Brasília chega aos 60 anos de sua inauguração nesta terça-feira com uma história central ao desenvolvimento e à política do Brasil, mas também com sua importância ao futebol. A capital não se tornou exatamente uma potência no esporte, dependendo de sucessos esporádicos de seus clubes  – e que parecem contidos ao passado, do Ceub ao Gama. Ainda assim, Brasília já teve tempo o suficiente para se tornar berço de alguns jogadores fundamentais. E a história da seleção brasileira, de certa forma, também se marca na cidade de arquitetura fascinante.

Kaká e Lúcio são os nomes mais brilhantes que nasceram no Distrito Federal e conquistaram a glória com a Seleção. A lista de convocáveis do DF inclui ainda outros talentos, a exemplo de Amoroso e Washington Coração Valente. Além disso, há uma quantidade considerável de jogadores com relativo sucesso que saíram de lá – adicionando Dimba, Warley, Carlos Alberto Dias, Gélson Baresi, Felipe Anderson, entre outros. Alguns deles tiveram o gosto de vestir a camisa amarela em sua própria casa. De 1974 a 2019, a Seleção entrou em campo 15 vezes em Brasília ou nas cidades vizinhas. Um histórico composto majoritariamente por amistosos, mas com alguns momentos interessantes.

A Seleção demorou a disputar seu primeiro jogo na capital federal. Ele aconteceu apenas em 21 de abril de 1974, no exato aniversário de 14 anos da cidade. A principal praça esportiva de Brasília, afinal, havia sido inaugurada um mês antes. Com uma vitória do Corinthians sobre o Ceub na primeira rodada do Brasileirão, foi dado o pontapé inicial no Estádio Hélio Prates da Silveira – o atual Mané Garrincha. A obra não estava totalmente concluída e parte das arquibancadas eram provisórias, mas tinha-se pressa por causa da realização das Olimpíadas do Exército. No Dia de Tiradentes, o Brasil entrou em campo para enfrentar o Haiti justamente na abertura dos jogos militares.

Naquele momento, a Seleção atravessava a fase final de sua preparação à Copa do Mundo de 1974. Zagallo escalou a base que disputaria a fase final do torneio na Alemanha Ocidental. E, pela frente, o Haiti parecia ser um bom teste após conquistar a classificação na Concacaf. Todavia, os visitantes serviram como meros sparrings na capital federal: o Brasil goleou por 4 a 0. Com os haitianos mais recuados, os brasileiros puderam testar a potência de seu ataque, em placar que desandou mesmo no segundo tempo.

Dentre os titulares escalados na ocasião, apenas Clodoaldo se ausentou da Copa, cortado por contusão quando já integrava o elenco na Europa. Aproveitando um rebote do goleiro dentro da área, Paulo Cézar Caju anotou o único gol durante o primeiro tempo. Protagonista da Seleção na noite, Rivellino ampliou na etapa complementar após bela trama, soltando a patada dentro da área. Marinho Chagas, muito ativo no apoio, anotou o terceiro em cobrança de falta. Por fim, coube ao substituto Edu (pedido pela torcida durante o intervalo) fechar a contagem em tiro cruzado. Entre os que não balançaram as redes, Jairzinho e Carpegiani foram outros destaques.

O Brasil 4×0 Haiti teve portões abertos no futuro Mané Garrincha. Na época, as arquibancadas previam capacidade para 60 mil torcedores, embora houvesse permissão para apenas 20 mil naquela noite. Segundo o Jornal dos Sports, os responsáveis pela construção declaravam que sua principal inspiração era o Estádio Central Lenin, o atual Luzhniki, em Moscou. Naquele dia da estreia, dois foram os problemas principais: a iluminação muito intensa para os jogos noturnos, que atrapalhava sobretudo a visão dos goleiros; e a diferença de altura da grama em várias faixas do campo. Nada que tenha impedido a festa.

