói em tantos títulos marcantes corintianos, sobretudo a Libertadores e o Mundial. Nos últimos meses, a presença de Danilo no elenco soou meramente figurativa, por consideração – não apenas pelos 39 anos, como também pelas muitas lesões que o impediram de atuar regulamente desde 2016. E eis que em um momento de desesperança, a aura do velho ídolo brilha. Herói ao sair do banco e arrancar três pontos salvadores contra o Bahia, anotando os dois gols na vitória por 2 a 1.

O grande ato final de Danilo parecia reservado à vitória sobre o Fluminense no Brasileirão de 2017, o jogo que confirmou o título nacional ao time de Fábio Carille. O veterano saiu do banco e, retornando de lesão, participou da festa ao substituir Jô. Aplausos a quem contribuiu tanto ao clube e que, por tabela, mais por sua influência nos bastidores, também tinha sua parte naquela nova taça. O meia, todavia, não se contentou em parar naquele momento. Seguiu em frente em 2018, mesmo que suas aparições pudessem ser contadas nos dedos. Há coisas que não se esquece dentro de campo, mas fica difícil de forçar a mente quando o corpo não ajuda.

O problema é que o desmanche do Corinthians voltou a abrir espaço a Danilo. A situação do elenco é desanimadora aos torcedores, com tantos jogadores importantes deixando o Parque São Jorge. E por que não confiar naquele que fez tanto? Por que não dar uma chance ao talento, à cabeça arejada? Por que não oferecer espaço a um exemplo aos outros, quando tantos parecem não valorizar o peso da camisa? Se Emerson Sheik era uma constante no time, mesmo com todos os seus poréns, não era loucura dar um pouco mais de espaço a Danilo. Ele tem créditos. É o que acontece de maneira mais frequente com Jair Ventura e que, em algum momento, poderia dar certo. Este sábado foi o momento certo.

Neste segundo semestre, Danilo não tinha jogado mais do que 15 minutos de um jogo. Desta vez, virou solução para o segundo tempo na Arena Corinthians, suplantando o próprio Sheik. A mobilidade nunca foi seu forte, embora as pernas hoje estejam mais cansadas. Ainda assim, é um cara que conhece os atalhos do campo, que tem sua presença, que sabe fazer os outros jogarem. E sua estrela não demoraria sequer um minuto a brilhar. Passou livre por trás da defesa e estava sozinho para completar o cruzamento de Fágner. Depois de mais de dois anos, voltava a balançar as redes, visivelmente radiante.

O Corinthians viveria suas provações. E o próprio Danilo foi candidato a anti-herói na noite, aos 37 minutos. A experiência virou meninice ao puxar Nílton dentro da área, em pênalti claro que Clayton converteu. O relógio já apontava o final do jogo e o Corinthians estava prestes a desperdiçar pontos em duelo importante contra o rebaixamento. O erro do veterano, contudo, pareceu mais uma daquelas peripécias do destino para valorizar sua noite de gala. Que noite: aos 43, a defesa do Bahia afastou parcialmente, para Danilo emendar uma bicicleta mortífera. O corpo cansado e limitado é o mesmo que se estirou ao máximo, como nos melhores tempos da juventude. Pronto a oferecer sempre mais. Pronto a deslumbrar. Pronto a entregar o melhor ao escudo no peito.

O sinal de alerta permanece ao Corinthians, apesar do resultado vital. O time chega aos 39 pontos, dois a mais que o Bahia, e ocupa o 11° lugar. De qualquer forma, são apenas cinco pontos acima da zona de rebaixamento, e com um aproveitamento recente inferior ao de outros concorrentes. É preciso pegar a calculadora. Mas no final, se a salvação mesmo vier, três pontos reluzirão de maneira especial. A noite em que Danilo foi aquele que os corintianos sempre amaram. Aquele que, esperam, possam amar outras vezes. E que talvez amem em outras oportunidades até sua prometida aposentadoria em 2019, aos 40 anos. Sob as expectativas de que seja na própria Série A.