Qualquer lista dos melhores jogadores da história precisa incluir o nome de Franco Baresi. Raríssimos defensores tiveram uma carreira tão fabulosa quanto o italiano. O líbero primava por sua qualidade técnica e por sua inteligência dentro de campo, aproveitando suas virtudes para acumular títulos ao longo de uma trajetória intimamente atrelada ao Milan. Capitão de um dos maiores esquadrões de todos os tempos com os rossoneri, o defensor ainda viveria uma das finais de Copa mais heroicas em 1994, em que sacramentou sua grandeza mesmo com a derrota. Gigante que merece todas as homenagens no aniversário de 60 anos e, por isso, repassamos sua caminhada.

Uma vida dedicada ao Milan

Franco Baresi não nasceu em Milão, mas cresceu amando o Milan. O defensor é originário de Travagliato, uma cidade na província de Brescia, na própria região da Lombardia. A proximidade da potência rossonera, ainda assim, fisgou o garoto desde cedo. Quando tinha nove anos, ele pôde acompanhar a conquista da Champions pelo timaço estrelado por Gianni Rivera em 1969. Seguiria cultivando as cores em seu coração. “Sempre fui milanista. E minha grande sorte foi sempre jogar pelo Milan”, contaria, em entrevista à FourFourTwo. Nunca vestiria outra camisa, a não ser a da seleção italiana.

O irmão mais velho que era referência

Franco também cresceu com um grande exemplo dentro de sua própria casa. Giuseppe Baresi era dois anos mais velho e os irmãos moldaram o seu talento juntos. Beppe despontou mais cedo à carreira profissional, mas acabou adotando o outro lado na rivalidade de Milão: por quase toda a sua trajetória nos gramados, o volante defendeu a Internazionale. Por mais que não tenha sido tão notável quanto Franco, o interista ainda assim construiu uma história respeitabilíssima: se aproximou dos 400 jogos pela Serie A, conquistou dois Scudetti e também figurou no elenco da Itália durante a Copa de 1986. Juntos, os irmãos Baresi disputaram apenas a Eurocopa de 1980 – numa época em que o caçula costumava ser tratado como o “Baresi II”.

Recusado na Internazionale

Quando Giuseppe Baresi já treinava nas categorias de base da Internazionale, Franco tentou a sorte nos rivais. Aos 14 anos, o defensor realizou um teste com os nerazzurri, mas nem todos perceberam o seu talento por lá. Com apenas 1,64 m de altura, o garoto era visto como muito baixo para atuar na zaga e não recebeu a aprovação na peneira. “Você precisa crescer mais, quem sabe no próximo ano”, ouviu. Sem precisar esperar, Franco recebeu uma chance no Milan meses depois. O responsável por aceitá-lo foi Italo Galbiati, que trabalhava na Inter durante o primeiro teste, mas se recusou a avaliar o garoto por já ter acertado sua mudança aos rossoneri na época. Garantiria a contratação de uma bandeira milanista.

As virtudes que compensavam a estatura

Quando o Milan trouxe Baresi, estabeleceu uma cláusula em que pagaria um milhão de liras por cada centímetro que crescesse além de 1,70 m. O adolescente parou em 1,76 m, uma estatura vista como insuficiente a um defensor. O craque, entretanto, compensaria de outras formas. Baresi tinha uma capacidade física invejável, unindo velocidade e fôlego, além de boa impulsão. E pesava muito mais a seu favor, claro, a qualidade técnica de quem dominava os fundamentos.

A inteligência

Baresi era tão fantástico, primordialmente, por sua inteligência dentro de campo. Sabia ler as jogadas e se posicionar com perfeição para bloquear os adversários, além de coordenar os movimentos da linha defensiva. Até por isso, encaixou-se muito bem como líbero. Sua maior força era mental. “Eu era um jogador muito rápido. Mas, acima de tudo, eu era muito rápido aqui – na cabeça. Foi o que me ajudou bastante. É algo natural, embora você possa melhorar. Você pode crescer com a experiência, mesmo sendo um dom”, declararia, deixando de lado a modéstia. Ele podia.

