O Estádio Santiago Bernabéu presenciou uma das melhores atuações do Real Madrid na temporada. Durante 70 minutos, os merengues deram sufoco no Barcelona. Bloquearam os caminhos dos rivais e aproveitaram as avenidas do campo para atacar com extrema velocidade. No entanto, futebol é feito de eficiência. E poucos placares recentes são tão díspares ao que aconteceu em campo quanto os 3 a 0 do Barcelona nesta quarta-feira. Depois do empate por 1 a 1 no Camp Nou, os blaugranas consumaram a classificação à final da Copa do Rei. Parecia até que os papéis haviam se invertido. O Real, um time reconhecido por ser letal, desperdiçava muitas chances. Vinícius Júnior fazia uma partidaça, mas pecava nas conclusões. Enquanto isso, o Barça era mero figurante, até o momento em que soube decidir. Resguardados por um Ter Stegen outra vez enorme, os catalães contaram com as escapadas de Dembélé e o poder de fogo de Luis Suárez, recuperado na hora certa. O apito final deixava uma sensação estranha. Os visitantes comemoravam, mesmo distantes de uma atuação que justificasse tal diferença no placar.

Santiago Solari confiou em uma formação leve para o Real Madrid. Karim Benzema era acompanhado por Vinícius Júnior e Lucas Vázquez na linha de frente. Além disso, o responsável por proteger a meta merengue era Keylor Navas, com Thibaut Courtois no banco. De resto, a espinha dorsal tradicional dos madridistas, inclusive com o ascendente Sergio Reguillón na lateral esquerda. O Barcelona, por sua vez, vinha alinhado com Sergio Busquets, Ivan Rakitic e Sergi Roberto no meio. Mais à frente, o trio formado por Lionel Messi, Luis Suárez e Ousmane Dembélé. Força máxima para o duelo de peso.

Durante o primeiro tempo, o Real Madrid foi muito mais feliz em seu plano de jogo. Os merengues conseguiram travar o Barcelona na intermediária e avançavam com muita velocidade ao ataque. Vinícius Júnior, mais uma vez, era a principal válvula de escape. Não se via uma partida tão técnica no Santiago Bernabéu, com erros de ambas as equipes. Ainda assim, os anfitriões poderiam ter construído a vantagem nos 45 minutos iniciais. Faltou um pouco mais de calma na definição das jogadas.

A primeira oportunidade do Real Madrid aconteceu aos 18 minutos. Vinícius Júnior recebeu de Benzema, mas mandou por cima do gol. Pouco depois, o ponta voltaria a incomodar. Em uma bola que sobrou ao brasileiro, ele chutou e Marc-André ter Stegen conseguiu fechar o ângulo. Na sobra, Lucas Vázquez também errou o alvo. Os merengues abafavam bem as jogadas, especialmente pelo trabalho de seus meio-campistas. Os desarmes faziam o duelo pender aos anfitriões. Enquanto isso, o Barcelona se reduzia a espasmos, quando Dembélé disparava pela direita. O francês chegou a criar dois bons lances, nos quais não conseguiu conectar alguém para completar.

Nos dez minutos anteriores ao intervalo, o Real Madrid viveu o seu melhor momento. Estava muito mais concentrado na partida e era objetivo em suas ações. Faltou um pouco mais de sorte para abrir o marcador. O primeiro bom lance nasceu em um avanço atrapalhado de Gerard Piqué. Casemiro roubou a bola e lançou com a defesa aberta. Vinícius Júnior arrancou e acabou travado dentro da área, mas ainda conseguiu cruzar a Benzema. O centroavante dominou e bateu, em chute não tão bem colocado, que terminou em defesaça de Ter Stegen. Depois, seria a vez do brasileiro desperdiçar. Desequilibrado, não conseguiu pegar a bola da melhor maneira e mandou por cima do travessão, em ótimas condições.

O intervalo fez bem ao Barcelona. Não apenas por esfriar o Real Madrid, como também por permitir que os blaugranas abrissem o marcador aos cinco minutos. E as arrancadas de Dembélé realmente fizeram a diferença aos visitantes, em mais uma jogada fundamental pelo lado esquerdo. O francês recebeu a enfiada de Jordi Alba e disparou. Próximo à linha de fundo, cruzou para o centro da área e encontrou Luis Suárez. Mesmo cercado, o uruguaio bateu de primeira, rasteiro, sem chances para Keylor Navas. Não era tão merecido pelas circunstâncias do jogo, mas a eficiência permitia que a balança pendesse aos catalães.

O Real Madrid não sentiu o gol. Pelo contrário, os merengues começaram a martelar ainda mais. Apostavam principalmente nas jogadas pela esquerda, com Reguillón fazendo ótimo trabalho no apoio. Porém, a ineficácia nas finalizações continuou impedindo as ambições da equipe. Enquanto os anfitriões insistiam, o Barcelona se limitava aos contra-ataques. E quem realmente segurou as pontas foi Ter Stegen. Aos 16, Reguillón teve tudo para empatar. Apareceu dentro da área e concluiu consciente de cabeça. Parou em uma defesa monumental do alemão, se esticando para negar o tento. Lance essencial aos rumos do clássico. Depois, quem se frustrou foi Vinícius Júnior. O garoto aprontou um carnaval pelo lado esquerdo do ataque. Fez Busquets comer poeira, sambou diante de Nélson Semedo e deixou Piqué no chão. O lateral, contudo, se recuperou para travar o chute e desviar a escanteio.

Parecia um bom momento do Real Madrid. Solari tirou Lucas Vázquez e mandou a campo Gareth Bale. Todavia, as expectativas dos merengues ruíram logo na sequência, com o segundo gol do Barcelona aos 24 minutos. Dembélé representava o pesadelo. Lançado por Semedo, o ponta deu outra arrancada, agora pela direita. Cruzou no meio do pagode e, quando Raphaël Varane tentou cortar de Suárez, acabou mandando para dentro das redes. Pior é que o terceiro tento não tardou. O Pistoleiro foi derrubado na área por Casemiro e ele mesmo cobrou, cruel, de cavadinha. O jogo acabou depois disso. O Barça até poupou jogadores e passou a administrar a vantagem, numa noite em que o anulado Messi nem fez falta. Da mesma forma, não adiantava ao Real manter seu ritmo alto, precisando de quatro gols. Apesar da frustração, Vinícius Júnior arrancou aplausos ao ser substituído. O jeito é pensar nas outras competições.

O Barcelona reafirma sua supremacia na Copa do Rei durante os últimos anos. Os blaugranas vão para a sua oitava final nos últimos nove anos. Além disso, podem conquistar o quinto título consecutivo, aguardando Valencia ou Betis na decisão. A vingança do Real Madrid ficará restrita ao próximo encontro por La Liga. No sábado, o clássico acontece outra vez no Santiago Bernabéu. Será a última chance de tentar encurtar as distâncias na competição, apesar dos nove pontos de vantagem dos catalães. Bem como de tentar lavar a alma depois da decepção nesta quarta-feira.