Jorge Manuel Marques Gonçalves pegou uma bucha. Com a renúncia de Ilídio Lico, tornou-se presidente da Portuguesa no pior momento da história do clube. A realidade é a terceira divisão do futebol nacional e a segunda do estado de São Paulo. O Canindé está interditado, mas nem o estádio seria a salvação porque os bons resultados nele andam tão escassos quanto dinheiro no cofre. Os salários estão atrasados. A credibilidade, abalada pelo caso Héverton. Nunca houve a possibilidade de encerrar as atividades do time de futebol, mas o novo comandante da Lusa está muito consciente do trabalho monumental que tem pela frente.

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“É o fundo do poço, sim, mas espero que não tenha areia movediça”, brinca, embora Jorge Gonçalves seja bem humorado na medida exata, mas muito mais objetivo, com a cabeça moldada por uma carreira como administrador e advogado no campo das finanças. Perfeitamente apropriado para uma Portuguesa cheia de dívidas, a cada dia diante de uma despesa diferente, sem muitas alternativas para gerar renda e pagar os seus compromissos. Investir no time parece um sonho distante.

O caminho tem que ser trilhado passo a passo, com calma e método, como a personalidade do novo presidente. Antes de cada resposta nessa entrevista exclusiva à Trivela, ele respira fundo e pensa por alguns segundos. Uma frieza que contrasta com as decisões impulsivas de diretorias anteriores que deixaram a Portuguesa nessa situação. Para Jorge Gonçalves, a chave está na estrutura e na organização, duas coisas que deixaram a Lusa na mão no final de 2013, quando Héverton foi escalado irregularmente no caso que rebaixou o time à Série B.

Há um mês no cargo, quer começar por aí. Aperfeiçoar o sistema de informação do clube para poder prestar contas com precisão, profissionalizar o departamento de futebol com pessoas competentes e usar o legado da Portuguesa para ganhar dinheiro. Enfim, fazer o básico, o que no mundo da terceira divisão do futebol nacional é mais do que o suficiente para se destacar. Na história recente do clube, também. Na última empreitada, conta com a ajuda de Luis Paulo Rosenberg, ex-vice de marketing do Corinthians.

“Fiel não é o torcedor do Corinthians, fiel é o torcedor da Portuguesa. Temos envergonhado nosso torcedor há muitos anos. E se o Rosenberg conseguiu trazer o Corinthians de volta para o local onde ele merece estar, espero que ele consiga fazer com a Portuguesa a mesma coisa”, afirma.

Confira a entrevista exclusiva com o novo presidente da Portuguesa:

Jorge Manuel Gonçalves, novo presidente da Portuguesa (Foto: Globo Esporte)
Jorge Manuel Gonçalves, novo presidente da Portuguesa

Queria que o senhor falasse um pouco da sua trajetória dentro da Portuguesa. Como o senhor chegou a esse cargo de presidente?

Eu comecei nos infantis (Risos). É meu terceiro mandato como conselheiro. Fui chamado para ser vice-presidente do Conselho Deliberativo. Ano passado, fui chamado para ser tesoureiro. Aceitei e sai do conselho. Pouco tempo depois, o vice-presidente financeiro renunciou e fui eleito vice-presidente financeiro. Em março, o presidente renunciou, e como determina o estatuto, eu assumi a presidência.

Todos os cargos tem a ver com finanças. É essa a formação do senhor?

Sou administrador de empresas e advogado, mas minha formação é na área tributária. A área financeira não me é estranha, sei ler balanços. O que me estranha é a área financeira do clube. Da onde veio essa informação? Você nunca sabe. Não existem sistemas de informação confiáveis. A gente tem sistemas de informação que não conversam (entre eles), o que não faz sentido. Tem muito retrabalho. E como não conversam, o pessoal acaba criando mecanismos informais de controle, planilhas, essas coisas. Você tem dificuldade para entender da onde vem aquela informação. E não é bom isso. Precisamos sempre de informação confiável e não temos isso. Além de não ter sistema confiável, pararam de pagar a empresa que fazia a manutenção do sistema. Estamos fazendo os pagamentos para retomar o uso desse sistema para poder processar uma série de informação que estavam fora para fazer a prestação de conta.

