Nos 50 anos de Van der Sar, 10 histórias desconhecidas sobre sua carreira

Edwin van der Sar foi um goleiro vencedor? Sim, mas nem tanto quanto Gianluigi Buffon, Iker Casillas e Dida, com troféus e mais troféus a lotarem as estantes de suas casas. Ficou conhecido por suas atuações? Sim, mas nem tanto quanto Oliver Kahn, Fabien Barthez, Rogério Ceni ou José Luis Chilavert, fontes inesgotáveis de carisma debaixo das três traves. Reza a lenda, até, que ao ser procurado pelo jornalista Jaap Visser, autor de sua biografia (lançada em 2011), Van der Sar lamentou: “Desculpe, eu realmente não sou o cara que faz e acontece”. Numa palavra: Van der Sar era discreto. Nem por isso o holandês, que faz 50 anos nesta quinta-feira, 29, deixa de ser respeitado como um dos melhores arqueiros de sua geração – na Holanda, ou Países Baixos, como se denomina atualmente, seguramente, o mais importante da posição na história do futebol do país, talvez o único neerlandês a ter sido considerado o melhor do mundo durante sua carreira.

Isso se justifica pelo que mostrou em suas grandes fases, principalmente em Ajax, seleção da Holanda/Países Baixos e Manchester United: Van der Sar impunha respeito pelo porte físico (1,97m e 85kg), tinha uma liderança natural nas defesas em que atuou, mostrava bom posicionamento, foi um dos primeiros goleiros a se notabilizar pela capacidade de jogo com os pés (Johan Cruyff certa vez chegou a chamá-lo de “o melhor armador do Ajax”), despertava confiança nos torcedores pela postura sempre calma no gol.

Contudo, mesmo mais notabilizado pelo que fazia em campo do que pelas ações fora (exceto hoje em dia, diretor geral do Ajax que é), Van der Sar teve suas histórias engraçadas durante a vivência no futebol. E dez delas – muitas, tiradas da biografia supracitada – estão à disposição neste texto.

1) O zagueiro virou goleiro pela altura

Van der Sar comemora pelo Ajax – Foto: Imago / One Football

Quando batia bola em sua infância na cidade natal, Voorhout, Van der Sar não ligava muito para a posição de goleiro. Preferia ser zagueiro – como era um tio seu, Kees Guyt, já falecido, que chegou ao profissionalismo, com passagens por times holandeses como Volendam e AZ. E foi justamente como zagueiro que Edwin teve sua primeira passagem mais séria no futebol, no Foreholte, clube amador da cidade, ainda na fase final da infância.

Todavia, um dia, o goleiro do Foreholte faltou, antes de uma partida. E Van der Sar, mesmo no começo da adolescência, já era alto. Bastou: todos os colegas de time disseram que ele poderia experimentar jogar no gol. E o próprio reconheceu: “Começou assim, e nunca mais parou. (…) Foi assim que virei goleiro, por acidente, nunca foi minha meta na vida”.

2) A ida para o Ajax foi definida no carteado

Já como goleiro, Van der Sar se transferiu para outro time amador – o VV Noordwijk, da cidade homônima vizinha a Voorhout. O VV Noordwijk já disputava campeonatos amadores, em todas as categorias – uma delas, a de juniores, na qual Van der Sar rapidamente se tornou titular, no fim dos anos 1980. Com o Noordwijk campeão holandês regional de juniores em 1989, o jovem arqueiro de 19 anos começou a ser observado por clubes profissionais, mesmo que ainda conciliasse futebol e escola.

Primeiro, o Sparta Rotterdam insinuou interesse. Todavia, uma total coincidência abriu as portas do Ajax para Van der Sar. Seu técnico nos juniores do VV Noordwijk, Ruud Bröring, costumava fazer reuniões mensais com um grupo de amigos, para jogarem baralho por brincadeira. Um desses amigos era… Louis van Gaal, então ainda auxiliar técnico do Ajax. E numa dessas reuniões, em 1989, Van Gaal confessou a Bröring: precisava levar um goleiro e um ponta-direita para o Ajax. O treinador do Noordwijk o acalmou: tinha os dois nomes de que ele precisava. Um deles, Van der Sar.

Van Gaal viu alguns jogos dos juniores do Noordwijk. Foi o suficiente: em 1990, levou Van der Sar para o Ajax. Em 1993, fez dele titular. E Van der Sar só deixou Amsterdã nove anos depois de sua chegada ao clube em que virou profissional. Tudo por causa do carteado.

