Em 24 de junho de 1950, o Brasil começava a viver sua primeira Copa do Mundo. Naquela data, mais de 81 mil pessoas foram ao Maracanã para assistir à estreia da Seleção no Mundial. Mesmo sem Zizinho, a equipe de Flávio Costa não teve dificuldades para golear o México por 4 a 0 – e, para muita gente, o placar ainda era magro diante do que os brasileiros poderiam jogar. O país celebrava o início do torneio que se tornaria marco ao futebol nacional.

Comemorando a data, aproveitamos as páginas dos jornais e revistas do Rio de Janeiro para recontar a primeira partida, bem como o clima naquele 24 de junho. Abaixo, reproduzimos o Sport Illustrado, o Globo Sportivo, o Jornal dos Sports, o Jornal do Brasil, o Diário de Notícias e o Correio da Manhã. Para ampliar as páginas, clique com o botão direito do cursor e em “abrir imagem em nova guia”. Além disso, resgatamos o trecho de um texto de 2018, antes do Brasil x México pelas oitavas de final do Mundial da Rússia, em que o amigo Emmanuel do Valle reconta a história daqueles 4 a 0 de 1950. Confira

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Copa de 1950: Brasil 4×0 México

Na edição do dia do jogo que marcava a estreia do Brasil no primeiro Mundial que sediou (um 24 de junho, dia de São João), o Jornal dos Sports estampou na primeira página uma foto de cada um dos supostos titulares do técnico Flávio Costa para a partida. O ataque aparecia composto de Maneca, Zizinho, Ademir, Jair Rosa Pinto e Friaça – este o substituto do ponta-esquerda Rodrigues, que se lesionou no último treino antes da estreia. Porém, a mesma capa anunciava que Zizinho era dúvida, por ter voltado a sentir um velho problema nos ligamentos.

A mesma edição trazia ainda um gráfico orientando os torcedores sobre os acessos aos setores do recém-inaugurado estádio do Maracanã.  Outro quadro trazia os preços dos ingressos a serem praticados em todos os jogos do Mundial. A geral custava, em valores da época, Cr$ 15, enquanto um lugar na arquibancada saía por Cr$ 30. Já pelas cadeiras numeradas era cobrado um preço bem mais salgado: Cr$ 140. Outra curiosidade era os locais de venda dos bilhetes, que podiam ser adquiridos em três pontos, todos no centro do Rio: na sede da CBD, no Clube Ginástico Português ou nas lojas “Dragão dos Tecidos”.

Havia na época a desconfiança de que o Maracanã seria grande demais e de que nunca encheria. No entanto, já na primeira partida, o gigante de concreto recebeu um bom público, que gerou a maior renda registrada até então numa partida de futebol na América do Sul, acima dos Cr$ 2,6 milhões. O comparecimento e o comportamento dos torcedores também mereceram destaque de Mario Filho em sua crônica para o Jornal dos Sports.

“Todos cumpriram o seu papel. Inclusive o público que não faltou ao compromisso de apoio total ao scratch. O maior medo do torcedor era esse: o de faltar ao compromisso com o scratch. Ou melhor: o de dar a impressão de faltar ao compromisso com o scratch. Porque o Estádio era maior do que ele. Quando acaba, o Estádio era do tamanho dele. E não podia deixar de ser assim porque o Estádio fôra construído para ele”, escreveu o jornalista que mais tarde emprestaria seu nome ao maior palco do futebol brasileiro, na época chamado apenas de Estádio Municipal.

Quanto ao jogo, o domínio foi brasileiro do começo ao fim, apesar do desfalque confirmado de Zizinho. Sem ele, Ademir foi deslocado do comando do ataque para a meia-direita, entrando o corintiano Baltazar de centroavante. Nas demais posições, a equipe de Flávio Costa entrou com Barbosa no gol, Augusto como zagueiro direito, Juvenal pelo meio e Bigode pelo lado esquerdo (ainda que a imprensa da época escalasse o time no sistema 2-3-5). A dupla de médios tinha o vascaíno Eli do Amparo (que logo cederia o lugar a Bauer) e Danilo Alvim.

Mesmo com todo o volume de jogo do Brasil, o placar só foi aberto aos 32 minutos da primeira etapa, quando o público já começava a se impacientar com as chances desperdiçadas diante de um México que praticamente não ameaçava, mas se mostrava muito aguerrido na defesa. Houve uma cobrança de falta de Jair que explodiu na trave de Carbajal. E pouco depois, enfim, veio o primeiro gol: Danilo entregou a Jair, que chutou forte. O arqueiro mexicano deu rebote, acossado por Baltazar, e Ademir, que não fazia boa partida até ali, arrematou com oportunismo.

Na etapa final, depois de acertar mais duas vezes, quase em sequência, a trave de Carbajal, o time deslanchou: aos 21, Danilo passou por três mexicanos e fez a assistência para Jair, que soltou um petardo ampliando a contagem. Depois de mais uma bola na trave, o Brasil chegou ao terceiro gol aos 26, num escanteio cobrado por Maneca e desviado de cabeça por Baltazar – em sua especialidade – para as redes. E aos 35, Jair fez grande jogada pela esquerda e cruzou rasteiro para Ademir escorar, fechando o placar em 4 a 0.

Para Mario Filho, o meia-esquerda foi o grande destaque do time brasileiro e do jogo: “Jair por si só foi um espetáculo. Correu em campo como um novo, com a vantagem de uma classe que dificilmente pode ser superada. (…) O jogador por excelência do scratch”. Ademir também teve atuação destacada, enquanto os demais do quinteto ofensivo, para o cronista, deixaram-se levar pelo nervosismo da estreia, além de se intimidarem com a imponência do estádio.

Já a análise dos dois times (não assinada) feita no mesmo jornal também elogiava o médio Danilo e ressaltava a recuperação de Ademir na etapa final – quando inverteu de posição com Maneca – depois de ter feito um mau primeiro tempo (apesar do gol). E apontava ainda Baltazar (também apesar do gol) como o jogador “mais improdutivo” da equipe, desperdiçando chances fáceis.

Quanto aos mexicanos, o maior destaque foi mesmo o espírito de luta da equipe que, mesmo goleada, mostrou muita valentia na defesa, com os jogadores chegando a se atirar na frente da bola para evitar os tentos brasileiros. Individualmente, foram citados o goleiro Antonio Carbajal (eximido de culpa nos gols), a zaga rebatedora formada por Felipe Zetter e Alfonso Montemayor, os médios Mario Ochoa (maior destaque da equipe) e José Antonio Roca, além do centroavante Horacio Casarín, que lutou muito, mesmo isolado na frente.

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