Quais foram os principais problemas da Portuguesa no Paulista?

Eu poderia dar duas respostas, depois vou falar qual a mais correta. A Portuguesa fala: “Olha, não tinha dinheiro, não tinha condições boas de disputar um campeonato. O assunto ficou muito sob responsabilidade do vice de futebol, mas cabia à presidência dar algum tipo de suporte, alguma orientação, e parece que isso não ocorreu, ou não ocorreu da forma que seria boa, tanto que acabamos caindo”. Essa é uma resposta. A outra é que esse período nada mais é que o caminho que a gente já vem trilhando há boa data. Você não investe na infraetrutura, não investe na categoria de base, tenta buscar alternativas, empresários que indicam jogadores, e não tem uma equipe com jogadores que ficam mais de dois anos na Portuguesa. Toda hora troca de plantel, troca de técnico, troca tudo, e o resultado final não pode ser outro a não ser resultados ruins. Rebaixamento acho que é o fechamento desse ciclo. Espero que feche, realmente. Não dá para falar que perdemos um jogo que não podia perder, isso é desculpa. Faltou estrutura, cuidado com a base, investimento onde deveria ter investido, e isso já vem há muito tempo. Foi mais um resultado colhido daquilo que semeamos. Semeamos coisas ruins e colhemos coisas ruins.

Por que o senhor decidiu demitir o técnico Ailton Silva antes de uma partida decisiva, contra o São Paulo, que poderia valer a permanência da Lusa?

Isso foi conversado com a diretoria e a vice-presidência. Até falei com o técnico que, em outro momento do clube, ele poderia desenvolver um trabalho mais adequado. Não tinha condições efetivas de avaliar o trabalho dele porque faltaram muito respaldo, estrutura e até material humano de melhor qualidade. Um comportamento, que acho ruim, é o discurso de “a gente já fez muito pelo que a gente tem, se não cair já está bom”. Acho que a Portuguesa não pode se acostumar com esse discurso. Como não pode, tentamos, tirando o técnico, mudar um pouco essa mentalidade. Não estou dizendo que a mentalidade era dele, mas eu tinha que falar “vamos para o tudo ou nada”, “vamos tentar com outro comandante”. Não concordo com a ideia de que o tecnico seja um fuzível, que você deixa queimar e depois substitui, mas naquele momento pareceu que precisávamos de um ânimo diferente.

O Canindé quase vazio para Portuguesa e Luverdense (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
O Canindé é aonde o torcedor da Portuguesa mais se sente em casa (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

O time não ganhou jogo em casa no Campeonato Paulista e teve renda negativa. O quanto fez falta o Canindé?

Achar que o Canindé não faz falta seria uma estupidez, porque é óbvio, é aqui que a torcida se sente em casa, o jogador se sente em casa. Acho importante voltar a usar o Canindé. Mas eu faria um paralelo: na série B, ano passado, jogamos 18 vezes no Canindé e ganhamos dois jogos. Se é importante que joguemos na nossa casa, parece não ter sido determinante jogar na nossa casa para nos darmos bem. Se para a torcida é importante, para a gente ter resultado, além de ter um bom estádio, um bom campo, um local bom para a prática do futebol e agradável, precisamos de mais do que isso. Precisamos de alguma estrutura e isso não temos. A gente sabe que é importante jogar no estádio. Vamos liberar o estádio, mais dia menos dia, será resolvido. Mas se não tiver um time minimamente compatível com a Portuguesa, podemos jogar no Pacaembu, no Morumbi, no estádio do Corinthians, do Palmeiras, no Maracanã, em lugar de final de Copa do Mundo: se o time não estiver bem, não vai adiantar nada.

Por que está demorando tanto para liberá-lo?

