Fomos positivamente impactados por toda a solidariedade que o Atlético Nacional, sua torcida e o povo colombiano demonstraram pelo Brasil nas últimas semanas, depois da tragédia com o avião da Chapecoense, que cobrou 71 vidas. Nunca conseguiremos retribuir tanto carinho, mas o destino nos deu uma boa chance de tentar: nesta quarta-feira, os Verdolagas começam a caminhada no Mundial de Clubes, contra o Kashima Antlers, tentando conquistar o mundo da mesma maneira como conquistaram a América e os nossos corações.

LEIA MAIS: Zidane, Rueda, La Volpe: conheça os técnicos do Mundial de Clubes

Caso isso ainda não seja motivo suficiente para o Atlético Nacional ter a sua torcida no torneio japonês – sem falar que, no geral, todo mundo adora apoiar o mais fraco -, separamos nove motivos para você não ter dúvida na hora de tirar a camisa verde do armário nas manhãs desta quarta-feira e do próximo domingo.

Força, Chape
Balões brancos são soltos aos céus no Atanásio Girardot em homenagem à Chapecoense (Foto: AP
Balões brancos são soltos aos céus no Atanásio Girardot em homenagem à Chapecoense (Foto: AP

O Atlético Nacional fez tudo que poderia para apoiar a Chapecoense. Poucas horas depois do acidente, já emitiu nota oficial abrindo mão do título da Copa Sul-Americana, fornecendo aos catarinenses uma vaga na Libertadores, ajuda financeira e uma marca gloriosa em sua história. Abriu o Atanásio Girardot para uma das mais bonitas homenagens que já foram feitas, na história do futebol e da humanidade. Disputou as quartas de final com um uniforme preto, sinal de luto, com o escudo da Chapecoense, enquanto sua torcida fazia um lindo mosaico com “Vamos, vamos, Chapê” e entoava gritos de guerra a favor do Verdão, apenas uma das muitas demonstrações de carinho que reservou à Chape.

Boas ações da principal organizada

A Los del Sur é a principal torcida organizada do Atlético Nacional e a maior da Colômbia. Não são isentos de casos de violência, mas se destacam por algumas boas ações sociais. Tem diversos projetos próximos às comunidades de Medellín. O líder de milhares de apaixonados pelos Verdolagas é o psicólogo Felipe Muñoz, que encontrou uma maneira de canalizar toda a juventude dos seus membros para uma causa melhor do que trocar sopapos por aí. Em 2011, quando a Fifa ordenou que as barreiras de contenção e alambrados fossem retirados do estádio, os Los del Sur assumiram a responsabilidade de realizar a segurança à beira do gramado, impedindo invasões. Tornaram-se a segurança extra-oficial do Atanásio Girardot. Em outro exemplo, no último mês de julho, realizaram a segurança da Taça Libetadores, em exposição em Medellín antes do segundo jogo da final.

Sul-americanos não-brasileiros não vencem o Mundial faz tempo

Desde 2003, contando as edições finais da Copa Intercontinental, apenas brasileiros e europeus venceram o Mundial de Clubes. O Boca Juniors que superou o Milan, nos pênaltis, foi o último sul-americano não-brasileiro a conquistar o torneio. Desde então, o Once Caldas sucumbiu nos pênaltis para o Porto, LDU e Estudiantes fizeram jogo duro contra Manchester United e Barcelona, respectivamente, e os outros representantes sul-americanos, todos argentinos (Boca, River Plate e San Lorenzo) não tiveram nenhuma chance contra os poderosos europeus. Será que o Atlético Nacional quebra essa escrita? Como as últimas semanas demonstraram muito bem, somos todos sudacas.