3) O campeão europeu toca bateria – e se aborrece com a estreia na seleção

Van der Sar comemora o título da Champions ao lado de Overmars e Litmanen (Foto: Imago / One Football)

Um dos jogadores de confiança de Van Gaal, Van der Sar já era absoluto na meta do Ajax quando o clube foi campeão europeu, em 1994/95. E aquele 24 de maio de 1995, dia da final contra o Milan, em Viena, foi de memórias alegres e divertidas para o camisa 1 dos Ajacieden. Primeiro, o gol de Kluivert que deu o título: “Quando o gol saiu, eu pensei ‘será que entrou mesmo?’. Aí eu vi os caras comemorando e o juiz apontou o meio. Fiquei maluco”. Depois, a festa da vitória: “A gente teve uma festa, no hotel em que estavam as esposas dos jogadores. Lá tocou uma bandinha de músicas holandesas, e quando ela terminou. Eu fui tocar bateria. (…) Pensei: ‘Não vou perder essa chance’. Bum, bum, pá, bum, bum, pá. Eu me diverti”.

Curiosamente, a estreia na seleção holandesa (para a qual já fora convocado na Copa de 1994, como reserva), ocorrida duas semanas depois, não foi lembrada com tanta satisfação assim. Primeiro, por causa do resultado: uma derrota surpreendente para Belarus, por 1 a 0, nas eliminatórias da Euro 1996. Depois, pelo susto que Van der Sar tomou com a falta de comodidades em Minsk, a capital bielorrussa, local do jogo: “Não tinha nada. Nada. No hotel não havia muito a comer, não havia cortinas nos quartos, e quando você se deitava na cama, o colchão afundava meio metro. A gente queria telefonar para casa, e nada. Celulares mal existiam”. E finalmente, pelo próprio desânimo do jogo em 7 de junho de 1995: “Que diferença com duas semanas antes, uma final de Liga dos Campeões, num estádio fervilhante”.

4) Copa de 1998: a quase polêmica e a semifinal marcante

Van der Sar comemora a classificação contra a Argentina (Foto: Sven Simon/Imago/One Football)

Em 1998, Van der Sar vivia o primeiro auge da carreira. No Ajax, fora eleito o melhor goleiro do Campeonato Holandês entre 1994 e 1997 – e na temporada 1997/98, foi escolhido o melhor jogador da Eredivisie no geral. Na seleção, já tomara a titularidade para não mais perdê-la. Assim chegou à Copa de 1998. Na qual viveu uma quase polêmica: durante a comemoração da vitória contra a Iugoslávia, nas oitavas de final, viu-se o goleiro socando Winston Bogarde, zagueiro reserva e antigo colega de Ajax. Temeu-se uma volta dos problemas raciais que perturbaram a Holanda na Euro 1996.

Já na zona mista após a partida, Van der Sar se irritou ao ser perguntado sobre isso: “Que problemas de raça? Não tem nada disso atualmente!”. No dia seguinte, perguntou se Bogarde tinha alguma mágoa a ser resolvida: o zagueiro disse que, por ele, nenhum problema. E volta e meia o goleiro tem de explicar, como fez na biografia: “Na comemoração, veio um braço direto na minha goela. Eu não conseguia respirar, e soquei o braço. Parecia o braço de Bogarde, e eu realmente fui para cima dele. Mas era o braço de Cocu, depois notei”.

O que quase virou uma polêmica foi rapidamente esquecido, com a sequência da boa campanha da Holanda naquela Copa. Depois das quartas de final, com a emocionante vitória contra a Argentina, Van der Sar foi visto em cenas marcantes novamente: no pós-jogo em Marselha, abraçava Edgar Davids na comemoração. Na zona mista, quando perguntado o que estavam falando, brincou: “Estávamos falando um ao outro ‘grande trabalho, excelente’. E talvez estivéssemos dizendo que a gente se ama”. Mas até hoje, o ex-goleiro diz: o jogo mais marcante de seus vinte anos de carreira, seu momento mais marcante no futebol, foi a clássica semifinal daquela Copa, contra o Brasil: “Foi o ponto alto e o ponto baixo ao mesmo tempo. O estádio cheio, metade laranja, metade verde-amarelo. Jogamos muito bem, merecíamos a vaga na final. Mas foi um jogo especial, nunca posso deixar de lembrá-lo”.