Não posso dizer por que foi interditado ano passado, eu só estou com a incumbência de tentar resolver desde 20 de março. Não saberia dizer o que aconteceu. Mas a partir do momento que eu entrei, fui à prefeitura com o vereador Marco Aurélio Cunha para liberar. Eu consegui, mas assumi um compromisso de regularizar o Canindé, um processo que não existe desde 2004. Temos que andar com isso. Comunicamos a PM,  ela veio aqui e ratificou o laudo que já tinha feito dizendo que faltam algumas pequenas obras. Fomos ao Ministério Público pedindo um prazo para realizar essas obras e foi feito um Termo de Ajustamento de Conduta para podermos jogar. Espero que mais dia menos dia consigamos liberar o estádio.

Até a estreia da Série C consegue?

Acredito que sim.

No começo do ano, os salários estavam atrasados. Como está a situação salarial da portuguesa? 

Os salários não estão em dia. Não queria entrar em muito detalhe, mas a gente deve, sabe que deve, a intenção é pagar, mas não temos condição de fazer frente a esse pagamento. Temos rendas penhoradas que nos ajudariam, houve algumas situações, multas, rendas da Portuguesa que ficaram com a CBF, por responsabilidade da Portuguesa. Então, estamos um pouco limitados nessa margem para pagar os jogadores. Estamos com um projeto para recuperar o clube, e com esse projeto, mostrando a empresas, sócios e conselheiros que vale a pena investir na Portuguesa.

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Segunda divisão do Paulista, terceira do Brasileiro, estádio interditado, salários atrasados. É o fundo do poço da Portuguesa?

Espero que não piore. Talvez a principal forma de você resolver os problemas é saber que eles existem. Nós fomos rebaixados para a Série A2 do Paulista e não queríamos que isso acontecesse, não estava nos planos, mas aconteceu, então, isso por um lado nos obriga a tentar montar um time, este ano e para o ano que vem, que seja suficientemente capaz de tanto defender bem as cores da Portuguesa na Série C, de preferência que a gente suba, e se for possível como campeão, e na Série A2 ano que vem. Por um lado, parece que esse choque de realidade da nossa condição acabou fazendo com que a gente agora tenha que trabalhar mais para resolver isso, mas, na verdade, é o fundo do poço sim. Espero que não tenha areia movediça embaixo.

Qual o seu plano para tirar a Portuguesa dessa situação?

Eu poderia falar que vamos conseguir uns R$ 3 milhões por mês de investimento, mas não é isso. Até porque, perdemos muito da nossa credibilidade com o caso Héverton, que meramente catalizou uma situação, mas não foi um ponto fora da curva. Aquele era o caminho, (o caso Héverton) só acelerou a queda. Até posso dizer que entendemos que a punição foi severa demais, que o Estatuto do Torcedor prevê outro tipo de situação, que (a suspensão) deveria ser publicada no site da CBF, mas isso é uma questão jurídica. Para a Portuguesa, isso evidencia que a nossa estrutura de acompanhamento de jogadore não funcionou. O que a gente está pensando em fazer, mais do que ter um plano mirabolante que depois não se realiza, é estruturar o clube para que não tomemos nenhum susto. Isso facilita. Os investidores têm certeza que o dinheiro que colocarem aqui está sendo bem utilizado. Se eu pedir um milhão para uma empresa, eles vão perguntar: quais os jogadores? Não conheço nenhum. Qual o critério? Ano passado, contrataram mais de 50 jogadores. O que estamos defindindo com a diretoria nova é: vamos ter critério, vamos ter um limite de salário. Vamos ter algum tipo de compromisso de desempenho. Acho que é muito mais uma prática de trabalho que vai tirar a Portuguesa do buraco, não um plano mirabolante. Se eu trouxesse um monte de dinheiro, não sei por onde ele seria gasto. Cada dia descobre uma despesa aqui, outra ali. Isso tem que ser bem identificado.

