Nos momentos em que não era 007, Roger Moore usou a febre pelo futebol para um mundo melhor

O ator britânico, famoso por encenar James Bond em sete filmes, demonstrava um enorme respeito pela comoção causada pelo futebol

Para quem nasceu e passou toda a infância em Londres, seria meio difícil se manter incólume ao futebol. Assim, o esporte entrou na vida de Sir Roger Moore. Conforme conta em sua autobiografia, quando garoto, batia a sua bola antes de ir para a escola e também colecionava os famosos cards de jogadores que vinham em maços de cigarros. A paixão pelo futebol, apesar disso, não atingiu em cheio o britânico. Mas ele a conhecia muito bem, a ponto de aproveitá-la para transmitir sua luta como embaixador da Unicef. O ator, famoso por seus sete filmes interpretando James Bond, deixa um sentimento de pesar por seu falecimento nesta terça, aos 89 anos. Deixar também boas histórias, algumas envolvendo também o futebol.

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Há algumas referências sobre a possível torcida de Roger Moore pelo Manchester United. Uma relação que parece difícil, para quem permaneceu em Londres até os 12 anos e depois passou parte de sua adolescência na Cornualha, refugiando-se dos ataques à capital durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, em sua página oficial, o ator explicou que não possuía grande fervor pelo esporte. Seu interesse era outro: “Não sou um grande fã de futebol, para ser honesto. Eu aproveito os grandes jogos e a empolgação que eles geram”. Exatamente o que o James Bond fez em agosto de 2002, durante uma visita a Old Trafford.

Roger Moore, de fato, vestiu a camisa do Manchester United – com direito ao número 007 em suas costas. Entretanto, a ação se sugeria mais um protocolo pela ocasião do que exatamente um ato de torcedor. O amistoso dos Red Devils contra o Boca Juniors serviria para arrecadar fundos à Unicef. Desde o ano anterior, o britânico participava de ações em conjunto com a Fifa, para conscientizar sobre a prevenção da Aids entre jovens. Desta maneira, Manchester entrou no roteiro.

No entanto, Moore não estava ali apenas para levantar a sua bandeira. Ele também anunciaria Sir Alex Ferguson como novo embaixador da Unicef. Uma experiência que o ator descreve em sua autobiografia: “Junto com Ferguson, os dois times e eu saímos do túnel ao gramado. Foi extraordinário ver 60 mil pessoas nas arquibancadas. Eu recebi o microfone e anunciei Sir Alex como novo embaixador. Presenteei-o com meu próprio broche da Unicef e disse à multidão que já tinha participado de muitas ‘olas’, mas nunca tinha visto uma do campo. Perguntei se eles poderiam celebrar Sir Alex. Que visão incrível! Que rugido! O United tem feito muito pelas crianças ao redor do mundo”.

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Naquele dia, Roger Moore deve ter ficado satisfeito com o que viu. Ruud van Nistelrooy comandou a vitória dos Red Devils por 2 a 0, com duas belíssimas finalizações. Já as notas infelizes daquele amistoso ficaram pela lesão de Rio Ferdinand e pela expulsão de Carlos Tevez, que deixou o braço em seu futuro companheiro Paul Scholes e acabaria recebendo o cartão vermelho, vaiado na saída de campo.

Além de Old Trafford, Roger Moore visitaria outros estádios pelo mundo como embaixador da Unicef. Uma pena que não tenha vindo neste papel ao Brasil, onde absorveu um pouco mais a paixão que as pessoas têm pela bola. Enquanto estava no país para gravar ‘007 contra o foguete da morte’, em 1979, o britânico percebeu a relação intrínseca dos brasileiros com o jogo. “No Brasil, parece que quase todas as crianças nascem com uma bola de futebol em seus pés. Ele é jogado em todos os cantos, de estádios a campos de terra batida e cimento. Na favela, jogam com bolas feitas de papel ou barbante. […] Ao redor do mundo, o futebol tem um papel importante no bem-estar das crianças: é um grande exercício, que ensina o espírito coletivo, e também é usado na reabilitação daquelas em circunstâncias desafortunadas, particularmente essas que, desde cedo, são pegas e treinadas por milícias para mutilar e matar. Ao longo dos anos, participei da inauguração de dezenas de campos em regiões periféricas, nas quais o desenvolvimento está distante das crianças”, escreveu, em sua autobiografia.

Curiosamente, Roger Moore por pouco não viveu nas telonas um dos maiores clássicos boleiros ao lado de Pelé. Ele foi convidado para atuar em ‘Fuga para a vitória’, mas suas condições físicas naquele momento não permitiriam que contracenasse como um jogador de futebol. Assim, acabou substituído por Michael Caine. Já outra referência cultural futebolística pela qual demonstrou apreço é o livro ‘Febre de Bola’, de Nicky Hornby. Em 2009, recomendou a leitura em entrevista ao jornal Telegraph.

“O esporte pode ser uma das maiores válvulas de escape da vida (especialmente se você gosta de natação), por isso parecia que um livro sobre futebol nunca poderia nos dizer nada tão profundo sobre a existência humana. Isso até Nick Hornby aparecer. Ele usa sua obsessão por seu clube como um veículo para falar sobre a vida, começando em 1968, o ano em que seu pai o leva pela primeira vez para ver o Arsenal e o ano em que seus pais se separam. Um olhar irônico, mas surpreendentemente profundo na psicologia masculina e na busca pelo amor e pelo significado, ‘Febre de Bola’ está longe de ser apenas um olhar sobre a vida através dos espetáculos pincelados pelo Arsenal. Estruturado na forma de relatos de jogo, o livro faz o que os escritores clássicos faziam no Século XIX: te ensina sobre a vida”, explicou. Uma vida que Roger Moore aproveitou para melhorar outras vidas.