Um bastião do futebol feito com o coração, com a emoção, com o instinto, muitas vezes atropelando a pasteurização idealizada em departamentos de marketing. A paixão pelo seu clube não é um produto, é um sentimento, e a Libertadores consegue dentro do possível manter seu caráter, sua alma. Isso a torna uma competição especial, mas também a transforma em alvo de acalorados debates, acalorados como tudo o que se discute nesses tempos.

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O mundo digital parece pedir opinião de todos sobre tudo. Opiniões fortes, contundentes, definitivas. É tudo extremo: disputa eleitoral, ideologias políticas, sistema de transporte público, comidas gourmets, BBB… No caso da Libertadores, alguns vêm a alma do torneio como se fosse tosqueira e símbolo de atraso, enquanto outros olham as propostas de profissionalização total como ameaça de um raio gourmetizador.

A Libertadores não pode, nem deve, se tornar uma versão das Américas da Champions League. Não é assim que os latino-americanos somos (o erro de concordância é proposital), não é assim que vivemos nossas paixões. Futebol é uma expressão cultural e precisa refletir nosso jeito de ser. Nós somos contraditórios e passionais. Valorizamos o improviso ao planejamento, gostamos de usar a criatividade para empregar todas as ferramentas possíveis para seguir em frente.

Tudo isso é exposto na Libertadores, como se fosse um grande curso sobre América Latina. Pressão de torcida, estádios acanhados, altitude, clima seco, clima úmido, calor, frio. Cada jogo como visitante traz um desafio novo, e levantar o troféu é mais um prêmio à capacidade de sobrevivência em ambientes diversos do que necessariamente de bom futebol.

Nós, da Trivela, amamos tudo isso. Mas nos damos o direito de sonhar com mais. E é possível. É possível uma Libertadores melhor – como é possível uma América Latina melhor – sem ter de abandonar sua cultura, sua história. O povo que a vive o torneio com mais intensidade não recebe o carinho que merece de seus dirigentes.

A maior competição das Américas precisa ser passional e essencialmente latino-americana, mas não precisa ser corrupta, violenta, mal organizada, bagunçada e sem lei. A riqueza cultural e econômica que ela gera precisa ser revertida para o público com melhores condições e melhores times, não desaparecer no meio do caminho. A intensidade precisa ser usada para enriquecer o espetáculo, com cantos, faixas e rolos de papel, não com pedras atiradas em quem vai cobrar escanteio. Estádio tem de ser acanhado e refletir toda a vontade do torcedor de entrar no campo, não pode ser armadilhas para intimidar fisicamente quem desagradar o mandante.

Não é gourmetizar a Libertadores, é explorar suas qualidades da melhor forma possível para levar a todos o que há de mais apaixonante no futebol latino-americano. Uma paixão que encantou os europeus durante a Copa do Mundo, com marés colombianas, mexicanas, argentinas, chilenas e uruguaias pelos estádios brasileiros, com uma cultura de estádio completamente diferente do que eles estavam acostumados. Queremos ver isso todo ano, queremos que o mundo todo veja isso todo ano. Queremos uma Libertadores melhor, mas sendo Libertadores. Queremos uma América Latina melhor, sendo América Latina.

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