*Por Guilherme Diniz

Texto originalmente publicado no Imortais do Futebol e cedido à Trivela. Acompanhe o site, também no Facebook e agora no Instagram.

Grandes feitos: Pentacampeão italiano consecutivo* (1942/43, 1945/46, 1946/47, 1947/48, 1948–49) e campeão da Copa da Itália em 1942/43.

*Nota: em 1943/44 e 1944/45 não houve disputa por conta da Segunda Guerra Mundial.

Time base: Valerio Bacigalupo; Aldo Ballarin e Virgilio Maroso; Pino Grezar, Mario Rigamonti e Eusebio Castigliano; Romeo Menti, Ezio Loik, Guglielmo Gabetto, Valentino Mazzola e Franco Ossola. Técnicos: András Kuttik (1942-1943), Luigi Ferrero (1945-1947), Mario Sperone (1947-1948), Roberto Copernico (1947-1948), e Leslie Lievesley e Ernest Erbstein (1948-1949).

“O Touro indomável e eterno”

A Itália já teve diversos esquadrões de respeito, clubes que ganharam muitos títulos e que encantaram o mundo, mas nenhum foi como o Torino da década de 1940. Nunca uma equipe jogou tanta bola e encantou tanta gente numa época em que o mundo vivia anos tenebrosos, com o auge da Segunda Guerra Mundial. A própria guerra foi a única capaz de parar aquela equipe, que não jogou nas temporadas 1943/44 e 1944/45. O hiato não foi o bastante para frear o ímpeto vencedor de um time mágico, que conquistou cinco títulos italianos consecutivos, feito igualado apenas pela Internazionale e superado pela Juventus até hoje.

E esse time só não venceu mais e não escreveu ainda mais histórias marcantes por conta da Guerra e por não existir à época competições europeias. Ninguém podia com o “Grande Torino”, apelido que ganhou aquele time de Mazzola, Gabetto, Menti, Loik, Ballarin e Rigamonti. Porém, no ano de 1949, uma tragédia colocaria ponto final no maior esquadrão que o clube conseguiu formar. Foi uma fatalidade tão grande que nunca mais o Torino voltou a brilhar como antes. Nunca mais a Itália teria equipes genuinamente italianas tão ofensivas e vistosas como aquela. O futebol perdeu um de seus mais fantásticos esquadrões. Vamos relembrar esse capítulo fascinante (e ao mesmo tempo triste) do futebol.

O início do maior esquadrão da Europa

Depois do predomínio absoluto da Juventus na década de 30, bem como dos anos dourados da seleção italiana, bicampeã mundial em 1934 e 1938, a década de 40 tinha tudo para ser novamente dos italianos. Eles eram donos dos melhores jogadores do planeta, haviam vencido as duas últimas copas, e apenas o Uruguai era capaz de peitar a Squadra Azzurra. O Brasil corria por fora, mas também tinha respeito. Contudo, a eclosão da Segunda Guerra Mundial provocou o cancelamento das Copas de 1942 e 1946.

O futebol italiano seguiu em frente. Internazionale, Bologna e Roma venceram os campeonatos de 1940, 1941 e 1942, respectivamente. Mas, a partir daquele mesmo ano de 1942, nasceria o maior esquadrão da Europa naquela década: o AC Torino (hoje, o clube se chama Torino Football Club). O time grená havia vencido apenas um campeonato italiano (em 1927/28) e uma Copa da Itália, em 1935/36, e via sua rival da cidade, a Juventus, se tornar um gigante na década de 1930. Com uma verdadeira constelação de craques, orquestrada com maestria por Valentino Mazzola, o Toro inverteu os papéis e conquistou a dobradinha Copa da Itália e Campeonato Italiano na temporada 1942/43.

O ponto alto foram as vitórias sobre a rival Juventus em ambos os turnos (2 a 0 e 5 a 2) e a conquista inapelável da Coppa, na qual o time não sofreu um gol sequer e marcou 20 tentos em apenas cinco jogos, com direito a goleada de 4 a 0 sobre o Venezia na final, além da vitória por 2 a 0 sobre a Roma nas semifinais. As conquistas chamaram a atenção de todos pela qualidade de jogo daquele time treinado pelo húngaro András Kuttik e comandado em campo por um craque que faria história: Mazzola. Ambos começavam uma sincronia perfeita no time, e faziam estragos sérios nas defesas rivais. O torcedor do “Toro” começava a sorrir novamente.