A festa da torcida

Não são apenas os organizados que fazem uma bonita festa em nome do Nacional. As ruas de Medellín foram tomadas por milhares e milhares de torcedores na noite em que caiu o avião da Chapecoense. Uma multidão acompanhou o elenco até o aeroporto no embarque para o Mundial, e o Atanásio Girardot proporciona um dos mais belos recebimientos da América do Sul. Dá uma olhada nesse, na final da Libertadores contra o Independiente del Valle:

Craques do passado

O Atlético Nacional tem um passado glorioso, principalmente no final dos anos oitenta, quando foi campeão sul-americano pela primeira vez, e um seleto grupo de craques dos quais você talvez já tenha ouvido falar. Todos conhecem René Higuita, certo? Asprilla e Ariztizábal atuaram em clubes brasileiros. Andrés Escobar era jogador do clube durante a Copa do Mundo de 1994 e no dia em que foi assassinado. O timaço campeão da Libertadores também contava com os icônicos Leonel Álvarez e Albeiro Usuriaga. Ainda podemos citar Humberto “Turrón” Álvarez, o primeiro ídolo verdolaga, Horácio Lóndero, o segundo maior artilheiro da história do Campeonato Colombiano, e Mauricio Serna, craque do time da década de noventa. Mais recentemente, nomes como Iván Córdoba e David Ospina passaram pelo Atlético Nacional antes de rumarem à Europa.

Um grande treinador
Reinaldo Rueda, técnico do Atlético Nacional (Foto: AP)
Reinaldo Rueda, técnico do Atlético Nacional (Foto: AP)

O experiente Reinaldo Rueda volta ao mundo do futebol de clubes depois de três trabalhos com seleções – Colômbia, Honduras e Equador – e duas Copas do Mundo. Teve o grande mérito de melhorar a sólida base deixada por Juan Carlos Osório e conquistar a Copa Libertadores. Fez cursos da Uefa, pós-graduação na Escola Alemã de Esportes e é um daqueles treinadores que parecem saber o que estão falando. Chegou a ser especulado para assumir o comando do Cruzeiro, embora negue qualquer contato da diretoria mineira. E ainda é gente boa. “Sentimos (o apoio) do povo brasileiro, do futebol brasileiro, e estamos muito orgulhosos. Este incidente (a tragédia da Chape) nos uniu e nos irmanou mais. Com certeza vamos corresponder”, disse.

Joga um futebol ofensivo e vistoso

Caso o Atlético Nacional consiga surpreender o Real Madrid, dificilmente será com a tática mais comum dos sul-americanos no Mundial, de jogar recuado e especular no ataque. O defensivismo não está no DNA desta equipe verdolaga, cuja marca é o futebol ofensivo e vistoso, desde a época em que era treinada por Osório. Ganhou a Libertadores com 25 gols marcados em 14 partidas – e passou pela fase de grupos sem sofrer nenhum. Teve o melhor ataque do Clausura do Campeonato Colombiano, com 32 tentos em 20 rodadas. Está ciente dos riscos e gosta de corrê-los.

Daqui a pouco eles podem pintar no seu time
Alejandro Guerra, do Atlético Nacional (Foto: AP)
Alejandro Guerra, do Atlético Nacional (Foto: AP)

É natural que um time que se destaca na América do Sul tenha jogadores ligados a transferências para o futebol brasileiro, mais forte financeiramente que o de seus colegas continentais. Macnelly Torres, por exemplo, é especulado por essas bandas com a periodicidade do Natal. Miguel Borja e Alejandro Guerra estão no noticiário do Palmeiras. Guerra também interessa ao Santos, que contratou Jonathan Copete dos verdolagas. Luiz Carlos Ruiz foi emprestado ao Sport e, depois de muitos anos de boatos, Sherman Cárdenas finalmente testou suas habilidades no Brasileirão. Depois de passagem apagada pelo Atlético Mineiro, foi repassado ao Vitória.

Os “paisas”

Ficamos chocados com a solidariedade e o carinho que os colombianos demonstraram em relação à Chapecoense nas últimas semanas e, não por acaso, a maioria dessas demonstrações saiu de Medellín, cidade de Antioquia. Os “paisas”, como são chamados os habitantes dessa região, formam um sociedade muito particular dentro da Colômbia, como explica este belo texto de Sylvia Colombo, na Folha. São religiosos, unidos e solidários, características que tiveram que ser fortalecidas durante o período em que Medellín foi dominada pelo sanguinário Pablo Escobar e seu cartel de drogas. Desde então, a cidade modernizou-se e seu povo encontrou a paz que tanto merecia.