*Por Charley Moreira

O VAR já é uma realidade no futebol brasileiro. Presente na reta final dos campeonatos estaduais deste ano, o árbitro de vídeo também estará disponível nas 38 rodadas do Brasileirão, que começa neste fim de semana. Porém, ao contrário do que acontece em boa parte dos países onde a ferramenta foi implementada há mais tempo, a aceitação ao VAR ainda encontra certa resistência no país.

Nas últimas semanas, diversas pessoas ligadas ao futebol no Brasil se posicionaram contra ou a favor do árbitro de vídeo. O gol (bem) anulado de Raheem Sterling, do Manchester City, contra o Tottenham, pela Liga dos Campeões, e as polêmicas nas finais dos campeonatos regionais afloraram o debate acerca do VAR.

Para deixar o público de futebol mais antenado a respeito da ferramenta e das novas regras que entrarão em vigor no Brasileirão, a CBF inseriu a arbitragem como tema central do último dia do evento “Somos Futebol”, terceira edição da Semana de Evolução do Futebol Brasileiro. A capacitação foi realizada nesta sexta-feira (26), na sede da entidade, no Rio de Janeiro, e contou com a presença de Leonardo Gaciba (presidente da comissão de arbitragem da CBF), Alício Pena Júnior (vice-presidente da comissão de arbitragem da CBF e instrutor de VAR) e Raphael Claus (melhor árbitro do Brasileirão de 2016, 2017 e 2018).

Os três convidados foram unânimes ao opinarem positivamente sobre o VAR e se mostraram otimistas quanto ao uso da ferramenta no certame. Aliás, o Brasil encerrará dezembro sendo o país que mais disputou jogos com VAR do mundo em 2019. “O Brasil pretende, ao final do ano, ser referência em questão de arbitragem de vídeo”, almejou Gaciba.

Mas, para que a projeção do presidente da comissão de arbitragem da CBF se concretize, os juízes precisam otimizar o tempo de resposta da cabine para o campo. A demora na tomada de decisão do árbitro central, esperando a informação do juiz da cabine, é uma das principais críticas ao equipamento. “Nós entendemos que é compreensível esse processo ainda estar levando um tempo além do que a gente considera como ideal”, admitiu Alício Pena Júnior. “O nosso objetivo é reduzir esse tempo em que a informação demora para chegar ao árbitro central”, acrescentou.

Números do VAR na Copa do Brasil de 2018 (Foto: Reprodução/Twitter @CBF_Futebol)

A expectativa da CBF é que o VAR no Brasileirão seja efetivo como na Copa do Brasil do ano passado, onde fora implementado a partir das quartas de final. Segundo dados da entidade, o tempo de bola rolando na competição foi de 57 minutos e 10 segundos, superando a Bundesliga (57 minutos e 3 segundos) e a Copa do Mundo da Rússia (56 minutos e 55 segundos).

Vale ressaltar que o VAR só pode ser usado em quatro situações: gol, pênalti, cartão vermelho e confusão de identidade (cartão amarelo ou vermelho aplicado em jogador equivocado). Erroneamente, o árbitro Leandro Bizzio Marinho, que apitou o último clássico entre Atlético e Cruzeiro, no Independência, pela finalíssima do Campeonato Mineiro, distribuiu cartões amarelos para Geuvânio (Galo) e Edilson (Raposa) após receber informação do juiz que estava na cabine, Leandro Pedro Vuaden.

Reclamações

Raphael Claus, eleito o melhor árbitro do Brasileirão nas últimas três edições, levantou a bola para uma questão que o torcedor brasileiro conhece muito bem: reclamações. Nas últimas semanas, três grandes clássicos que tiveram VAR (Fla x Flu, Gre x Nal e Cruzeiro x Atlético) acarretaram em cartões vermelhos após discussões acaloradas dentro de campo. As expulsões, como de praxe, revoltaram muitos atletas, que partiram para cima do juiz.

Segundo Claus, esse tipo de comportamento passa uma imagem negativa não só dentro de campo, mas também para os torcedores. “Com o passar do tempo, os jogadores também vão mudar o comportamento. Eu gosto muito de exemplificar situações de jogadores em campo que não fazem mal só para o esporte, fazem mal para a sociedade, para as crianças”, alertou.

Defensor do VAR, o professor da EEFFTO (Escola de Educação Física, Fisioterapa e Terapia Ocupacional) da UFMG e coaching esportivo do Cruzeiro, Varley Costa, acredita que, após o período de adaptação da ferramenta no Brasil, os personagens envolvidos com futebol aceitarão melhor as decisões tomadas pelo árbitro. “Estamos num processo de adaptação ao VAR no futebol brasileiro. E vai levar um certo tempo para que todo mundo esteja acostumado e saiba utilizar essa ferramenta, que veio para o benefício do futebol”, afirma, à Trivela.