FRANCO BARESI

A perfeição no combate

Se o posicionamento nas coberturas facilitava o trabalho de Baresi, ele ainda intimidava os atacantes adversários por sua firmeza nos combates. Não precisava ser um brutamontes para ganhar as divididas dos centroavantes. Encurtava os espaços, entre a rapidez e o senso de colocação, para chegar junto nos desarmes. E visando sempre a bola, muito distante de ser um jogador desleal. Em mais de 700 aparições pelo Milan, Franco recebeu apenas cinco cartões vermelhos. Também possui uma média inferior a um cartão amarelo a cada dez partidas, número representativo a quem atuava na zaga. Roubar a bola ganhou um status de arte, a partir do que fazia o camisa 6.

As palavras de Gianni Brera

Gianni Brera é considerado um dos maiores jornalistas esportivos da história. Pouquíssimos souberam descrever o futebol como o italiano. Em 1992, ao jornal La Repubblica, ele definiu Baresi assim: “Baresi é dotado de um estilo único, dominante, imperioso, às vezes implacável. Ele se joga na bola como uma fera: e se por um maldito acaso ele não a pegar, salve o bom Deus quem a possui! Ele sai depois de uma antecipação posando com a beleza viril de um gladiador. Divide bem, comanda melhor na organização. Ele avança em uma sequência de ataques não menos agradáveis que enérgicos. Também bate para o gol, talvez o melhor defensor que já vi neste quesito ao lado do brasileiro Mauro, cobrador de faltas no Santos e na Seleção de 1962”.

A vida em Milanello

Baresi começou a viver o dia a dia em Milanello logo após sua aprovação. Conciliava os estudos com o talento dentro de campo. Ascendeu por cada categoria na base do Milan, desde já demonstrando não apenas seu talento acima do comum para defender, como também a capacidade para iniciar os ataques a partir da zaga. E o centro de treinamentos rossonero viraria sua casa na adolescência. O pai de Baresi faleceu quando ele estava nos juvenis, vítima de um atropelamento. Massagista da equipe, Paolo Mariconti se tornou uma espécie de segundo pai à promessa.

Pupilo de Rivera

Baresi tinha 17 anos quando passou a integrar o time principal do Milan. Estreou na Serie A em abril de 1978. Na época, seu apelido era “Piscinin”, por ser o mais novo do grupo. E cobras como Enrico Albertosi ou Fabio Capello não colocavam muita fé que o rapaz mirrado poderia contribuir na zaga, diante do duro futebol praticado na Itália. Baresi se provou na vitória sobre o Verona e ganhou elogios de Gianni Rivera, não só o capitão, mas seu ídolo de infância. “Eu gostava de assistir aos jogos de Rivera. Pude conhecê-lo e admirá-lo de perto. Foi um golpe de sorte ganhar a chance de jogar com ele: eu começava minha carreira, enquanto ele terminava”, afirmaria. O camisa 10 tornaria-se uma espécie de tutor ao novato.

O primeiro Scudetto com a velha guarda

Baresi disputou apenas uma partida na Serie A 1977/78. Na temporada seguinte, virou titular absoluto na equipe de Nils Liedholm. Aos 18 anos, Il Piscinin jogou todas as 30 rodadas da liga, sempre no 11 inicial. E não seria uma campanha qualquer ao Milan: os rossoneri conquistaram o Scudetto, encerrando um jejum de 11 anos. Aquela também seria a última temporada de Rivera no elenco. O veterano faria um agrado a Baresi: pediu para que o clube oferecesse um prêmio especial ao adolescente, de 50 milhões de liras. Com o dinheiro, Baresi comprou seu primeiro carro.

Medo da aposentadoria precoce

O futuro próximo não seria fácil a Baresi ou ao Milan. O clube terminou rebaixado na temporada seguinte, consequência de seu envolvimento com o escândalo de manipulação de resultados no chamado Totonero. O defensor ficou e contribuiu ao acesso imediato, com a conquista da Serie B em 1980/81. Entretanto, o Milan não conseguiria se restabelecer de imediato na elite. A equipe terminou no 14° lugar da Serie A 1981/82 e sofreu mais um descenso, desta vez pelos próprios resultados. Baresi disputou apenas 18 partidas naquela campanha, afastado do time durante quatro meses por conta de uma doença sanguínea. O líbero temeu encerrar sua carreira naquele período, mas deu sua volta por cima.

