Depois de definir as seleções classificadas às últimas três Olimpíadas através do Campeonato Sul-Americano Sub-20, a Conmebol volta a realizar o Torneio Pré-Olímpico, após 16 anos. A competição tem certos ares nostálgicos, relembrando as acirradas disputas do passado, ainda que represente um novo entrave a clubes e seleções: muitos dos principais jogadores da categoria sub-23 não foram cedidos, sobretudo os que atuam na Europa, enquanto a parte das equipes sul-americanas já em atividade reclamam da cessão, a ponto do Campeonato Argentino quase ter sido postergado. Ainda assim, a expectativa é de um torneio de bom nível pelas duas vagas diretas a Tóquio.

O Brasil aparece como uma clara força, mesmo que a luta pelo ouro olímpico não seja mais tratada como obrigação. A equipe treinada por André Jardine fez uma boa preparação, com muitos amistosos e participações em torneios internacionais, além de realizar um trabalho integrado com o elenco principal. Tite aproveitou seus compromissos para pinçar os jogadores olímpicos, embora muitos deles já tenham ficado em seu grupo rumo às Eliminatórias.

A CBF fez um movimento arriscado na convocação, mas não é que o Brasil virá mais fraco ao Pré-Olímpico. Jardine incluiu diversos nomes em atividade no futebol europeu que, como já era esperado, terminaram barrados por seu clube. A lista de cortados possui nove nomes, incluindo Gabriel Martinelli e Douglas Luiz. Seriam ótimos acréscimos, embora a equipe titular permaneça muito bem servida. Na reta final da preparação, o zagueiro Walce foi o último a deixar o plantel, por lesão.

A defesa é o setor menos badalado e, ainda assim, conta com bons talentos. O ponte-pretano Ivan é o goleiro, enquanto o zagueiro Robson Bambu e o lateral Caio Henrique lideram a linha defensiva. No meio-campo, Matheus Henrique e Bruno Guimarães formarão uma dupla de volantes com nível de seleção adulta, ainda com a opção do ex-corintiano Maycon. A criação terá Pedrinho, Igor Gomes e o caçula Reinier entre os candidatos, enquanto Paulinho e Antony são os prediletos às pontas. Já na frente, a responsabilidade de marcar gols é de Matheus Cunha, liberado pelo RB Leipzig.

Serão três semanas de disputa e, no papel, o Brasil é favorito a assegurar uma das vagas. A Argentina é quem mais se aproxima, também recheada de nomes conhecidos da liga local. Uruguai e a anfitriã Colômbia possuem bons valores, enquanto Paraguai e Equador são candidatos a correr por fora e podem surpreender. Abaixo, deixando um pouco de lado a seleção brasileira, apresentamos os principais destaques de cada uma das equipes rivais e mencionamos outros talentos presentes no Pré-Olímpico.

A competição começa neste sábado, com os duelos pelo Grupo A – composto por Colômbia, Argentina, Equador, Venezuela e Chile. O Grupo B terá Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Peru. Os brasileiros estreiam contra os peruanos neste domingo. Os dois primeiros de cada chave avançam ao quadrangular final, que definirá os dois representantes sul-americanos em Tóquio.

Argentina: Alexis Mac Allister

Alexi Mac Allister, pelo Boca Juniors (Foto: Getty Images)

No papel, a seleção que mais pode incomodar o Brasil é a Argentina. A Albiceleste convocada por Fernando Batista possui bons valores, apesar das ausências dos principais nomes da geração – em especial, Lautaro Martínez. E é importante dizer que, ainda assim, o setor ofensivo dos argentinos está muito bem servido. A força da equipe se concentra do meio para frente. O centroavante Adolfo Gaich terminou 2019 com muitos gols pelo San Lorenzo, enquanto Matías Zaracho é um dos protagonistas do Racing há certo tempo, com muita intensidade nas chegadas. Já a menção principal fica para Alexis Mac Allister. O meio-campista, emprestado pelo Brighton, foi uma das gratas surpresas do Boca Juniors nos últimos meses. Preenche bem a faixa central e chega para definir. Não à toa, veste a camisa 10 e até já foi convocado por Lionel Scaloni ao time principal. Vale destacar ainda o meia Julián Álvarez, xodó do River Plate, e o zagueiro Nehuén Pérez, vital na surpreendente campanha do Famalicão em Portugal.