Em que pé está o planejamento para a Série C?

Eu diria que está bem adiantado. Já temos uma equipe de futebol avaliando nossos adversários, vendo quais jogadores temos que ter, contratando alguns jogadores, avaliando alguns técnicos. Estão avaliando o tipo de local que vamos jogar, que tipo de condições vamos ter. Essa equipe ja tem experiência de Série C, de subir times da Série C. Não adianta eu contratar o melhor técnico da Série A. Ele teria muito a ensinar, mas não teríamos a aprender.

O senhor contratou dois gerentes de futebol que trabalharam no Mogi Mirim, um clube que subiu para a Série B. O senhor buscou isso? Experiência de terceira divisão?

Digamos que é um elemento importante. Se tiveram capacidade, em um clube estruturado, mas que não tem a mesma tradição da Portuguesa, acho que se estruturarmos, aliado à tradição, teremos um bom resultado.

Na questão do técnico também? Segundo o seu vice, vocês estão buscando um técnico que conhece a Série C, jovem, inteligente. Até vazaram alguns nomes: Geraldo Dellamore, Leo Condé, Tarcisio Pugliese, Mabília e Junior Lopes. São esses mesmo?

Eles que estão avaliando. Eu não sei todos nomes. Eu passo os critérios, depois eles avaliam, porque eu tenho que cobrar deles. Se eu falo “coloca esse”, eles falam que fui eu que coloquei. Conversamos e definimos os parâmetros. Não sei se tem mais algum nome. Esses eu me lembro deles falarem, sim.

Os parâmetros são esses mesmos: experiência, juventude e inteligência?

Sim. Que consiga ter dos jogadores o melhor desempenho possível. Tem um filme sobre baseball, o Moneyball, que o cara, ao invés de pegar os melhores jogadores, pega jogadores que se completam. Não tenho 50 pau para pagar para o jogador, tenho que conseguir jogadores que se completem e que trabalhem em equipe, e um técnico que reconheça esses potenciais dos jogadores e faça isso funcionar. Parece que esses técnicos vem tendo um bom desempenho com jogadores sem tanta mídia. Acho que é esse o caminho.

Quem o senhor pode contratar hoje?

Esse tipo de jogador, que seja inteligente, dinâmico, que tenha vontade de estar na Portuguesa, um clube extremamente tradicional, uma ótima chance de dar uma alavancada na carreira, de repente até continuar aqui na Série B, Série A, quem sabe. A ideia é não ficar trocando todo o plantel a cada seis meses.

Ano passado, saiu uma notícia de que o Audax ofereceu o time para a Portuguesa disputar a Série B. Ilídio recusou. O senhor aceitaria?

É difícil. A Portuguesa tem uma tradição de formação de jogador. Não posso, por exemplo, ter um monte de plantinhas surgindo e colocar um tapete em cima. Preciso dar espaço para meus jogadores jogarem. É da onde provavelmente vou obter recursos. É óbvio que gostaria de contar com a qualidade da infraestrutura do Audax, do Red Bull, empresários sérios. Mas essa situação em que todo vêm e eu praticamente bloqueio meus jogadores, não. Se for algo assim, quero uma mistura entre o que eu tenho na casa com alguns jogadores que venham dessa parceria, e definiríamos alguma participação de jogadores, algum resultado por esses jogadores terem participado do campeonato e usado a Portuguesa como vitrine. Simplesmente colocar um novo time, não.

Luis Paulo Rosenberg, ex-vice de marketing do Corinthians
Luis Paulo Rosenberg, ex-vice de marketing do Corinthians, ajudará a Portuguesa?

Tem outros clubes em situação parecida com a Portuguesa, como Guarani e América-RJ. O senhor chegou a conversar com eles para saber como é essa realidade?