A conquista da Copa em 1982

Baresi ainda não tinha estreado pela seleção principal da Itália, mas era visto como o futuro do time. Não à toa, constava nas convocações de Enzo Bearzot. Primeiro, figurou entre os reservas na Eurocopa de 1980. E foi assim que o milanista ganhou uma chance de se tornar campeão do mundo, mesmo sem aparecer em campo. A doença sanguínea ou o rebaixamento recente do Milan não foram empecilhos para que ele constasse na lista final à Copa do Mundo de 1982.  Franco vestiu a camisa 2 no Mundial da Espanha, mas esteve distante de competir com o juventino Gaetano Scirea pela posição de líbero. Do banco, pôde consagrar-se também como um tricampeão do mundo. Sua estreia pela seleção ocorreu apenas em dezembro daquele ano, num duelo contra a Romênia pelas eliminatórias da Euro 1984.

Não recusou a Serie B

Baresi escolheu reerguer o Milan após o Totonero. E também não viraria as costas em 1982/83, independentemente do título mundial. Presente na Copa, o capitão Fulvio Collovati arrumou as malas rumo à Internazionale. Franco recusou uma proposta da Sampdoria e ganhou um novo contrato da diretoria milanista, bem como a braçadeira. O camisa 6 liderou a campanha na Serie B, rendendo novo título na segundona. “O Milan é minha vida. De forma estranha, o rebaixamento significou para mim o total renascimento”, avaliaria o defensor.

A liderança pelo exemplo

Baresi herdou a braçadeira de capitão não apenas por sua ligação fortíssima com o Milan ou por sua qualidade técnica. O defensor também liderava pelo exemplo. O camisa 6 sempre foi muito elogiado por seu profissionalismo e pelo empenho, sobretudo nos treinos. Ver um craque como Baresi suando a camisa nas atividades físicas e se esfolando a cada dividida certamente era uma motivação a mais aos companheiros. Além do mais, a firmeza do defensor preponderava.

Não se dobrava aos técnicos

Baresi gostava de avançar em campo, mas sempre preferiu atuar na linha defensiva como líbero. Nem todos, porém, entendiam que aquela deveria ser a sua posição. Assim, o milanista acabou entrando em atrito com Enzo Bearzot, o treinador da seleção italiana. Franco disputou os Jogos Olímpicos de 1984, quando a Azzurra alcançou as semifinais. Já para a Copa de 1986, foi excluído da convocação final. Bearzot escalava o não menos talentoso Scirea como líbero e, diante do desinteresse de Baresi por atuar no meio, não o chamou ao Mundial do México. Melhor ao irmão Beppe Baresi, que ocupou o setor.

Revigorado por Nils Liedholm

Se o antigo ídolo Liedholm já tinha sido o responsável por lançar Baresi no time principal, ele também exerceria um papel importante na afirmação do defensor como um craque. O Milan atravessava um tortuoso período de renovação durante a década de 1980 e o comandante sueco contribuiu à formação da mítica linha de zaga rossonera. Filippo Galli e Mauro Tassotti já eram frequentes nas escalações, enquanto Paolo Maldini e Alessandro Costacurta ascenderam sob as ordens do treinador. Enquanto isso, Liedholm compreendia Baresi e passou a encaixá-lo da maneira como se sentia mais à vontade, recuperando a bola e orquestrando a defesa. Seu jogo floresceu.

Moldado contra os melhores

Se o talento e a inteligência de Baresi eram naturais, de fato ele aprimorou bastante suas virtudes com o passar do tempo. Afinal, não existia melhor escola no futebol mundial do que o Calcio. Dentro da Serie A, o milanista integrava a vanguarda mundial no pensamento tático, sobretudo na proteção defensiva. E poderia aplicar seus ensinamentos contra os melhores jogadores do mundo. Enfrentar lendas do porte de Michel Platini, Karl-Heinz Rummenigge, Diego Maradona, Zico ou Paolo Rossi não era fácil. Medindo-se contra monstros todas as semanas, Baresi se transformou no oponente mais temido por eles.