Treinada por Oswaldo Brandão, a Seleção retornaria a Brasília em 1976. Disputou um jogo não-oficial contra a seleção brasiliense. Num time experimental, o gol na vitória por 1 a 0 seria garantido por Flecha, camisa 7 do America-RJ. Já em 1980, outro duelo que não entra para as estatísticas, desta vez na cidade-satélite de Taguatinga. Era a segunda partida sob as ordens de Telê Santana e a Canarinho venceu a seleção mineira por 4 a 0. Serginho, Sócrates e Renato “Pé Murcho”, duas vezes, fizeram os gols. O novo treinador começava a moldar suas ideias na preparação ao Mundial de 1982.

Oficialmente, a Seleção só voltaria à capital federal em 1985. Naquela época, o principal estádio da cidade já trazia a homenagem a Mané Garrincha, falecido três anos antes. O duelo com o Peru, em 28 de abril, não apenas servia aos festejos pelos 25 anos de Brasília. Ele também fazia um tributo póstumo a Tancredo Neves, morto exatamente uma semana antes – em 21 de abril. Por conta do luto oficial de sete dias ao presidente eleito, inclusive, o amistoso internacional precisou ser adiado em um dia para respeitar o intervalo.

O que era para ser um amistoso ofereceu simbolicamente a Taça Tancredo Neves. Treinado por Evaristo de Macedo, o Brasil se preparava às Eliminatórias e realizou uma série de duelos contra as equipes do continente que não estavam em sua chave. O Peru tinha um time respeitável, com remanescentes do Mundial de 1982. Enquanto isso, sem poder contar com os astros no futebol europeu, a Seleção apostava em conjunto formado por atletas do Brasileirão. Oscar e Éder eram os mais tarimbados, enquanto Bebeto fazia sua estreia.

Não seria uma boa atuação do Brasil. A equipe de Evaristo criou chances ao longo do primeiro tempo, mas a dupla de ataque formada por Careca e Casagrande não estava em um dia especialmente calibrado. Os brasilienses que lotaram as arquibancadas começaram a se irritar e até vaiaram a exibição pobre da Canarinho. Quem levaria a Taça Tancredo Neves para casa, no fim das contas, seria o Peru: aos 16 do segundo tempo, saiu o gol da vitória por 1 a 0. Após boa defesa de Paulo Victor, Julio César Uribe marcou no rebote.

A partir daquele momento, Brasília se tornou um destino mais comum à Seleção. Outro amistoso aconteceu em abril de 1986, novamente sob as ordens de Telê Santana, na preparação ao Mundial. A equipe nacional recebeu a amadora Finlândia e venceu por 3 a 0, mas não exibiu um futebol suficiente para evitar mais vaias no Mané Garrincha. Os gols saíram apenas na metade final do segundo tempo, o que contribuiu ao descontentamento dos 45 mil presentes.

Os finlandeses montaram uma retranca durante boa parte do tempo, mas viram o cansaço pesar na reta final do amistoso. Marinho abriu o placar aos 23 minutos da etapa complementar, com uma cabeçada certeira. Oscar ampliou num chute de longe somente aos 43 e Casagrande fechou a conta logo depois. Destaque no Brasileirão anterior, Marinho anotou seu primeiro gol pela seleção principal e deu a sua sambadinha na comemoração. Porém, apesar da boa aparição, não gozava da confiança de Telê e ficaria de fora da convocação à Copa.

Já em dezembro de 1987, o Brasil encerrou seu ano no Mané Garrincha. Carlos Alberto Silva não fez boa campanha na Copa América, mas seguiu no cargo em preparação aos Jogos Olímpicos de 1988. Curiosamente, pegaria em Brasília a Alemanha Ocidental, grande adversária da Seleção meses depois em Seul. A Mannschaft visava a Eurocopa e vinha com um time de bons valores, incluindo Lothar Matthäus e Jürgen Klinsmann. Já os brasileiros, com uma escalação essencialmente jovem, viam despontar talentos como Raí, Valdo e Müller. Na véspera da final da Copa União, jogadores de Flamengo e Internacional estavam ausentes. Diante do estádio esvaziado, o zagueiro Batista (este do Atlético Mineiro) botou os anfitriões na frente e Stefan Reuter empatou no finalzinho.