Uruguai: Diego Rossi

Diego Rossi, pelo Los Angeles Galaxy (Foto: Getty Images)

O Uruguai atravessa um dos momentos mais prolíficos em sua formação de jogadores e, curiosamente, nenhum dos convocados ao Pré-Olímpico passou pela equipe principal. As estrelas sub-23 que fazem parte da Celeste principal ficaram de fora – e não apenas as que brilham no futebol europeu, como Federico Valverde e Rodrigo Bentancur, mas também aquelas que militam na América do Sul, a exemplo do lateral Matías Viña. Assim, as atenções se voltam ao atacante Diego Rossi, que brilha na MLS com o Los Angeles FC. Apesar da camisa 9, o ex-jogador do Peñarol costuma atuar aberto pela esquerda e fez sucesso ao lado de Carlos Vela, contribuindo com gols e assistências. Seu companheiro na frente é Federico Viñas, sensação do América do México nos mata-matas da última Liga MX. O detalhe da defesa é que todos atuam fora do país: os laterais José Luis Rodríguez (Racing) e Maximiliano Araújo (Puebla), bem como os zagueiros Santiago Bueno (Girona) e Sebastián Cáceres (América do México).

Venezuela: Yeferson Soteldo

O baixinho Soteldo, da Venezuela (Foto: Getty Images)

A Vinotinto se destaca pelas boas fornadas reveladas por suas seleções de base nos últimos ciclos. E os venezuelanos contarão com um dos principais jogadores do país ao Pré-Olímpico: a federação conseguiu negociar com o Santos e liberou Yeferson Soteldo em cima da hora, para substituir o lesionado Brayan Palmezano. O baixinho deverá ser o dono do time, com toda a sua capacidade técnica para bagunçar defesas e criar jogadas de gol. E terá uma boa companhia na frente. Jan Hurtado não tem causado tanto impacto no Boca Juniors, mas despontou bem como centroavante do Gimnasia de La Plata. A defesa conta com Josua Mejías e Williams Velázquez, zagueiros que atuam no futebol europeu, após se sobressaírem no Mundial Sub-20 de 2017. Já da liga local, olho em Daniel Saggiomo, camisa 10 que brilhou no título recente do Caracas. E até poderia ser um grupo mais forte, considerando as ausências do goleiro Wuilker Faríñez e do volante Yangel Herrera.

Colômbia: Nicolás Benedetti

Nicolás Benedetti, da Colômbia (Foto: Getty Images)

Dona da casa, a Colômbia possui uma equipe com certa experiência internacional. Sete jogadores da equipe atuam em clubes estrangeiros, incluindo Iván Angulo, que foi levado para a base do Palmeiras após surgir nas seleções de base. E um desses que chegam com força ao Pré-Olímpico é o camisa 10 Nicolás Benedetti. Frequente nos jogos do Deportivo Cali desde 2015, o meia disputou Libertadores e também ganhou convocações à seleção principal. Negociado com o América do México, tenta se firmar na equipe, mas foi titular nas finais contra o Monterrey durante o último Torneio Apertura. Levado pelo River Plate em 2019 após rodar pela Europa, Jorge Carrascal chama atenção por sua habilidade. Mais atrás, o destaque é o volante Kevin Balanta, que atua pelo Tijuana. O camisa 5, inclusive, é o único dos convocados ao Pré-Olímpico que esteve nos Jogos de 2016.

Paraguai: Santiago Arzamendia

Santiago Arzamendia, do Cerro Porteño (Foto: Getty Images)

O Paraguai possui bastante tarimba rumo ao Pré-Olímpico. Nada menos que oito convocados pelo técnico argentino Ernesto Marcucci chegaram a defender a seleção principal. Indica o momento de renovação que a Albirroja atravessa, mas também é um sinal de como a geração possui valores interessantes. Dos que atuam fora do país, Saúl Salcedo é zagueiro titular do Huracán e usa a braçadeira de capitão na seleção sub-23, enquanto Jesús Medina tem uma certa rodagem no New York City. Todavia, a principal fonte é o Cerro Porteño. Por lá jogam Mathías Villasanti e Sergio Díaz (este, pertencente ao Real Madrid Castilla), nomes importantes na criação do Ciclón que também devem ser protagonistas na seleção. Já a referência na contenção é o lateral Santiago Arzamendia, o único desses presente na Copa América. Bom no apoio e polivalente, o rapaz de 22 anos tomou a titularidade na seleção principal e também fez boas aparições na última Libertadores.