O risco de ser vendido

Com Liedholm, o Milan voltou às primeiras posições da Serie A e se classificou à Copa da Uefa. Contudo, o clube seguia com problemas financeiros, numa mistura de má gestão com apostas furadas no mercado de transferências. Próximos da bancarrota, os rossoneri cogitaram vender o seu capitão, diante de outra boa proposta da Sampdoria. A Internazionale também tentou levá-lo para atuar ao lado do irmão. O milanista não quis abandonar o barco e a história começaria a mudar a partir da chegada de Silvio Berlusconi, em 1986, que cobriu o rombo nos cofres para montar um esquadrão ao redor do líbero.

O condutor de um timaço

Liedholm ficaria no Milan até a Serie A 1986/87. A partir de então, Berlusconi apostou em Arrigo Sacchi, um desconhecido treinador que alavancou o Parma – e, meses antes, tinha dado trabalho aos próprios rossoneri na Copa da Itália. Baresi serviria de elo entre os antigos preceitos milanistas e a nova era que se apontava. Maduro o suficiente, o capitão convivera com outra geração vencedora. Conseguia transmitir a representatividade da camisa não apenas aos talentos que ascendiam, como Maldini, mas também moldava esse significado a partir de contratações renomadas que aportavam em Milanello. Mais do que exemplo, Baresi seria guardião de uma tradição, em meio à ampliação dos horizontes que ocorria no San Siro.

Um dos mentores de uma revolução

O começo da relação entre Sacchi e Baresi não seria um mar de rosas. O capitão se incomodou ao precisar estudar os movimentos de Gianluca Signorini, antigo líbero do Parma, para entender o que realmente queria o seu novo técnico. Quando captou a mensagem, em compensação, Franco elevou o significado do líbero ao futebol mundial. O sistema tático fluido proposto por Sacchi dependia demais da movimentação e da leitura de jogo da zaga – e, consequentemente, de Baresi. Era ele quem coordenava as linhas de impedimento muito bem montadas e a marcação sobre os adversários. Defensores deixavam de ser passivos para se tornarem muito mais ativos. “Sacchi exigia a diversão de pressionar, a diversão de roubar a bola do adversário. Ele queria todas as coisas que nos exaltavam, não as que nos desanimavam”, avaliaria Baresi, anos depois.

Um armador a partir da defesa

E se a aptidão de Baresi para sair ao jogo seria tolhida na seleção italiana durante os tempos de Enzo Bearzot, Sacchi explorava mais a capacidade técnica de seu líbero. A qualidade do camisa 6 para iniciar a transição e construir as jogadas se tornou mais valorizada. A ofensividade marcante do Milan também contava com a elegância do beque, que distribuía seus passes com maestria e saía jogando de cabeça erguida. Melhor também à seleção italiana, que voltou a contar com seus serviços a partir da nomeação de Azeglio Vicini para o comando da equipe.

Reconquistando a Itália

Sacchi precisou de uma temporada para ser campeão com o Milan. O Scudetto veio logo na Serie A 1987/88, superando o Napoli numa reta final alucinante. O dinheiro de Berlusconi também foi importante naqueles meses – em mercado de transferências que incluiu Ruud Gullit e Marco van Basten como dois estrangeiros permitidos na época, além de Carlo Ancelotti e Angelo Colombo para acertar o meio-campo. Já a zaga, que mantinha seus nomes intactos em relação aos anos anteriores, seria fundamental à conquista. Aquele Milan sofreu apenas 14 gols em 30 rodadas da Serie A, somente seis deles nas 15 partidas como mandante no San Siro. Baresi disputou 27 jogos e, prestigiado, também seria titular da Itália que alcançou as semifinais da Euro 1988. Terminou o ano como oitavo na votação da Bola de Ouro.

A primeira conquista da Europa

O Milan não conseguiu o bicampeonato da Serie A em 1988/89. Pouco importava: os rossoneri foram além com a conquista da Champions, após duas décadas sem a taça. A revolução tomava a Europa de assalto. O grande marco naquela campanha veio nas semifinais, contra o Real Madrid. Os milanistas já tinham feito uma atuação fabulosa dentro do Santiago Bernabéu, quando o 1 a 1 pareceu injusto aos visitantes. Baresi não se cansou de coordenar a zaga e deixar os oponentes em impedimento. Já nos vestiários, o capitão se sentiu feliz pela chance de matar o confronto na volta. “O que não devemos fazer é jogar por um empate sem gols”, declarou. Esteve longe de acontecer: com a inapelável goleada por 5 a 0, o Milan avançou à final. Apoiado por 80 mil torcedores no Camp Nou, então, o time goleou o Steaua Bucareste por 4 a 0 na decisão. Como seu ídolo Rivera fizera em 1969, Baresi recebeu o troféu continental.