Talvez eu tenha errado em não ter conversado com esses dirigentes. Sim, eu deveria ter conversado com o presidente do Guarani para saber por que o Guarani está nessa situação, com o próprio América, um time extremamente tradicional, Bangu, o próprio Juventus, Portuguesa Santista. Mas agora, até pela nossa situação desesperadora, estamos procurando ver onde deu certo. Por isso que estamos conversando com o (Luis Paulo) Rosenberg, e ele vai nos ajudar. Não estou de forma nenhuma querendo comparar a Portuguesa com o Corinthians. Mas a paixão que a torcida tem pela Portuguesa é comparável. Fiel não é o torcedor do Corinthians, fiel é o torcedor da Portuguesa. Temos envergonhado nosso torcedor há muitos anos. A fidelidade do torcedor da Portuguesa é até maior. E se o Rosenberg conseguiu trazer o Corinthians de volta para o local onde ele merece estar, como grande equipe, como tradição, espero que ele consiga fazer com a Portuguesa a mesma coisa.

Qual é o lugar onde a Portuguesa merece estar?

Temos um processo todo. Eu entendo que a Portuguesa tem que disputar a Série A e estar na A1 do Paulista, ter um bom desempenho na Copa do Brasil, Sul-Americana no futuro. Mas não é demérito nenhum cair uma hora ou outra. O Botafogo caiu, o Fluminense caiu, o Vasco caiu, o Palmeiras caiu. Times com muita tradição que caíram, mas aparentemente eles pararam de repetir os erros e de fazer esse movimento de sobe e desce. O que eu pretendo é que a Portuguesa se estruture de forma a não ter mais essa situação de sobe e desce. Uma hora pode acontecer? Pode. É futebol, não é uma matéria exata. Vamos pegar o ano de 2013, que caímos pela situação (caso Héverton), perdemos quatro pontos e fomos rebaixados. Sofremos um empate contra o Coritiba em um gol escandalosamente impedido do Bill no último minuto. Dois pontos, estaríamos livres. Foi anulado um gol do Valdomiro contra o Botafogo e ele não estava impedido. Mais dois pontos. Por um erro, um evento qualquer, um erro de arbitagem, podemos cair. Se tivessemos esses quatro pontos, não seria a Portuguesa a rebaixada. É lutar por uma estrutura que sempre nos direcione a manter a Portuguesa na Série A, na A1 do Paulista e indo bem nos outros campeonatos. Sem estrutura, vamos ficar (na primeira divisão) em ciclos, e os ciclos estão cada vez menores.

Como foi a conversa com o Rosenberg?

A conversa tem sido ótima. Ele está muito entusiasmado. Ele entende que a Portuguesa tem uma vantagem que é a baixíssima rejeição. Em 1996 (final Grêmio x Portuguesa), isso ficou muito claro, não foi apenas do estado de São Paulo (que torceu pela Lusa), mas muita gente de outros estádios, até o pessoal do Inter. Mesmo no final de 2013, quando fomos para a Paulista (protestar), muita gente de outros times foi nos apoiar. A gente brinca que a Portuguesa é uma paixão de alguns poucos, mas muita gente gosta. A gente está tentando encontrar a forma de transformar esse discurso em matéria atraente para os investidores.

O que o senhor espera dele?

Que ele desenvolva o trabalho dele com muita competência. Isso que eu espero. Competência. Compromisso ele está tendo, tem se dedicado bastante. Mas tem sido muito generoso. Às vezes tem que trocar e-mail no final do dia ou logo de manhã. Ele está pessoalmente envolvido.

Uma das opções para reerguer a Portuguesa seria vender o Canindé. O que o senhor acha dessa ideia?

São coisas um pouco diferentes. Vender o Canindé é abrir mão de um patrimônio imobiliário, e como não tenho estrutura para saber para onde vai esse dinheiro, em pouco tempo ficaríamos sem o Canindé e sem dinheiro. Um abusrdo. Vender, não. Temos ouvido algumas propostas para rentabilizar nosso patrimônio e começar a obter renda. Com locação de espaços, talvez construir um centro comercial, alguma coisa que dê retorno para o clube para que você tenha um horizonte de renda. O futebol traria tanto de renda, poderia ser deficitário, mas eu teria uma renda suficiente para bancá-lo ou até alavancá-lo.

