Há partidas de futebol que não permitem a ousadia de desgrudar os olhos da tela. O ato petulante de virar a cabeça em outra direção ou de zapear um canal diferente pode gerar punições pesadas – como perder detalhes do que ficará marcada como uma ocasião memorável. Tottenham e Bayern de Munique proporcionaram um desses jogaços nesta terça-feira de Champions League, em Londres. Não bastou ter visto um lance ou outro na estrondosa goleada dos bávaros por 7 a 2. Foi necessário desfrutar cada instante ao longo daqueles 90 minutos vividos em máxima intensidade.

Afinal, era um jogo para se ver por completo. E, na realidade, foram dois jogos em um só. O primeiro tempo não deu qualquer pista da goleada, embora já se esperasse um placar elástico. Os dois times buscavam o ataque sem cessar e não aliviavam na hora de finalizar. Entre várias defesaças dos goleiros, o placar pendia ao Bayern, mas com um 2 a 1 de virada e que não escondia como o Tottenham poderia ter feito mais. O segundo tempo, porém, guardou um recital. Não foram apenas os ingleses que pagaram por seus erros: os alemães também exibiram um futebol prazeroso, jogado em direção ao gol. E ninguém resumiu melhor esse espírito quanto Serge Gnabry. O ponta fez a partida da sua vida, com quatro gols e outras chances mais. Merece os aplausos por 45 minutos que foram, ao mesmo tempo, aula e show da equipe de Niko Kovac.

 

A certeza de que não seria uma partida qualquer veio logo aos dois minutos. A primeira chance de gol surgiu ao Bayern, mas sem que a bola terminasse nas redes. Gnabry recebeu a enfiada de Kingsley Coman e partiu em velocidade para cima da defesa descomposta. Soltou a bomba de fora da área e viu Hugo Lloris espalmar. A resposta do Tottenham não tardaria. Son Heung-min saiu cara a cara com Manuel Neuer e viu o goleiro se agigantar à sua frente. Era uma partida completamente aberta, entre dois times velozes e que jogavam no campo de ataque.

A trocação seguiria intensa. Neuer travava um duelo particular com Son e voltou a segurar um chute rasteiro do atacante na sequência. Entretanto, uma saída de bola errada do Bayern permitiu que o Tottenham abrisse o placar aos 12 minutos. Corentin Tolisso reclamou de uma falta e entregou a bola no pé de Tanguy Ndombélé. O volante encontrou Son passando livre pela direita e o sul-coreano finalizou cruzado. Neuer até tocou a bola, sem evitar o tento. Naquele momento, os Spurs eram superiores e se valiam de seu jogo vertical para explorar as aberturas do Bayern. Foi importante aos bávaros não se abalarem depois do tento.

Desde o início da partida, o Bayern jogava com a posse de bola. Tentava se postar mais à frente e adiantava a marcação. A estratégia não vinha dando certo, mas logo os bávaros encontraram as fragilidades da marcação do Tottenham. O empate saiu logo aos 15 minutos. Joshua Kimmich pegou a sobra na entrada da área, limpou a marcação de Ndombélé com enorme facilidade e acertou um belíssimo chute de fora da área, que morreu no canto da meta de Hugo Lloris. Os bávaros estavam vivos no jogo.

O Tottenham ainda parecia preparado a retomar a vantagem antes dos 30 minutos. Os Spurs encaixavam os contragolpes e quase sempre pegavam a defesa alemã exposta. Harry Kane chegou a driblar Neuer, mas não concluiu bem. Além disso, o goleiro teria papel fundamental para evitar o segundo tento. O veterano faria uma defesaça em bomba rasante de Ndombélé. Segurava o resultado e aumentava a confiança de seu time. Melhor dos londrinos, Son ainda tentaria mais uma vez, em tiro que saiu com muito perigo para fora.

Nos 15 minutos finais, o Bayern deu um passo à frente na partida. O Tottenham não conseguia imprimir a mesma velocidade, permitindo que os adversários se impusessem à frente. Os bávaros atacavam pelos lados do campo, assim como Philippe Coutinho encontrava mais respiro para construir. O primeiro aviso veio com Gnabry, que bateu cruzado e parou em uma ótima defesa de Lloris. E a virada saiu aos 45. Robert Lewandowski já tinha iniciado a jogada, com um drible de corpo na linha de fundo que rendeu o cruzamento. A confusão imperou e os alemães até pediram pênalti. Nem foi preciso. O próprio Lewa dominou a sobra e virou com maestria, mandando um arremate cirúrgico no cantinho. Não era uma atuação superior exatamente do Bayern, mas a precisão nas finalizações de média distância valeu a diferença.

