Nono colocado na Championship e a quatro pontos da zona dos playoffs, o Nottingham Forest anunciou nesta terça-feira a contratação de Martin O’Neill para o comando da equipe, após o clube ter aceitado o pedido de demissão do espanhol Aitor Karanka na última sexta. Embora o norte-irlandês conte com um bom currículo como treinador, sua chegada é, antes de tudo, um apelo à nostalgia: foi com ele no papel de cérebro do meio-campo do time dirigido por Brian Clough que o clube viveu seus melhores anos, no fim da década de 1970.

A carreira de jogador

Nascido em 1º de março de 1952, na cidade de Kilrea, região de Londonderry, na Irlanda do Norte, Martin O’Neill foi um meia revelado pelo Distillery (atual Lisburn Distillery), com o qual conquistou a Copa da Irlanda do Norte em 1971, marcando dois gols na final contra o Derry City, e chegou a disputar a Recopa europeia na temporada seguinte (anotando inclusive um gol no Barcelona, na derrota em casa de seu time por 3 a 1). Poucos meses depois, atraiu a atenção dos olheiros do Nottingham Forest, clube com o qual assinaria em novembro de 1971.

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O Forest não vivia então um momento feliz e acabaria rebaixado para a segunda divisão inglesa ao fim daquela temporada. Mas dentro de alguns anos, uma revolução teria início no clube de East Midlands, comandada pelo técnico Brian Clough e seu auxiliar Peter Taylor, contratados em janeiro de 1975. Com eles – e com O’Neill de titular no meio-campo – o Forest retornaria à elite inglesa em 1977, surpreendendo o país ao se sagrar campeão nacional no ano seguinte.

Meia-armador criativo, O’Neill havia assumido a camisa 7 naquela temporada, mas não atuava aberto pelo lado direito. No esquema de Clough, seu talento e sua visão de jogo eram utilizados mais pelo meio, ao mesmo tempo em que abria o corredor por aquele flanco para o apoio forte do lateral Viv Anderson, o que permitia prescindir de um ponta-direita nato. Naquela campanha tão brilhante quanto surpreendente que levou o recém-promovido Forest ao título da liga inglesa, Martin O’Neill atuou em 40 partidas (sendo 38 como titular) e anotou oito gols.

Além de se tornar peça fundamental na equipe, O’Neill também foi titular nas duas decisões que deram ao Forest o bicampeonato da Copa da Liga, contra o Liverpool em 1978 e o Southampton em 1979. Já na conquista da primeira Copa dos Campeões do clube, o meia foi titular em praticamente todo o torneio e marcou um gol no empate em 1 a 1 diante do Grasshoppers pelas quartas de final em Zurique. Mas acabou ficando de fora do time da final por lesão.

Curiosamente, foi o que permitiu a escalação de Trevor Francis, contratação milionária feita por Brian Clough em fevereiro daquele ano. E o ponta-de-lança fez o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Malmö em Munique. No ano seguinte, entretanto, os papeis se inverteram: Francis ficou de fora por lesão enquanto O’Neill voltou a vestir a camisa 7 na vitória sobre o Hamburgo por 1 a 0 no Santiago Bernabéu, que valeu ao Forest o bi continental.

Foi, porém, o último suspiro daquele esquadrão: as derrotas na final da Copa da Liga para o Wolverhampton, na Supercopa Europeia para o Valencia, na primeira edição do Mundial Interclubes em Tóquio para o Nacional de Montevidéu, além da eliminação na primeira fase da Copa dos Campeões para o CSKA Sofia e a falta de punch para brigar novamente pelo título da liga inglesa motivaram Brian Clough a iniciar uma grande reformulação na equipe.

Após quase uma década no Forest, O’Neill trocou o clube pelo Norwich em fevereiro de 1981. De lá, foi para o Manchester City em junho, retornando aos Canários em janeiro do ano seguinte. Em agosto de 1983, seguiria para o Notts County, rival local do Forest, atuando em uma das últimas temporadas dos Magpies na elite inglesa. No fim da carreira, passaria por Chesterfield e Fulham, mas sem chegar a atuar, pendurando as chuteiras em 1985, aos 33 anos.

Além de ter vivido o auge do Nottingham Forest em sua carreira pelos clubes, Martin O’Neill também foi símbolo de um grande momento da seleção da Irlanda do Norte, pela qual havia estreado em 1971, com apenas 19 anos, e disputou 64 partidas, marcando oito gols. Naquela primeira metade dos anos 80, a equipe dirigida por Billy Bingham se classificou para duas Copas do Mundo (1982 e 1986) e venceu duas edições do Campeonato Britânico (1980 e 1984).

O’Neill ficou de fora da primeira conquista do Home Championship, mas capitaneou a seleção nas Eliminatórias e na Copa do Mundo de 1982, quando os norte-irlandeses avançaram à segunda fase após baterem a anfitriã Espanha. O meia também ostentou a braçadeira nas duas vitórias históricas sobre a Alemanha Ocidental em Belfast e Hamburgo, pela fase de classificação para a Eurocopa de 1984, e no segundo título britânico. Porém, problemas físicos o impediram de jogar o Mundial mexicano, encerrando sua carreira internacional em novembro de 1984.

