As Copas do Mundo ocorridas antes da Segunda Guerra Mundial, tantas vezes, parecem um universo à parte. São histórias mais rudimentares quanto ao futebol praticado, quanto à preparação da competição e quanto à própria maneira de enxergar o mundo ao redor. Ainda assim, não se pode negar que o Mundial de 1930 se tornou uma experiência muito bem sucedida. Que os europeus tenham torcido o nariz à competição pelas desistências e por todas as limitações da época, as histórias perduram: o clássico na decisão, a Celeste ratificando a grandeza olímpica, a imagem eterna do Estádio Centenario em êxtase.

A final entre Uruguai e Argentina completou 90 anos de sua realização nesta quinta-feira, 30 de julho. Há todo um enredo na disputa que supera a proximidade entre os vizinhos ou o sentimento de revanche após a decisão olímpica de 1928. A história da bola, um tempo com o material produzido por cada país, é a mais lembrada para enfatizar os ânimos acirrados naquela ocasião. Mas vale recordar que até mesmo a preferência de Carlos Gardel foi disputada antes da partida. Jogadores argentinos, como Luis Monti e Roberto Cherro, sofreram ameaças. Já o uruguaio Manco Castro recebeu um bilhete que propunha um suborno pela derrota ou então a morte. Temeroso da violência que pudesse surgir, o árbitro John Langenus exigiu proteção especial e até mesmo que seu navio à Europa saísse logo após o embate.

As arquibancadas lotadas no Centenário receberam uma multidão de torcedores argentinos que atravessaram o Rio da Prata para ver a definição do Mundial. E uma das grandes polêmicas seria a escalação de Francisco Varallo no ataque da Albiceleste. Com uma lesão no joelho, a futura lenda do Boca Juniors acabou examinada por Juan Campisteguy – que, além de membro da federação uruguaia, era filho do presidente da república. Os dirigentes argentinos desconfiaram do diagnóstico de que o atleta não estaria apto à final. No fim das contas, o juramento de Hipócrates prevaleceu aos interesses nacionais – realmente, ele não estava em condições, o que prejudicou a equipe em tempos sem substituições.

O primeiro tempo, com bola argentina, teve vitória parcial da Albiceleste por 2 a 1. Pablo Dorado até abriu o placar aos bicampeões olímpicos, mas Carlos Peucelle e Guillermo Stábile viraram. Já no segundo tempo, a bola uruguaia faria a diferença à Celeste: 3 a 0 no marcador. Pedro Cea, Santos Iriarte e Manco Castro escreveriam a história aos primeiros campeões do mundo, com o triunfo por 4 a 2. Não aconteceram grandes distúrbios no estádio, mesmo com a invasão massiva no gramado, mas o consulado uruguaio terminaria apedrejado em Buenos Aires. Nada que rompesse o orgulho charrua por uma data que virou feriado nacional a partir de então.

Curiosa ainda foi a própria premiação no Centenário. A Taça Jules Rimet (que sequer levava o nome do então presidente da Fifa) não deu as caras durante a glorificação do Uruguai. O capitão José Nasazzi precisou dar a recém-inventada volta olímpica com um troféu qualquer, genérico, mas que acabaria representando a vitória histórica. As medalhas seriam fornecidas três meses depois, pela federação uruguaia. Deram apenas aos 11 titulares da final, sem considerar os demais convocados e nem mesmo os atletas que também entraram em campo nas partidas anteriores. O que não se apaga é a história, esta que eterniza os campeões.

Abaixo, o curta produzido pela Fifa para recontar a história daquele Uruguai campeão do mundo. Também um recorte do Correio da Manhã, com o relato da Associated Press. Por fim, a sugestão de leitura dos amigos do Futebol Portenho.