A goleada do Bayern começou a ser construída no início do segundo tempo. Neuer até foi exigido a realizar a primeira defesa da etapa complementar. Todavia, a tentativa do Tottenham em se postar mais à frente permitiu aos bávaros atingir sua velocidade máxima. Gnabry voou baixo, maltratando a desprotegida defesa dos Spurs. O terceiro gol do Bayern aconteceu aos oito minutos. Gnabry tabelou na lateral e arrancou em direção à área. Nenhum adversário conseguiu pará-lo, até que limpasse o chute e mandasse a bola no canto de Lloris. Dois minutos depois, uma saída errada dos Spurs garantiu o quarto. Tolisso apertou a saída e roubou a pelota. Entregou o presente a Gnabry, que anotou mais um.

Por incrível que pareça, o Tottenham até ensaiou uma reação depois do frouxo início do segundo tempo, mesmo sem demonstrar a mesma aceleração no ataque. A arbitragem assinalou um pênalti bastante contestável, mesmo depois da revisão no VAR, em que Danny Rose parecia ter chegado mais duro que Coman. Neuer até acertou o canto, mas Kane converteu. Ainda restavam dois gols para assegurar o empate, mas os Spurs iam para cima. Christian Eriksen deixou o banco aos 19, no lugar de Ndombélé. Quase marcaria o gol logo na sequência, em chute de longe que parou uma defesa monumental de Neuer, espalmando para escanteio. Contudo, a esperança fez Pochettino colocar Lucas Moura e Erik Lamela. As alterações não surtiram o efeito esperado e permitiram o atropelamento dos alemães nos dez minutos finais. Abertos, os londrinos acusaram o baque.

Os três últimos gols do Bayern aconteceram num intervalo de cinco minutos, entre os 38 e os 43. E o quinto gol representou um golpe no ânimo do Tottenham. Thiago Alcântara acertou um lançamento absurdo do campo de defesa. Conectou Gnabry nas costas da defesa e o ponta foi ainda mais espetacular no domínio. Botou na frente, antes de chutar na saída de Lloris. Depois disso, os Spurs pararam. Os dois últimos gols vieram fáceis, no que mais parecia uma pelada. Em contragolpe possibilitado por uma roubada de bola no meio, Coutinho deu uma linda assistência com a parte de fora do pé e Lewandowski fuzilou. Por fim, caberia a Gnabry fechar a contagem. Outro desarme na saída e o alemão reafirmou sua qualidade nos chutes, tirando do alcance de Lloris. Neste momento, a torcida inglesa até deixava as arquibancadas. O baile terminou com um só dono.

O resultado é emblemático sobre o mau momento do Tottenham, uma semana após a vexatória eliminação na Copa da Liga Inglesa para um adversário da quarta divisão. Foi a primeira vez em sua história que o clube tomou sete gols como mandante. O time não se encontra neste início de temporada e deixou evidentes muito de seus problemas. Ainda que alguns jogadores tenham se saído mal, coletivamente os Spurs também falharam demais na proteção. Apenas quatro meses depois da final da Champions League, Mauricio Pochettino atinge o fundo do poço em sua passagem pelo norte de Londres. Reconstruir o moral não será uma simples missão, ainda que o Grupo B da Champions, com Olympiacos e Estrela Vermelha, permaneça acessível na luta pela classificação às oitavas de final.

O Bayern de Munique, por sua vez, chega ao ápice desde a contratação de Niko Kovac. A equipe tem feito boas partidas na Bundesliga, apesar de certas oscilações, e reassumiu a liderança nesta rodada. Nada comparado ao que se viu nesta terça-feira avassaladora. É importante frisar como os bávaros suportaram o desafio e venceram a queda de braço numa partida parelha durante o primeiro tempo. A disputa pelo gol da seleção parece motivar Neuer a recuperar seu melhor nível e o goleiro jogou muito. E se outros astros apareceram bem, como Lewandowski ou Coutinho, quem se reivindica cada vez mais como protagonista é Gnabry. O bom futebol não vem de hoje, mas o alemão teve uma atuação para ser chamado de craque.

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