Foram mais dez anos até novo retorno da Seleção à capital federal. Em 1997, a embalada equipe de Zagallo disputou dois amistosos por lá. O primeiro aconteceu em abril, contra o Chile, mas sem Marcelo Salas ou Iván Zamorano. Sob a capitania de Romário, o potente ataque brilhou na goleada por 4 a 0 dentro do Mané Garrincha. Ronaldo fez dois e o Baixinho, outros dois. Destaque também a Taffarel, que voltava a vestir a camisa 1 após quase dois anos. Muito criticado, o goleiro anunciou sua despedida da equipe nacional em 1995, mas mudou de ideia pouco depois. Sorte do Brasil.

Antes que o Brasil viajasse à Copa das Confederações de 1997, em dezembro, Gales de Gary Speed e Dean Saunders visitou o Mané Garrincha. Zagallo não escalou o time principal que conquistaria o torneio intercontinental na Arábia Saudita. Nomes como Dodô, Rodrigo Fabri, Emerson e Júnior Baiano ganhavam minutos. Os brasileiros venceram por 3 a 0. Vestindo a camisa 10, Zinho abriu o placar durante o primeiro tempo. Depois, algo impensável aos dias atuais da Canarinho: dois golaços de falta. Rivaldo marcou o primeiro, do meio da rua, e Rodrigo Fabri não deixou por menos ao mandar na gaveta. Pena que apenas 11 mil foram ao estádio.

A primeira partida competitiva do Brasil no Distrito Federal se deu em 2005, quando a cidade recebeu o duelo contra o Chile pelas Eliminatórias da Copa. Naquela tarde, o time de Carlos Alberto Parreira poderia confirmar sua vaga no Mundial da Alemanha. E, vivendo uma lua de mel com a torcida após as conquistas da Copa América e da Copa das Confederações, a Canarinho cumpriu sua missão inapelavelmente: 5 a 0 sobre a Roja, carimbando o passaporte e garantindo a festa dos quase 40 mil presentes no Mané Garrincha.

A escalação titular era praticamente a mesma que disputou a Copa de 2006, com exceção de Ronaldinho Gaúcho, que estava suspenso. Desta maneira, Robinho vestiu a 10 e completou o Quadrado Mágico. O grande nome do duelo seria Adriano. Juan marcou o primeiro e Robinho ampliou, em jogada que contou com a participação de todo o quarteto ofensivo. Antes que o relógio marcasse 30 do primeiro tempo, Adriano fez mais dois. E o Imperador tratou de fechar a contagem no final da etapa complementar, em contra-ataque que resultou em uma de suas costumeiras pancadas de canhota. A vaga na Copa se consumou com duas rodadas de antecipação.

A Seleção passou pelo Gama em 2008, na partida que inaugurou a reforma do Bezerrão. Em meio aos fogos de artifício, Pelé deu o pontapé inicial. A goleada por 6 a 2 sobre Portugal é lembrada como uma das grandes atuações sob as ordens de Dunga – que, ameaçado de demissão, se segurou muito graças ao placar. Com Cristiano Ronaldo e Deco, a Seleção das Quinas saiu em vantagem através de um gol de Danny, completando de letra dentro da área. Luis Fabiano empatou logo aos oito minutos e virou no primeiro tempo. O centroavante atravessava momento inspirado com a amarelinha e completaria sua tripleta na segunda etapa.

Maicon e Elano também deixaram suas marcas na etapa complementar, com dois chutaços, enquanto Adriano saiu do banco para fechar a conta. Simão Sabrosa descontou a Portugal e a cena curiosa ficou por conta de Cristiano Ronaldo, que se desentendeu com o lateral Marcelo, seu futuro parceiro no Real Madrid. Aquele amistoso seria simbólico também à corrupção na CBF, encabeçada por Ricardo Teixeira. A organização do evento no Bezerrão possibilitou um desvio de R$8,5 milhões, em esquema que contou com a participação de Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona e representante da Nike no Brasil.