A carreira de treinador

Como técnico, sua carreira se iniciou em 1987, mas seu trabalho só começou mesmo a ser notado nos primeiros anos da década seguinte, quando levou o pequeno Wycombe Wanderers pela primeira vez à Football League, emendando com mais um acesso, agora da quarta para a terceira divisão, em 1994. Seu ótimo trabalho o levaria ao Norwich, clube que já havia defendido como jogador, mas sua passagem pelo comando dos Canários seria curta.

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De Carrow Road, O’Neill seguiria para o Leicester City (rival do Nottingham Forest na região de East Midlands) em dezembro de 1995. Nos Foxes, ele conduziria a equipe à Premier League ao fim daquela primeira temporada e faria boas campanhas na elite pelos próximos anos. Mas o destaque de seu período no comando seriam as três finais da Copa da Liga em quatro anos: em Wembley, o time levantou a taça em 1997 (batendo o Middlesbrough) e em 2000 (derrotando o Tranmere Rovers) perdendo apenas em 1999 para o Tottenham.

Semanas após levantar seu segundo troféu da Copa da Liga, ele trocaria o Leicester pelo Celtic, onde viveria seu melhor momento como treinador: logo em sua primeira temporada, levantaria a tríplice coroa nacional, com a liga e as duas copas, chegando a golear o rival Rangers por 6 a 2 em seu primeiro Old Firm. Nas temporadas seguintes, ele conquistaria mais duas vezes a liga e a Copa da Escócia (com uma dobradinha em 2004) e levaria os Bhoys à final da Copa da Uefa em 2003, perdendo para o Porto de José Mourinho na prorrogação.

Em maio de 2005, após se tornar o técnico mais vitorioso do clube desde o lendário Jock Stein, O’Neill surpreendeu ao anunciar seu afastamento do cargo para que pudesse acompanhar o tratamento de sua esposa, Geraldine, que sofria com um linfoma. Pouco mais de um ano depois, em agosto de 2006, ele voltaria ao futebol dirigindo o Aston Villa. Em sua primeira temporada, ele elevaria a posição do time do 16º lugar obtido na anterior para o 11º e em seguida ao sexto, classificação que se repetiria nas duas campanhas seguintes.

Também chegaria à final da Copa da Liga de 2010 com o clube, sendo derrotado pelo Manchester United. Embora com um trabalho em geral bem avaliado, os sucessivos fracassos na busca por uma vaga na Liga dos Campeões e a insatisfação com os recursos escassos para contratações levaram à saída do treinador em agosto de 2010, a poucos dias do início da nova temporada.

Seu trabalho seguinte seria no Sunderland, seu clube de coração. O bom começo logo após sua chegada em novembro de 2011 logo se esvaneceu, e a passagem pelo Stadium Of Light terminou na primeira demissão de sua carreira, em março de 2013, com os Black Cats próximos da zona de rebaixamento. Meses depois, no início de novembro, seria convidado a dirigir a seleção da Irlanda (a república, não a sua Irlanda do Norte de origem).

O primeiro objetivo era classificar os irlandeses para a Euro 2016, a ser disputada na França. Num torneio expandido para 24 seleções, a equipe terminou em terceiro em seu grupo classificatório, atrás de Alemanha e Polônia, e avançou para os playoffs, nos quais deixou pelo caminho a Bósnia-Herzegovina, empatando em 1 a 1 em Sarajevo e vencendo por 2 a 0 em Dublin. Seria a terceira vez em que a Irlanda participaria do torneio, depois de ter jogado em 1988 e 2012.

Na Euro 2016, os irlandeses caíram num grupo equilibrado, com Itália, Bélgica e Suécia. Estrearam empatando em 1 a 1 com os suecos depois de terem saído na frente no placar e sofrerem um gol contra. Na segunda partida, foram batidos pelos belgas por 3 a 0, o que deixava apenas a vitória sobre os líderes e já classificados italianos como resultado que daria a classificação. E ela veio, com gol de Robbie Brady, a cinco minutos do fim.

Nas oitavas de final, diante dos franceses donos da casa, o mesmo Robbie Brady abriu o placar logo aos dois minutos cobrando pênalti. Os irlandeses foram para o intervalo com a vantagem surpreendente, mas sucumbiriam no segundo tempo a uma virada relâmpago da França, através de dois gols de Antoine Griezmann, aos 13 e aos 16 minutos, despedindo-se da competição.

Uma nova decepção viria nas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia, quando os irlandeses outra vez chegaram aos playoffs, mas foram goleados em casa por 5 a 1 pela Dinamarca após terem obtido um bom empate sem gols na partida de ida em Copenhague. A campanha fraca na Liga das Nações, na sequência, acabou levando à demissão de O’Neill, em novembro.

O Nottingham Forest que o treinador assume vem fazendo água na Championship: após um bom começo de temporada, o time vem de vencer apenas uma partida (4 a 2 sobre o Leeds em 1º de janeiro) em suas últimas sete pela liga, com quatro derrotas. Contra o Norwich, fora de casa, na rodada de Boxing Day, chegou a abrir 3 a 0, mas sofreu o empate com dois gols nos acréscimos.

Além disso, embora faça três de seus quatro próximos jogos em seu estádio, o retrospecto recente do Forest no City Ground não vem sendo animador nos últimos meses (somou apenas 11 pontos dos últimos 24 disputados). O’Neill tem história no clube. Agora precisará demonstrar novamente o perfil de liderança que tinha como jogador para iniciar uma chacoalhada no elenco já a partir da partida deste sábado contra o Bristol City, sétimo colocado.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.