Hiato por culpa da guerra

As temporadas de 1943/44 e 1944/45 foram canceladas devido aos acontecimentos críticos da Segunda Guerra Mundial. O tempo perdido poderia colocar em risco a maestria do Grande Torino do ano anterior? Que nada! Aquilo seria apenas o começo…

O retorno absoluto

Em 1945, a Europa comemorava o fim da guerra e iniciava sua reconstrução. Porém, no futebol, o Torino não precisaria de nenhum reparo. Estava perfeito e tinindo para recomeçar a brilhar. Dito e feito. O time disputou um confuso campeonato italiano na temporada 1945/46, com apenas 14 times na “primeira fase” do torneio. A segunda reuniu os melhores colocados na primeira fase junto com os melhores das séries B e C. Em ambas, o Torino foi soberano e conquistou o título, com 19 vitórias, quatro empates e apenas três derrotas em 26 jogos na primeira fase e 11 vitórias e três derrotas na segunda e última fase. Vale lembrar que ao longo da década de 1940, bem como em grande parte da de 1950, não seria disputada a Copa da Itália. O torneio voltaria apenas em 1958. Com isso, a Serie A seria a única vedete do país por mais de 10 anos.

Sem ninguém por perto

A nova temporada começou, e o Torino continuou a dar show. O time venceu 28 jogos e perdeu apenas três em 38 partidas, conquistando o título com 10 pontos de vantagem com relação ao vice-campeão, sua rival Juventus. A equipe marcou absurdos 104 gols e teve um saldo positivo de 69 tentos, um recorde que seria quebrado pelo próprio Torino no ano seguinte. Nos dérbis contra a Juve, vitória por 1 a 0 e empate sem gols. O artilheiro daquele campeonato foi Mazzola, com 29 gols. Outro matador da equipe, Gabetto, faria 19 tentos naquele ano. A imprensa começava a destacar o time e ficava claro que ninguém jogava como o Torino naquela época. A Juventus, então o grande clube do país, deixava de ser a protagonista. O Toro estava mesmo indomável.

Recordes e mais recordes

A temporada 1947/48 foi uma das melhores daquele esquadrão. O time obteve proezas incríveis e assombrou a Itália. Foram 29 vitórias, sete empates e quatro derrotas em 40 jogos, com 125 gols marcados e 33 sofridos. O time conseguia quebrar seu próprio recorde e cravaria a façanha para sempre na Série A. Nunca outro time conseguiu marcar tantos gols em um campeonato como aquele Torino 1947/48. Um show. Outros feitos foram os seguintes:

  • Maior pontuação em uma temporada (antes dos três pontos por vitória, naquela época vitória valia dois pontos): 65 pontos;
  • Maior vitória em casa na história: 10 a 0 contra o Alessandria;
  • Maior goleada fora de casa: 7 a 0 contra a Roma;
  • Maior número de vitórias em uma temporada: 29;
  • Maior número de vitórias em casa em uma temporada: 19 vitórias em 20 jogos;
  • Menor número de gols sofridos em uma temporada: 33 gols sofridos em 40 jogos;
  • Maior média de gols em uma temporada: 3,13 gols por jogo.

Foi um absurdo o que aquele time jogou em 1947/48. Mazzola e Gabetto fizeram, juntos, 48 dos 125 gols do time. Com 25 tentos, Mazzola ficou apenas a dois gols do artilheiro do campeonato, Boniperti, da Juve, que anotou 27. Qual era o limite para aquele time?

A tragédia que chocou o mundo

O campeonato italiano de 1948/49 começou com o Torino como grande favorito, obviamente. O time seguia sua caminhada a passos galopantes rumo ao pentacampeonato italiano, até que uma tragédia colocaria ponto final no time mais brilhante que a Itália já havia visto. Com quatro pontos à frente da Internazionale, o time voou para Lisboa para participar de um amistoso contra o Benfica.