E vender parte do terreno?

Talvez nem isso. Depende da proposta que vier, mas talvez seja simplesmente, por exemplo, o caso do Palmeiras. O terreno é do Palmeiras, o imóvel é do Palmeiras, mas o aproveitamento da receita vai para o investidor. Uma parte vai para o investidor. Isso vai diminuindo e toda renda que for gerada, em alguns anos, vai para o Palmeiras. Ele não perdeu o patrimônio, está apenas esperando ter toda a renda.

Acha que parte da torcida rejeitaria qualquer coisa que afetasse a tradição do Canindé?

Sempre acho que o Canindé, para nós, é diferente que outros estádios para outros clubes. Há muito de suor dos nossos tios, avós, pais, na construção do Canindé. Não é uma relação meramente econômica, é pessoal mesmo. Se tivermos um bom projeto, e que a alternativa para termos uma estrutura para crescer é demolir o Canindé e construir outro estádio, acho que podemos conversar isso com a torcida. Acho que é importante que isso seja feito de forma transparente, sem que a torcida seja enganada. “Olha, talvez provavelmente nossa situação seja essa”. Explicar por que é A e não B. Qualquer investimenteo desse tipo tem que ser decidido pelos sócios, não sou eu que decido.

Em 2006, quando a Portuguesa escapou do rebaixamento para a Série C na última rodada, falava-se que o clube de futebol teria que ser fechado. Agora, está na terceira divisão. Isso chegou a ser cogitado?

Não. Que eu saiba não. Nunca soube. Seria uma medida muito dura, muito difícil de ser tomada. Acho que quando você tem problemas, tem que buscar soluções para superá-los. Fechar o time talvez fosse uma solução, mas não sei qual seria o resultado disso. Não teria despesas, mas também não teria possibildiades de receitas. Não consigo imaginar isso, não.

A Portuguesa sempre revelou muitos jogadores, mas quando isso parou de acontecer? O que aconteceu com a categoria de base?

É aquele caminho do qual temos falado. Está desestruturada. Não tem condições boas para a disputa dos campeonatos, a formação dos jogadores. Se não tiver isso, uma hora vai perder os maiores talentos porque eles cansam de não ter oportunidade, de não ter condições boas de trabalho. É isso que temos que fazer. Reestruturar tudo, inclusive o futebol de base. Tenho que pensar que essa nova geração quer resultados quase imediatos. Se eu não tiver condições de falar para um moleque de 15 anos que ele vai para o sub-17, depois para o sub-20, depois para o profissional, ele já vai para outro time.

Como a comunidade portuguesa, principalmente os mais abastados, pode ajudar a Portuguesa neste momento?

Permitindo que a gente demonstre um novo projeto. Porque são pessoas extremamente competentes no que escolheram fazer e que têm credibilidade. Precisamos demonstrar isso para eles. Acho que o clube inteiro deveria ser um pouco mais profissionalizado, mas vamos aos poucos profissionalizando para mostrar competência e buscar credibilidade. E temos que ter transparência, resgatar a importância que a torcida dá para o clube, que o clube também dá à torcida. Voltando a ter respeito. Durante anos estamos envergonhando a torcida. Temos que buscar de novo o encantamento. Quero que eles façam (investimentos) porque eles são da comunidade portuguesa e amam a Portuguesa, mas também porque eles reconheçam que agora vale a pena investir.

O senhor marcou um Simpósio para os torcedores no sábado. De onde surgiu essa ideia?

A torcida sempre quis participar mais da vida do clube. É provável que ouçamos várias sugestões muito boas, mas que não sejam, talvez exequíveis agora, mas por que não juntar tudo isso e falar “esse é o norte que temos que ter”? A ideia é abrir o clube para as pessoas falarem: clube é meu, é de todos que estão dispostos a ajudar.

Que tipo de ideia?