5) Na Juventus, a proposta recusada do Barcelona e as críticas a Luciano Moggi

Van der Sar e a malfadada passagem pela Juventus (Stuart Franklin /Allsport/One Football)

Em 1999, Van der Sar deixou o Ajax saudado pela torcida com uma faixa que o tornava “de laatste van der mohikanen”, “o último dos moicanos”: afinal, era o último jogador da geração campeã europeia em 1995 a ir embora de Amsterdã. E sua chegada à Juventus foi cercada de expectativa: afinal, era o primeiro goleiro não-italiano da história da Velha Senhora. Porém, na Itália, Van der Sar teve o momento mais baixo de sua carreira. Seu estilo de jogar, alternando a saída com os pés com o trabalho debaixo do gol, não combinou muito com o time italiano. Na primeira temporada, o holandês passou sem grandes falhas, mas pela expectativa com que chegara, decepcionou um pouco.

Depois de defender a Holanda na Euro 2000, o goleiro até recebeu uma proposta do Barcelona, que vivia então o período do “BarçAjax”, com vários holandeses, bem entrosados (Frank de Boer, Boudewijn Zenden, Phillip Cocu, Patrick Kluivert) ou não (Ronald de Boer, Winston Bogarde). Além destes, lá estava Frans Hoek, o treinador de goleiros que o formara no Ajax. Mas Van der Sar queria justificar a contratação da Juventus, e recusou a proposta barcelonista de cara. Carreira encerrada, lamentou retrospectivamente: “Eu podia ter pensado melhor naquela proposta”.

Até porque, se a primeira temporada na Juventus fora apenas discreta, a segunda foi ruim, muito ruim: Van der Sar falhou em partidas decisivas na péssima campanha juventina na Champions League (eliminação na fase de grupos). Pior ainda: falhou justamente no confronto direto da Juventus com a Roma, então líder do Campeonato Italiano, que saiu do Delle Alpi com 2 a 2, na rota do título que conquistou.

Mesmo assim, ao perguntar a Luciano Moggi, diretor geral da Juventus, se ainda teria espaço na equipe para 2001/02, Van der Sar ouviu resposta positiva. Porém, semanas depois, em junho de 2001, o clube italiano apresentava Gianluigi Buffon, como a transferência mais cara de um goleiro até então (€ 52,8 milhões pagos ao Parma). Era a senha: não haveria lugar para Van der Sar. Que guardou certa mágoa de Luciano Moggi: “Não se gasta um dinheiro desses de uma hora para outra. Eu disse que ele devia me dizer mais cedo que eu não estava nos planos, aí eu teria procurado outro clube”. Sobrou até uma alfinetada ao diretor-geral juventino, por seu envolvimento no Calciopoli que virou o futebol italiano do avesso, em 2006: “Depois de tudo, ficou claro como Moggi não era confiável”.

6) A aposta no Fulham deu errado. E a ida a Old Trafford – como espectador

Van der Sar em ação pelo Fulham (Phil Cole/Getty Images/One Football)

Naquele meio de 2001, Louis van Gaal, então treinador da seleção holandesa, avisou Van der Sar: ele precisava de um time em que fosse titular, senão sua própria vaga na Laranja correria riscos. Surgiu o Fulham, que acabara de ser promovido à primeira divisão inglesa e chegava à Premier League com ambições. Van der Sar aceitou, após ouvir o conselho de Van Gaal: poderia passar a temporada 2001/02 no Fulham, então poderia fazer uma boa Copa do Mundo pela Holanda, e aí seu nome voltaria ao radar dos grandes clubes europeus.

A aposta deu errado. Como se sabe, a Holanda não foi à Copa de 2002, e Van der Sar perdeu terreno entre os goleiros mais falados do mundo, já que o Fulham não passava do meio da tabela na Premier League. O que não quer dizer que seu período no clube de Londres não deu certo. Longe disso: o goleiro foi querido pela torcida dos Cottagers, fez ótimas temporadas (em 2003/04, chegou a ser eleito o melhor jogador do clube na temporada), manteve a titularidade intocada na seleção da Holanda.

Porém, com o tempo passando e a idade chegando, seu objetivo era inegável: voltar a um grande clube europeu. Numa entrevista em 2009, Van der Sar chegou a se recordar: “Um dia, jogando pelo Fulham, eu fui ver uma partida do Manchester United, pela Champions  League. Assistindo a ela, no estádio, eu pensei: ‘Será que um dia eu ainda voltarei a jogar uma dessas?'”. Esposa de Van der Sar desde 2006, companheira desde 1998, Annemarie van der Sar confirmou: “Sempre que chegava a janela de transferências, ele se perguntava ‘virá um clube, um grande clube?'”.