No dia 4 de maio de 1949, às 17:05, o avião Fiat G.212 que levava todo o time do Torino e sua comissão técnica se chocou contra a basílica de Superga, perto de Turim. Ninguém sobreviveu. Faleceram 18 jogadores, cinco membros da comissão técnica e outros sete tripulantes da aeronave. A Itália e o mundo entravam em estado de choque com o ocorrido. Um time incrível, que encantava e jogava sempre no ataque, e com estrelas que poderiam levar a Itália ao quase certo tricampeonato mundial em 1950, no Brasil, estava acabado. Não havia palavras. Nem explicações. Era uma fatalidade que levou mais de 500 mil pessoas ao triste funeral de todos os jogadores, auxiliares, dirigentes e técnicos.

No mesmo dia 4 de maio 1949, a Federação Italiana e os clubes declararam o Torino campeão daquele ano, confirmando o pentacampeonato. Depois da comoção, a equipe juvenil do time substituiu por completo a equipe profissional para jogar as quatro partidas restantes do campeonato. E o time mostrou que a mística de seus falecidos jogadores ainda estava presente, levando os garotos a vencerem todos os jogos, contra Genoa (4×0), Palermo (3×0), Sampdoria (3×2) e uma emocionante partida final contra a Fiorentina (2×0). Num gesto bravo e de respeito sem igual, os quatro rivais do “Toro” também escalaram juvenis.

O fim de uma lenda

Nunca mais a Itália teve uma equipe como o Grande Torino. Outros times repletos de craques surgiram, mas nenhum foi genuíno, artístico e brilhante como o Torino. Se uma tragédia não tivesse acabado com todo aquele esquadrão grená, o time possivelmente seguiria buscando taças na década seguinte, e prometeria embates históricos contra o futuro esquadrão que surgiria em breve: o Real Madrid de Puskás e Di Stéfano.

A seleção italiana também foi profundamente afetada pelo trágico acidente. Os bicampeões mundiais na época seriam favoritos na primeira Copa do Mundo pós guerra, em 1950, pois tinham como base o próprio Torino. Para se ter uma ideia, em um amistoso que a Azzurra disputou em 1947 contra a Hungria, com vitória italiana por 3 a 2, 10 dos 11 titulares eram do Torino. Apenas o goleiro era de outra equipe (da Juventus). Por conta disso, a Itália disputou a Copa com uma equipe praticamente reserva, sucumbindo rapidamente no Mundial.

As lamentações pela tragédia continuam, 70 anos depois. Porém, as mais doces lembranças são as maravilhas que aquele time fazia, que ficaram marcadas na memória de todos. Bendito seja o Grande Torino, para sempre!

Os personagens (todos faleceram no desastre de Superga):

Valerio Bacigalupo: era o paredão no gol do Grande Torino. Jogou 137 jogos pelo clube grená, além de ter sido convocado pela Azzurra em cinco oportunidades. Tinha 25 anos.

Aldo Ballarin: defensor no Toro, jogou 148 partidas pelo clube e marcou 4 gols. Tinha dois irmãos também futebolistas, Dino Balarin (que também faleceu no acidente) e Sergio Balarin. Tinha 27 anos.

Virgilio Maroso: outra lenda do time, participou de 103 jogos pelo Toro, e atuou pela Azzurra em sete partidas. O estádio de futebol de sua cidade natal, Marostica, é dedicado a ele. Tinha 24 anos.

Pino Grezar: meio campista, era um dos grandes nomes do time. Atuou em 154 jogos pelo clube e em oito pela seleção italiana. Tinha 31 anos.

Mario Rigamonti: chegou com apenas 19 anos ao Torino, vindo do Brescia, mas só começou a jogar depois da Segunda Guerra. Foi essencial no clube, e atuou em 140 jogos. Tinha 27 anos. Outro que batiza o estádio de sua cidade natal.

Eusebio Castigliano: meio-campista que ia ao ataque, Castigliano marcou 36 gols em 115 partidas pelo Toro. Tinha 28 anos.

Romeo Menti: foi o autor do último gol do Grande Torino, no amistoso contra o Benfica, antes da tragédia. Tinha 30 anos.