Mas aí eu vou estar induzindo o pessoal a apresentar as ideias. Deixa eles apresentarem. O que eu quero, também, o fundamental é que as pessoas se sintam à vontade para ajudar o clube, sugerir o que elas acham relevantes. Depois, a gente esquematiza e coloca em prática, vê se dá para fazer, mas o fundamental é que eles falaem: esse clube é meu.

Torcida do Fluminense protesta em frente ao STJD
Torcida do Fluminense protesta em frente ao STJD

Como o senhor viu o caso Héverton?

Eu era torcedor. Fiquei extramamente aborrecido. Eu tinha ido em Campinas contra a Ponte Preta, ganhamos, fiquei muito aliviado, que bom não caímos. Viemos para cá, um jogo que não tinha muita disputa, porque estava tudo relativamente resolvido, um jogo sem susto. Mesmo que a gente perdesse, não seria problema. Vim para o estádio tranquilo, contra o Grêmio, um time bom. Termina o jogo zero a zero. Está bom, terminou o campeonato. No dia seguinte, fico sabendo que o clube foi rebaixado. Não é nada bom, é muito triste. Como dirigente, eu acho que foi uma tremenda demonstração de falta de organização. Acho que esse tipo de coisa não pode ser assim. “Tomou um jogo”, “Mas foi mais um ou o que já cumpriu?” Não pode ser feito por telefone. Poderia ter mandado um e-mail, que fica registrado. Mas acho que como dirigente foi uma falta de organização. Como torcedor, continuo achando que a punição foi demasiada.

Os torcedores falam que a CBF, o Flamengo e o Fluminense mataram a Portuguesa. O senhor concorda com isso?

Não. Eu acho que a torcida da Portuguesa, ou pelo menos algumas pessoas, tem uma visão que é muito ruim para o clube. Uma visão de coitadinho, cada um faz o que bem quiser com a Portuguesa. Não. A Portuguesa vem nesse caminho há muito tempo. Se alguém colocou a Portuguesa na UTI, foi a própria Portuguesa. Foi uma sucessão de dirigentes que levaram a Portuguesa a essa situação. Não posso dizer que os outros times foram beneficiados porque não fizeram nada para receber aquilo. Não posso reclamar do Flamengo, do Fluminense, da CBF. Se eu não tivesse colocado o jogador, o que teria acontecido? Poderiam ter me prejudicado? Não. Se cabia a mim me proteger, também só cabe a mim me recuperar.

Acha que um dos erros da diretoria passada foi ter demorado para aceitar o rebaixamento?

Poderia ter feito dois planejamentos, mas é difícil falar, porque o senhor Ilídio falou que foi para o Rio de Janeiro conversar sobre os planos da Portuguesa pensando que teria R$ 22 milhões por ano para gastar. Quando chegou em São Paulo, só tinha R$ 2 milhões. É uma diferença brutal, ainda mais para quem já tem problema de geração de renda. É compreensível que isso cause uma certa dificuldade. Mas, primeiro, a Portuguesa fez muito bem em ter entrado na Justiça porque acho que dirigente que não defende seu próprio time não pode ser dirigente. Agradeço so torcedores que ingressaram na Justiça, mas isso é um assunto que está sendo resolvido por ela. Não significa que temos que ter uma relação ruim com a CBF, o Flamengo, Fluminense, com ninguém.

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O senhor está acompanhando o inquérito?

Sim. Há uns 20 dias, quando pedimos para liberar o estádio, falamos com o promotor. Ele cobrou da Portuguesa algumas informações. Temos uma comissão de ética ligada ao Conselho Deliberativo, que está apurando eventuais responsabilidades dos dirigentes, e cabe ao Ministério Público apurar se houve ou não algum tipo de má fé.

Neste momento em que há muita discussão sobre gestões responsáveis, e Flamengo e Fluminense, no Rio de Janeiro, brigando com as federações, falando em criar ligas, discute-se muito do ponto de vista do clube grande. Mas como a Portuguesa vê essa discussão toda? Uma liga de clubes seria boa para a Portuguesa?