7) O telefonema de Ferguson e a ida para o United

Van der Sar e Ferguson, no United (Alex Livesey/Getty Images/One Football)

O grande clube que Van der Sar esperava veio em 2005. De certa forma, um colega de seleção holandesa forçou a barra: em documentário produzido pela FOX Sports holandesa, o próprio goleiro revelou que Ruud van Nistelrooy comentou com Alex Ferguson que Van der Sar poderia ir ao Manchester United. O técnico desconfiou: “Mas ele já tem 34 anos…”. Ainda assim, diante de tanta desconfiança dos Diabos Vermelhos com os goleiros que passaram por lá desde a saída de Peter Schmeichel, a ideia ficou na cabeça de Ferguson. Enfim, em junho de 2005, no meio de datas Fifa (a Holanda enfrentaria Romênia e Finlândia, nas eliminatórias da Copa de 2006), Van der Sar ouviu do agente: o United fizera uma proposta por ele.

O jogador ainda agiu com cautela: pensou se a proposta seria para ser o goleiro reserva ou o titular do clube vermelho de Manchester, que contava então com Tim Howard – o norte-irlandês Roy Carroll e o espanhol Ricardo López, reservas, estavam deixando o clube. Logo depois da conversa com o agente, Van der Sar notou: tinha uma chamada não atendida em seu telefone celular. Ouviu o recado deixado, uma, duas, três vezes: era Alex Ferguson. Respondeu à chamada e ouviu do escocês: “Eu quero você. Eu preciso de um goleiro experiente, alguém que traga calma”. Só ali Van der Sar entendeu: seria o titular do Manchester United. Assinou contrato em junho de 2005.

8) Em Moscou, sonho realizado e a história de quem não estava lá

Van der Sar comemora o pênalti decisivo contra Anelka (FRANCK FIFE/AFP via Getty Images/One Football)

O começo ainda foi discreto, mas Van der Sar logo se consolidou na meta do Manchester United. Quando o time voltou à semifinal da Champions League, em 2006/07, já era titular absoluto. O começo da temporada 2007/08 foi ainda mais promissor: na decisão da Supercopa da Inglaterra, contra o Chelsea, a partida foi aos pênaltis – United campeão, 3 a 0 nas cobranças, três defesas de Van der Sar. Quis o destino que, quase um ano depois, os dois times se reencontrassem. Num cenário bem mais luxuoso: estádio Luzhniki, em Moscou, em 20 de maio de 2008, na final da Champions League.

E ali Van der Sar realizou o grande sonho de sua carreira: fazer uma defesa decisiva e histórica. Afinal, após 1 a 1 em 120 minutos, numa decisão por pênaltis eletrizante (como esquecer o escorregão de John Terry?), coube a ele espalmar a cobrança de Nicolas Anelka, nas séries alternadas, e ser o rosto do terceiro título europeu do Manchester United. Na zona mista do Luzhniki, à televisão holandesa, Van der Sar brincou com os 37 anos que já tinha então: “Não foi um sonho de criança, foi um sonho de veterano se realizando”. Lembrando de quando viu os familiares nas tribunas, o arqueiro se emocionou: “Eu procurei onde estava a minha família. Quando os encontrei, vieram as lágrimas”. Falando à ITV inglesa, desabafou sem freios: “Oh, f*cking hell!”.

Mas uma das histórias mais amáveis do apogeu da carreira de Van der Sar veio da familiar que não estava lá: sua filha, Lynn, então com oito anos. Ela se lembrou a um livreto sobre o pai: “Eu não fui àquela final, porque eu era pequena. Eu também não vi nada na tevê, porque tinha ido dormir cedo. Aí, no dia seguinte, acordei e li no jornal que o papai era um herói. E todo mundo veio comemorar e comentar comigo na escola”.

9) A ausência na Copa de 2010 quase causa um arrependimento. Quase

Van der Sar seguiu em alta no fim da carreira pelo United – Foto: Getty Images

Quanto mais veterano se tornava, mais Van der Sar recuperava plenamente sua imagem. Em 2009, 38-para-39 anos, mesmo com a derrota do Manchester United em outra final de Champions League, o goleiro não só foi eleito pela Uefa o melhor da temporada 2008/09: construiu a maior invencibilidade de um goleiro na história de campeonatos do Reino Unido (claro, incluindo a Premier League). Foram 1.311 minutos sem sofrer gols, no Manchester United que se tornava tricampeão inglês com uma defesa lembrada até hoje: Van der Sar, Gary Neville, Rio Ferdinand, Nemanja Vidic e Patrice Evra.