Ezio Loik: ágil, eficiente e técnico, fez uma ótima dupla com Mazzola no Torino. Marcou 70 gols em 176 jogos pelo Toro. Tinha 30 anos.

Guglielmo Gabetto: era um dos matadores do time e o segundo principal jogador. Marcou 122 gols em 219 jogos pelo Torino. Foi chamado para a Guerra e conciliou atividades militares com futebolísticas. Pela Itália, marcou quatro gols em nove jogos. Era um dos mais experientes do time, com 33 anos.

Valentino Mazzola: era o craque da equipe, e foi um dos maiores jogadores da história do futebol italiano e também mundial. A não realização de Copas na década de 40 prejudicou demais a carreira desse gênio, que poderia ter brigado pelos títulos com a Azzurra, sem falar na Copa de 1950. Técnico, driblador, com ótima visão de jogo e goleador, era o jogador perfeito e líder do time. Mazzola tinha 30 anos. As melhores definições para o craque vieram de dois italianos:

“Valentino jogava no Torino, juntava o Torino e era o próprio Toro”, Gianpaolo Ormezzano, escritor.

“O maior jogador italiano de todos os tempos foi Valentino Mazzola. Ele era um homem que podia carregar um time todo em suas costas”, Enzo Bearzot, técnico campeão do mundo com a Itália em 1982.

Franco Ossola: outro grande goleador do Torino, marcou 85 gols em 175 jogos pelo clube. Nascido em Varese, o estádio da cidade leva seu nome, como homenagem. Tinha 28 anos.

Técnicos: O Torino teve distintos treinadores no período em que brilhou. Os responsáveis foram András Kuttik (1942-1943), Luigi Ferrero (1945-1947), Mario Sperone (1947-1948), Roberto Copernico (1947-1948), e a dupla Leslie Lievesley e Ernest Erbstein (1948-1949), estes também vítimas da tragédia de Superga.

Extras:

Como os vídeos daquela época não possuem boa qualidade, vale a pena ver as façanhas daquele grande time em números. Veja a seguir:

Conquistou cinco campeonatos italianos consecutivos: 1942/43, 1945/46, 1946/47, 1947/48 e 1948/49;

Maior número de temporadas invicto dentro de casa: 4 (1945/46, 1946/47, 1947/48, 1948/49)

Maior número de partidas invicto dentro de casa: 93 jogos, com 83 vitórias e 10 empates, de janeiro de 1943 até abril de 1949;

Maior quantidade de gols em 5 temporadas como campeão: 408 gols marcados no total (1942/43, 1945/46, 1946/47, 1947/48 e 1948/49);

Conseguiu vencer 19 partidas de 20 possíveis dentro de casa na temporada 1947/48;

Teve o recorde de jogadores na seleção italiana: 10 jogadores. Foi no dia 11 de Maio de 1947, na partida onde a Itália venceu a Hungria por 3 a 2;

Maior pontuação em uma temporada (antes dos três pontos por vitória, com cada vitória valendo dois pontos): 65 pontos;

Maior vitória em casa na história: 10 a 0 contra o Alessandria;

Maior goleada fora de casa: 7 a 0 contra a Roma;

Maior número de vitórias em uma temporada: 29;

Maior número de vitórias em casa em uma temporada: 19 vitórias em 20 jogos;

Maior média de gols em uma temporada: 3,13 gols por jogo.

*Sobre o autor

Guilherme Diniz é jornalista desde 2009 e decidiu criar o Imortais do Futebol em 2012, ao perceber que não existia em nenhum lugar informações detalhadas sobre times, seleções e craques sem ser em revistas esporádicas (e incompletas), textos dispersos na wikipedia ou em sites diversos. Com isso, ele criou o blog e foi alimentando-o dia após dia até transformar um hobby em um árduo trabalho que chegou a mais de 370 textos em apenas dois anos. Desde então, são mais de 400 textos que já viraram fonte de pesquisas, artigos e até temas de palestras de técnicos e professores. Além disso, o Imortais já cedeu alguns de seus textos para a ONG Worldreader e auxiliou vários verbetes da Wikipedia como fonte. O Imortais também possui perfis no Facebookno Instagram e no Twitter.