Varley, ao centro, durante o curso de formação de treinadores da CBF Academy (Foto: Divulgação/UFMG Soccer Science Center)

“Nós sabemos, através de evidências científicas, que é humanamente impossível um árbitro, pelo olhar humano, enxergar todos os problemas ou todos os fatores que acontecem numa partida de futebol. Bem como um assistente conseguir marcar ou não um impedimento em função dos desvios ópticos que ele tem durante uma partida. Então, nesse sentido, o VAR veio para minimizar as injustiças”, completa o doutor em Ciências do Esporte.

Na Itália, uma vez por mês os árbitros se reúnem com os jogadores para elucidá-los sobre atualizações no VAR. O mesmo não acontece no Brasil, mas isso deve ser questão de tempo. É que a CBF coloca os juízes à disposição para palestras e está determinada a fomentar o tema. Inclusive, dos 20 times que disputam o Brasileirão deste ano, somente os jogadores e a comissão técnica de CSA e Goiás não tiveram palestras sobre o árbitro de vídeo.

“Essa tecnologia nova precisa ser aprendida”, alerta Varley Costa. “É de responsabilidade das federações, das comissões de arbitragem e dos próprios clubes incentivarem palestras e debates nesses ambientes, para que os personagens do futebol – atletas, treinadores, árbitros, dirigentes, torcedores – entendam melhor essa ferramenta. (…) Posso te dizer que no Cruzeiro, onde eu desenvolvo um trabalho de coaching esportivo, existem palestras, no sentido de orientar os atletas, sobre o impacto do VAR num jogo de futebol. Ou seja, o que eles não podem fazer mais, porque vai acontecer algo lá em cima e será denunciado.”

VAR em outras divisões

Segundo Leonardo Gaciba, o alto custo do VAR é o maior entrave para que a ferramenta seja implementadas nas outras divisões do Campeonato Brasileiro. O tempo para capacitar árbitros também é escasso. De acordo com o presidente da comissão de arbitragem da CBF, demora 21 dias para formar uma equipe com 30 árbitros de vídeo. E todos os juízes que apitarão jogos no Brasileirão de 2019 precisam ter o curso de árbitro de vídeo. Gaciba conta hoje com 90 juízes credenciados a atuar como árbitro central ou de vídeo no campeonato nacional.

Além disso, os estádios também precisam ter uma chancela para receber partidas com o VAR. Por isso, no certame deste ano não deve haver venda de mando de campo – prática comum nos últimos Brasileiros– visando uma maior renda de bilheteria, visto que nem todos os estádios têm a estrutura adequada para receber jogos com o VAR. “É um processo muito, mas muito profissional”, enfatizou Gaciba.

Para Varley, a CBF precisa criar mecanismos para que o VAR não fique apenas na elite do futebol brasileiro, chegando também às outras divisões. “Se tem algo que a gente ainda pode melhorar no VAR é o custo dele para uma partida, para que isso se torne mais democrático e acessível a todos os clubes”, ponderou.

Varley também torce para que o VAR tenha espaço nas partidas de divisões de base. Segundo o especialista em coaching esportivo, a ferramenta ajudará na educação dos jovens. “Por que [o VAR precisa] estar nas categorias de base? Porque lá você está formando os atletas que, no futuro, estarão no futebol profissional. Então, é importante eles já conviverem com essa tecnologia, que é um processo educacional”, destaca.

Por falar em adolescentes e jovens, Gaciba lembrou, no evento promovido pela CBF, um projeto idealizado em 2017 pelo ex-arbitro José Roberto Wright chamado ‘Apitinho de Ouro’, cujo objetivo é aproximar a garotada do papel desempenhado pela arbitragem. “A gente está tentando fomentar muito em crianças, adolescentes e jovens essa experimentação sobre o que é ser árbitro de futebol”, disse.

Fifa não permite disponibilizar conversas

Alicio, Claus e Gaciba fomentaram o debate sobre arbitragem no último dia do Somos Futebol (Foto: Laís Torres/CBF)

Um dos últimos tópicos abordados na sede da CBF nesta sexta foi a possibilidade de que as conversas entre os árbitros de campo e de vídeo sejam disponibilizadas para o público. Gaciba aprova a ideia, mas esbarra nas regras da Fifa.

“A minha opinião é que essas conversas deveriam ser disponibilizadas. É uma questão de nitidez no processo sobre como funciona o árbitro de vídeo. Só que isso não é interpretativo, no caso, para nós: é uma orientação que saiu agora, mês passado, da Fifa, que não se pode disponibilizar os áudios da cabine do VAR”, explicou.

Apesar disso, Gaciba, Alício e Claus passaram ao público uma imagem positiva e animadora do VAR no Brasil. As críticas à ferramenta e aos árbitros de campo devem continuar, mas a comissão de arbitragem mostra que está trabalhando firme pela implementação. “É um desafio enorme de tecnologia, logística e treinamento, que tem sido levado com muita seriedade e empenho por parte do corpo de instrutores e dos nossos árbitros”, finalizou Alício.

* Charley Moreira é formado em Jornalismo pela Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, ex-coordenador de futebol internacional da VAVEL Brasil, administrador da AC Milan Brasil e colaborador da Calciopédia.