No momento, não teria uma opinião formada sobre isso. Eu vi uma entrevista do Walter Feldman e concordo. É óbvio que gostaríamos de renegociar todos nossos débitos, mas são várias exigências que não são feitas para nenhum outro setor da sociedade. Acho que é óbvio que temos que ter transparência, responsabilidade, temos que tentar não gastar mais do que arrecadamos, mas se pensarmos que uma Portuguesa forte é bom também para os outros times, acho que também conseguimos gerar mais renda. Mas, em 1984, eu fui a um jogo contra o Vasco no Pacaembu, e eu estava acostumado a ficar sempre ali no meião, ter cinco, seis mil pessoas e chegar em cima da hora. Eu cheguei em cima da hora e fiquei embaixo do placar, estava lotado o estádio. Tinha até torcida do Vasco, mas 90% era torcida da Portuguesa. A Portuguesa com boas equipes atrai mesmo quem não torce para a Portuguesa, porque é uma equipe simpática, você leva família, pode levar os amigos, a camisa é bonita. Tem muita gente que usa mesmo sem ser torcedor. Acho que temos muito potencial para alavancar nossa renda. Mas com relação à criação de liga, tudo isso, me parece um pouco fora da minha realidade. Minha ideia é ganhar um bom número de jogos na Série C para me classificar, de preferência ser campeão, e voltar para a Séria A1.

E o Paulista? Poderia ser mair ou menor?

Acho que na verdade essa discussão é um pouco fora de foco. Eu acho que o Campeonato Paulista tem que ter 20 clubes, talvez até mais, mas o que precisa ter de novo é algum tipo de suporte, não sei qual tipo de suporte, para que você tenha novamente equipes que consigam disputar o Campeonato Paulista mais efetivamente. De 30, 40 anos para cá, houve alguns times do interior que foram vice-campeões. O Ituano, por exemplo, surge mais como um empenho de alguns empresário do que de uma tradição. Quando penso no Ituano, estou pensando na Ferroviária, no São Bento, no Tabuaté, no Juventus, na Portuguesa Santista. Vários clubes que já reveleram, tem uma tradição. É isso que acaba motivando a vida esportiva e dá espaço para os times terem novos jogadores. Não conheço bem a experiência da Alemanha, mas não é a base do Bayern que resolve tudo. Tem vários times com bases fortes. Que sejam 20 times e que sejam fortes.

Da onde saiu a paixão pela Portuguesa?

Família. Muito mais da minha mãe que do meu pai. Tanto que teve um jogo que ganhamos do São Caetano por 2 a 0, mas teve dois gols do São Caetano anulados e ele não percebeu. Minha mãe que me trouxe para a inauguração do estádio. Eu acho que a Portuguesa é uma grande família, encontramos muitos amigos. Não sei para qual time você torce, mas se você torcesse para a Portuguesa, eu te conheceria. Você vai para um trabalho: tem um torcedor da Portuguesa em tal lugar. É uma família. Boa parte do pessoal que está hoje atuando na diretoria são amigos, de ir ao estádio juntos, de gritar juntos, de ficar triste quando perde, de ficar super alegre quando ganhamos. Teve um jogo contra o Vasco, em 2001, eu estava com dois amigos, um são paulino e um corintiano. E fomos no Canindé, puta jogo legal. Fizemos 3 x 0, o Vasco fez 3 x 1, fizemos 4 x 1, o Vasco empatou. No último lance do jogo, fizemos o 5 x 4. Os dois pularam tanto que eu pensei que eles iam morrer. Vibraram mais do que eu. Acho que a Portuguesa é importante porque a gente pode fazer isso. Acho que pode ser que tenha gente que vai assistir ao jogo do Corinthians torcendo para outro time, mas não vibra tanto quanto vendo a Portuguesa jogar, mesmo não sendo torcedor da Lusa.