Segundo na Bola de Ouro

Baresi certamente está entre os jogadores que mais mereciam conquistar a Bola de Ouro alguma vez em sua carreira. Terminou entre os votados ao prêmio oito vezes, todas de 1988 a 1995, além de ter figurado entre os dez primeiros em quatro oportunidades. Sua melhor colocação veio em 1989, quando acabou em segundo, atrás apenas do companheiro Marco van Basten. Nada que rendesse ressentimentos ao italiano. “A Bola de Ouro é um prêmio particular. Em 1989, eu estava concorrendo, mas nunca me preocupei por não ter vencido. Ficar atrás de Van Basten era como ganhar, porque naqueles anos ele era como um Messi. Se você persegue um jogador assim, é como ficar com o troféu. Isso nunca pesou em mim, porque minhas alegrias sempre foram conquistar títulos e as recompensas pessoais vinham depois”, diria, anos depois.

A final estupenda contra o Benfica

A Europa voltaria a ser do Milan em 1989/90. O time de Arrigo Sacchi conquistou o bicampeonato continental, por mais que tenha derrapado no fim da Serie A durante a disputa com o Napoli. Naquela campanha, o Real Madrid de novo ficou pelo caminho, enquanto o Bayern de Munique seria outra vítima de peso. Já na decisão, a vitória por 1 a 0 sobre o Benfica teve gol de Frank Rijkaard, mas também uma atuação de Baresi que é descrita por muitos como a melhor de sua história com a camisa rossonera. O camisa 6 imperou na zaga e, quando subia ao ataque, só podia ser parado com falta. Um enorme exemplo da excelência de seu jogo, no ápice da forma aos 30 anos.

O líbero-artilheiro

Uma grande lacuna na carreira de Baresi foi a Copa da Itália. Apesar dos seis títulos na Serie A, o defensor nunca ergueu o troféu na competição de mata-matas. Ainda assim, chegou a terminar como artilheiro da competição em 1989/90. O camisa 6 anotou quatro gols em sete aparições na Coppa, tornando-se o máximo goleador daquela edição. O número foi basicamente impulsionado por uma tripleta contra o Messina, nas fases iniciais, convertendo três penalidades – uma de suas especialidades. Todavia, por mais que tenha eliminado o Napoli nas semifinais, o Milan perdeu o título na final contra a Juventus.

A baita Copa do Mundo em 1990

A primeira Copa do Mundo de Baresi como titular aconteceria em 1990. O defensor era uma das referências na Itália, que carregava consigo certo favoritismo por jogar em casa. O título não veio, com a trajetória interrompida pela Argentina nas semifinais. Apesar disso, o líbero se colocou entre os grandes do torneio. Baresi disputou todos os 630 minutos da Azzurra na competição, fundamental à sequência inicial de cinco partidas sem sofrer gols. Também converteu seu penal contra os argentinos, apesar da queda. E, por fim, seria eleito ao time ideal da Copa, ao lado de Paolo Maldini e Salvatore Schillaci entre os italianos.

Capitaneando outra renovação

O Milan viveria uma temporada conturbada em 1990/91. Nem tanto pelos resultados, com o vice-campeonato na Serie A e a campanha até as quartas de final da Champions, eliminado pelo Olympique de Marseille – num jogo de polêmica queda de energia. Contudo, havia um clima de fim de ciclo e o gênio de Baresi voltou a entrar em conflito com Sacchi. Os jogadores estavam insatisfeitos com as exigências do treinador durante os treinamentos e o capitão era o ponto de fricção. Baresi cogitou buscar novos rumos se Sacchi fosse mantido, mas o treinador arrumou suas malas e seguiu à seleção italiana. Fabio Capello, antigo ídolo milanista, seria o escolhido por Berlusconi. E a boa relação com o ex-companheiro ajudaria a manter o capitão em alta.