Equador: Leonardo Campaña

Leonardo Campaña com a medalha de bronze do Mundial sub-20 (Foto: Getty Images)

O Equador possui uma seleção relativamente jovem para disputar o Pré-Olímpico. Uma das espinhas dorsais na convocação foi o time sub-20 que chegou às semifinais do último Mundial. Jorge Célico, que coordena o trabalho de integração com a base, sabe a importância que a geração possui. Nada menos que 11 jogadores nasceram a partir de 1999, entre eles a maior esperança na frente, Leonardo Campaña. O centroavante faz por merecer as credenciais, aos 19 anos, e prepara sua transferência ao Wolverhampton. É um jogador que sabe aproveitar os espaços e servir seus companheiros, potencializando o ataque, por mais que seu número baixo de gols seja questionado. Há também uma notável influência do Independiente del Valle, campeão da Copa Sul-Americana. Seis jogadores do clube compõem o elenco, cinco deles titulares na decisão contra o Colón. O lado esquerdo tende a dar trabalho com Jhon Sánchez, enquanto Alan Franco e Alejandro Cabeza já passaram pela seleção principal.

Peru: Jesús Pretell

Jesús Pretell, do Peru (Foto: Getty Images)

Um raro time cujo elenco se concentra na liga local. A experiência internacional sobra no comando técnico, encabeçado pelo lendário Nolberto Solano, antigo ídolo do Newcastle e com 95 partidas pela seleção nacional. Todavia, somente um de seus garotos atuam fora do país: o lateral Marcos López, que defendeu o San Jose Earthquakes na última MLS. Assim, o treinador confia no talento dos clubes peruanos e oferece um olhar especial ao Sporting Cristal, com o qual foi vice-campeão da Libertadores em 1997. Seis jogadores saíram do elenco celeste. O maior destaque é Jesús Pretell, meio-campista de 20 anos que esteve presente na última Copa Libertadores. Chegou a ser convocado por Ricardo Gareca à Copa América, mas não saiu do banco na caminhada até a final. Fernando Pacheco, negociado com o Fluminense, veste a camisa 10 e também receberá os holofotes por sua qualidade no ataque.

Bolívia: Henry Vaca

Henry Vaca, da Bolívia (Foto: Getty Images)

A Bolívia é outra seleção que partilha vários de seus jogadores pré-olímpicos com a seleção principal. Nove dos convocados já passaram pelo time de cima, algo natural quando o treinador é o mesmo: César Farías, famoso pelo trabalho que realizou à frente da Venezuela de 2007 a 2013. O treinador é o diferencial de La Verde, com um elenco que passou os últimos meses se esfolando no bagunçado Campeonato Boliviano. Rubén Cordano, José María Castro e Roberto Fernández participaram da Copa América, todos defensores do Blooming. Fernández, inclusive, foi negociado com a Cultural Leonesa depois disso. Mais à frente, os destaques ficam a Moisés Villarroel e Bruno Miranda, ambos campeões com o Jorge Wilstermann e que possuem boa rodagem para a idade. Já a camisa 10 é de Henry Vaca, revelação do Strongest que foi emprestado ao Universitário no meio do ano. O armador não jogou a Copa América, mas é nome frequente nos amistosos da seleção principal.

Chile: Gabriel Suazo

Gabriel Suazo, pelo Colo-Colo (Foto: Getty Images)

A crise política no Chile também atravancou a preparação da equipe sub-23 ao Pré-Olímpico e até mesmo levou o país a cancelar sua presença em uma competição internacional semanas atrás. Reinaldo Rueda acompanhou de perto a preparação, comandada por seu assistente, o inseparável Bernardo Redín. Mas a verdade é que os chilenos não empolgam tanto, em um momento de dificuldades ao país na revelação de talentos. Até existe um número razoável de atletas com convocações ao time principal, cinco, mas não que eles causem tanto impacto. Dois nomes interessantes vêm do Colo-Colo, o meio-campista Gabriel Suazo e o atacante Iván Morales. Suazo, em especial, já é titular há quatro temporadas e se destacou no último Campeonato Chileno. O nome mais conhecido é Ángelo Araos, camisa 10 e único em atividade no exterior. Sem espaço no Corinthians, o ponta arisco foi emprestado à Ponte Preta na última Série B. Da campeã Universidad Católica, o melhor valor é o lateral Raimundo Rebolledo.