Van der Sar deixara a seleção holandesa após a Euro 2008, 13 anos e 128 jogos (recorde da época) depois – ainda houve uma volta inesperada, para dois jogos pelas eliminatórias da Copa de 2010, por lesões do titular Maarten Stekelenburg e do reserva Henk Timmer, mas ficara naquilo. Porém, com a segurança que exibia no Manchester United e a inconstância do sucessor Stekelenburg, muito se pedia sua volta à Laranja, para a Copa de 2010. O goleiro desconversou, evitou o assunto, até que em fevereiro de 2010, sua negativa foi mais firme, ao jornal “Algemeen Dagblad”: “Eu não vou à Copa. Maarten pode arrumar as coisas. Ele é o melhor goleiro holandês do momento”. Quis o destino, novamente, que a Holanda fosse à decisão na África do Sul. Curtindo férias em Ibiza, com amigos e a esposa, Van der Sar acompanhou toda a Copa.

E foi sincero na biografia: “Se aquela bola [de Arjen Robben] tivesse entrado, eles teriam sido campeões mundiais. E eu teria ficado feliz pelos caras, mas muito triste por mim. Antes da final, mandei mensagens de texto a todos eles, dizendo ‘peguem aquela taça’. Eu os apoiei, mas para mim teria sido desastroso. Quando chegaram à final, Annemarie e eu ficamos com aquilo na cabeça por uns três dias: eu tinha cometido o erro da minha vida? Eu tinha desperdiçado a chance de ser campeão mundial? Porque se a Holanda ganhasse aquela Copa, pelo resto da minha vida eu teria de ouvir que fui um idiota. Em cada esquina, em cada ônibus, trem ou avião, em cada restaurante ou café as pessoas iam chegar e falar ‘Edwin, como diabos você desistiu de ir àquela Copa?’ Seria horrível”. O gol de Andrés Iniesta que fez da Espanha campeã mundial deixou o arrependimento no “quase”.

10) A carreira terminou, a atividade segue

Van der Sar pega pênalti pelo VV Noordwijk, já depois de aposentado (Foto: Divulgação)

Van der Sar anunciou em janeiro de 2011: o fim da temporada 2010/11 seria o fim da sua carreira. Com o Manchester United seguindo em ótima fase, veio outro título inglês. Mais do que isso: veio a terceira final de Champions League em quatro temporadas para os Diabos Vermelhos. E o jogo em Wembley foi a última partida da carreira profissional de Van der Sar. Que falhou no segundo gol do Barcelona, em meio à esplendorosa atuação do time catalão, novamente campeão europeu. Mas que também foi saudado pelo que conseguira na carreira. Antes, por Alex Ferguson, que o considerou “exemplo de profissional” na entrevista coletiva pré-final. Durante, por algumas boas defesas que fez na final daquela Champions. E depois, por uma grande festa de despedida em 3 de agosto de 2011, na então Amsterdam Arena.

Van der Sar já sinalizava então: “Eu fiz um curso de treinador, mas não me vejo treinando. (…) Mas algo em direção é interessante”. Dito e cumprido: um ano depois, o ex-goleiro entrava para a direção do Ajax. Primeiro, sendo vice-diretor de marketing. Para se acostumar antes de ir ao cargo que Johan Cruyff sugerira para ele, na reformulação por que o Ajax passou entre 2010 e 2011: diretor geral. Foi o que se tornou, em 2016. E as atividades fora dos gramados se acumulam: além de auxiliar a fundação beneficente que leva seu nome (fundação que auxilia vítimas de problemas neurológicos, comandada pela esposa Annemarie, ela mesma vítima de um AVC em 2009), Van der Sar ainda é vice-presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA, da sigla em inglês).

No entanto, mesmo plenamente estabelecido como dirigente, para o bem (foi uma das caras da reação do Ajax, nos últimos anos) e o mal (há fortes críticas à postura negligente do Ajax diante de casos polêmicos, como o tratamento a Abdelhak Nouri após a parada cardiorrespiratória que inviabilizou a carreira de “Appie” no futebol), Van der Sar não esqueceu completamente as atividades dentro de campo. Em 2016, com o velho VV Noordwijk tendo os dois goleiros lesionados, Van der Sar se ofereceu para jogar uma partida – e nela, pegou um pênalti. Em sua casa, tem um quarto que serve de “museu particular”, com troféus e camisas de valor incalculável – as camisas usadas na semifinal da Copa de 1998 e na final da Liga dos Campeões 2007/08 estão lá, por exemplo.

E até hoje, Van der Sar ainda guarda luvas e chuteiras dentro do seu escritório. Quando sente saudades, não duvida: entra em campo para treinar junto a Onana, Stekelenburg, Scherpen e Kotarski, os quatro goleiros atuais do Ajax, como se fosse o “quinto” dos arqueiros Ajacieden. Para lembrar um pouco dos 21 anos de carreira em que se formou como o mais importante goleiro holandês de todos os tempos.