O tri com Capello e os recordes

O Milan de Fabio Capello conseguiu ser ainda mais dominante dentro da Serie A que nos tempos de Arrigo Sacchi. Mesmo com o trio holandês perdendo espaço no último ano, os rossoneri emendaram um tricampeonato nacional. Intocável, Baresi somaria 93 partidas naquele triênio, quase sempre acompanhado por Costacurta no miolo de zaga. A equipe sofreu apenas 68 gols naquelas três campanhas, com o ápice em 1993/94: foram apenas 15 bolas nas redes em 34 compromissos. E o mais absurdo foi o desempenho como visitante, no qual o Milan sofreu apenas seis gols em 17 partidas. Baresi, do alto de seus 34 anos de idade, não perdia o reinado.

De novo ao topo da Europa

O Milan de Capello se frustraria com alguns vice-campeonatos continentais. Perdeu a final da Champions em 1993 e 1995. Em compensação, seu título em 1994 seria inesquecível. A equipe amassou seus adversários ao longo da campanha invicta. Baresi esteve presente em nove daquelas partidas, mas se ausentou justamente da decisão. Após receber o terceiro amarelo na semifinal contra o Monaco, o capitão precisou ver de fora os lendários 4 a 0 sobre o Dream Team do Barcelona em Atenas. Tassotti seria o encarregado de usar a braçadeira na partida.

O milagre na Copa de 1994

Baresi decidiu se aposentar da seleção italiana em meados de 1991, após o fracasso da equipe nas eliminatórias da Euro 1992. A relação estremecida com Sacchi não ajudava, depois que o treinador havia sido nomeado para dirigir a Azzurra na caminhada à Copa de 1994. Só após alguns meses, e a promessa de certos privilégios da federação ao capitão, é que ele fez as pazes com o comandante e retomou seu posto na equipe. Usando a braçadeira, Baresi contribuiu à classificação ao Mundial e atuou nas duas primeiras partidas do Grupo E, até romper o menisco diante da Noruega. Naquele momento, o torneio parecia acabado ao veterano. Baresi passou por uma cirurgia nos Estados Unidos e saiu de muletas do centro médico. Sua recuperação, no entanto, beirou o milagre: somente 12 dias depois, ele já voltava aos treinos.

A atuação absurda na final

Baresi ficou pronto para voltar aos gramados justamente na final da Copa do Mundo. Segundo o próprio líbero, seu problema não era exatamente o joelho operado, mas a falta de fôlego pelo tempo sem treinar. Acreditava que poderia atuar apenas parcialmente contra o Brasil em Pasadena. Todavia, a suspensão de Costacurta pelo acúmulo de amarelos tornava sua reaparição mais importante. O capitão não apenas jogou os 90 minutos regulamentares, como também seguiu em campo nos 30 minutos da prorrogação, mesmo sob o sol escaldante da Califórnia. E para fazer o jogo mais emblemático de sua vida.

Baresi colocou no bolso o melhor jogador do mundo, Romário. Foi onipresente. O desgaste e a falta de ritmo não impediram o líbero de manter a perfeição em cada combate. Ótimo na leitura do jogo brasileiro, o capitão totalizaria 19 roubadas de bola, com muitos passes interceptados. Além do mais, não deixaria de arriscar suas subidas ao ataque. Baresi chegou a sinalizar sua substituição aos 35 minutos, mas seguiu em campo e manteria as esperanças da Itália até os pênaltis. Triste destino, Baresi desperdiçou a primeira cobrança, chutando por cima da meta de Taffarel. “Acontece com quem se arrisca. Estou triste, mas não me arrependo”, declararia, admitindo que pediu para bater mesmo com cãibras.

A parceria com Maldini

A final da Copa do Mundo também serviria para marcar uma dupla de zaga que não foi tão frequente, mas acabaria considerada por muita gente como a melhor da história: Baresi e Maldini iniciaram aquele confronto juntos. A parceria não se repetiu tanto no Milan, em tempos nos quais o mais jovem costumava ser escalado como lateral esquerdo. Entretanto, nas ausências do ótimo Costacurta, vez ou outra os monstros se uniam na faixa central. Difícil imaginar uma combinação com tamanha qualidade técnica, tamanho ímpeto defensivo e tamanha representatividade a um clube.