Por fim, Brasília voltaria à rota frequente da seleção brasileira durante as grandes competições realizadas no país entre 2013 e 2014. Começou com a abertura da Copa das Confederações, no agora reformado Mané Garrincha. Felipão moldava seu time rumo ao Mundial, com a mesmíssima escalação que começaria a Copa em Itaquera. Neymar abriu o placar logo aos três minutos, num lindo chute de fora da área. Paulinho ampliou no início do segundo tempo e a equipe tirou o pé, permitindo aos japoneses assustarem. Por fim, Jô saiu do banco e arrematou o marcador em 3 a 0. Brasília, aliás, não renegou sua tradição às vaias: começou com a presidenta Dilma Rousseff e terminou com Hulk, que não andava com moral.

Em setembro, o retorno ao Mané Garrincha ocorreu num amistoso contra a Austrália. Noite inspirada da Canarinho, com goleada por 6 a 0. Felipão até permitiu algumas experimentações que iriam à Copa, incluindo aí Dante e Bernard. Jô fez dois, Alexandre Pato também marcou o seu. Luiz Gustavo inaugurou sua contagem pela equipe nacional, enquanto Ramires foi destaque ao voltar ao time com gol. Entretanto, quem acabou com o jogo mesmo foi Neymar, que balançou as redes uma vez e teve participação ativa na construção dos outros tentos. A nota negativa ficava aos muitos espaços vazios nas arquibancadas, com 40 mil presentes.

E a Seleção jogaria duas vezes no Mané Garrincha durante a Copa de 2014, embora preferisse apenas uma vez. O compromisso inicial fechou a fase de grupos, contra Camarões. Apesar de certos riscos, o time de Felipão construiria um placar dilatado contra os Leões Indomáveis, que fizeram um péssimo torneio. Durante o primeiro tempo nervoso, Neymar outra vez alegrou os quase 70 mil presentes no estádio. Foi dele o primeiro gol e, depois que Joël Matip empatou, também o segundo, numa bela jogada individual. A goleada por 4 a 1 se desenharia na etapa complementar, com tentos de Fred e Fernandinho – este, entrando melhor que Paulinho, ganharia a posição. O Brasil avançava para encarar o Chile nas oitavas de final.

Já a derradeira passagem da Seleção por Brasília naquele ciclo veio na melancólica decisão do terceiro lugar contra a Holanda. Os dolorosos 7 a 1 estavam eternizados e um time totalmente aéreo entrou em campo para tentar manter o mínimo de honra. Esteve distante de conseguir. O placar de 3 a 0 é mentiroso, porque a Oranje poderia ter feito um estrago bem maior. Arjen Robben sofreu pênalti para Robin van Persie fazer o primeiro e Daley Blind ampliou logo aos 16 minutos. Que o árbitro tenha facilitado, também era uma exibição horripilante de David Luiz, talvez sua pior pela Seleção. Os holandeses, porém, tiraram o pé e só concluíram o resultado aos 45 do segundo tempo, com Georginio Wijnaldum.

Para aquela não ser a última impressão, o Brasil retornou ao Mané Garrincha em junho de 2019. Enquanto se ajeitava para a Copa América, a Seleção recebeu o Catar na capital. Não foi uma partida boa tecnicamente, mas o time treinado por Tite fez valer sua superioridade. A partir de jogadas de Daniel Alves, Richarlison e Gabriel Jesus anotaram os gols que asseguraram o triunfo por 2 a 0. As manchetes, contudo, estampariam o nome de Neymar: foi neste compromisso que o craque lesionou o tornozelo e seria cortado da competição continental. O camisa 10, ao menos, não fez falta. Sem que o Mané Garrincha estivesse entre as sedes da Copa América, o Brasil foi campeão. Fica o aguardo, agora, para a próxima celebração na cidade sessentona.