Palavras de Maldini

Anos depois, Maldini relataria as virtudes que via no companheiro: “Ele era especial. Baresi não era como Stam, um cara grande que tinha força e velocidade. Ele corria bastante, mas com apenas 70 quilos. Só que deixa eu te contar: quando ele te acertava com um carrinho, ele era muito forte. Franco era baixo e magro, mas forte. Podia pular muito alto. A forma como ele jogava era um exemplo a todos. Ele não falava tanto, não não. O jeito como ele se portava era o exemplo. Era tão bom com a bola! É difícil achar um bom defensor que fosse forte e tão bom com a bola nos pés”.

O último Scudetto aos 36 anos

Baresi teve gás para conquistar o seu último Scudetto em 1995/96. A idade podia pesar sobre as costas, mas não impedia o líbero de continuar apresentando o seu melhor nível. O capitão disputou 30 das 34 partidas pela Serie A, ausente em duas delas por suspensão. A liderança era inegável a um jogador que, mesmo no fim de carreira, seguia com um preparo físico acima da média e se entregava a cada treinamento. Em dezembro de 1995, o milanista ainda fez sua última aparição entre os mencionados à Bola de Ouro. Sinal de como o prestígio seguia com o passar dos anos.

Camisa aposentada

A aposentadoria de Baresi, enfim, aconteceu na temporada 1996/97. Capello saiu para o Real Madrid, o Milan não se acertou depois disso e encerrou a Serie A num decepcionante 11° lugar. Além do mais, as lesões se tornaram mais frequentes ao capitão – que, mesmo assim, disputou 26 partidas ao longo daquela campanha. Entretanto, seria a hora de parar. Para honrá-lo, os milanistas tomaram uma decisão inédita: ninguém mais no clube vestiria a camisa 6. O manto permanece intocado, em gesto repetido com a 3 de Maldini.

A emoção na despedida

Berlusconi decidiu reproduzir por conta própria uma Bola de Ouro para entregar a Baresi. Disse que seria o reconhecimento merecido que a eleição não proporcionou ao ídolo. Já a maior dose de carinho ocorreu em 28 de outubro de 1997, quando o San Siro recebeu o jogo de despedida à lenda. Mais de 70 mil torcedores compareceram às arquibancadas para a homenagem, enquanto diversas estrelas do futebol italiano e mundial estiveram no gramado. Antes disso, em setembro de 1994, ele havia dado seu adeus à seleção durante um confronto com a Eslovênia pelas eliminatórias da Euro 1996.

Os números

Baresi disputou um total de 719 partidas pelo Milan, 532 delas pela Serie A. À frente dele no clube, apenas Paolo Maldini. Logo abaixo no Top 5, os companheiros de zaga Costacurta e Tassotti, bem como o ídolo Rivera. Conquistou 21 títulos com os rossoneri, 18 deles como capitão. Faturou seis vezes a Serie A e mais três a Champions. Já pela seleção, Baresi acumulou 81 partidas, com três Copas do Mundo no currículo. Levou a taça uma vez, embora seu melhor momento tenha sido justamente em uma derrota.

Os prêmios do século

Ao lado de Franz Beckenbauer, Baresi foi o defensor mais agraciado com os principais prêmios oferecidos aos melhores jogadores do Século XX. O italiano constou na lista de Pelé, elaborada para o centenário da Fifa. Também foi o 17° melhor do século segundo a Placar e ocupou o 19° lugar na relação elaborada pela revista World Soccer. Já na eleição promovida pela IFFHS, o líbero ocupou a 33ª posição. Foi eleito ainda o melhor jogador do século do Milan e também da Associação Italiana de Futebolistas (AIC).

Eterna bandeira rossonera

Após pendurar as chuteiras, Baresi não trabalhou por muito tempo diretamente no futebol. Chegou a ser diretor do Fulham, em frustrada passagem, e também dirigiu as equipes de base do Milan na época em que Carlo Ancelotti era o treinador principal. Nos últimos anos, o líbero permaneceu mais como um embaixador do clube e de sua história ao redor do mundo. Não haveria melhor escolha. O passado diz tudo.