Às gerações mais jovens, possivelmente Didier Deschamps terminará recordado como o treinador campeão do mundo com a França em 2018. Um comandante com suas limitações, mas que soube montar um time coeso e, mais importante, um grupo sem vaidades para conquistar o bicampeonato. O trabalho do técnico, contudo, nada mais é um reflexo de sua personalidade como jogador. Um volante abnegado, de certa qualidade técnica e muita liderança, que usou a braçadeira de capitão por onde passou e se tornou protagonista de títulos importantes. Um dos melhores da história do futebol francês, e não à toa idolatrado por diferentes clubes. Entre os que fizeram a dobradinha dentro e fora de campo, foi dono de uma notabilidade mais próxima a Franz Beckenbauer e de uma funcionalidade similar à de Zagallo. Um gigante, que merece honras no dia em que completa 50 anos.

Nascido em Bayonne, na parte francesa do País Basco, Deschamps demorou a se imaginar como um jogador de futebol. Filho de um pintor e de uma vendedora de lã, cresceu em um ambiente bucólico e gostava de explorar a natureza local, além de ser um bom estudante. A bola não passava de um lazer, conciliando o handebol, o atletismo, a pelota basca e o rúgbi – que era praticado por seu pai. Ao perceber que não tinha o porte físico para seguir em frente com a bola oval, aos 11 anos, passou a se dedicar com mais afinco ao futebol. Logo se tornou um promissor meio-campista, por sua capacidade física e por sua influência sobre os companheiros. Foi cortejado por Bordeaux, Auxerre e Saint-Étienne, mas, atraído pela estrutura escolar oferecida aos jogadores da base, optou pelo Nantes aos 15 anos.

Deschamps permaneceu em Nantes por seis temporadas. Teve dificuldades no início, principalmente por ser tratado como uma pérola por dirigentes e causar ciúmes em companheiros da base. Contudo, seu talento logo falaria mais alto, ascendendo ao lado de Marcel Desailly. A estreia como profissional aconteceu na temporada 1985/86, quando sua equipe foi vice-campeã da Ligue 1. O prodígio virou protegido do lendário Coco Suaudeau, considerado o maior técnico da história dos Canários. Jogando como líbero ou volante, arrebatou seu espaço como titular e foi nomeado capitão aos 20 anos. A maturidade acima do comum era um de seus trunfos, assim como a postura incansável e a inteligência nas ações.

Aos 21 anos, Deschamps ficou grande demais para o Nantes. Seria levado pelo Olympique de Marseille, principal potência do futebol francês na época e dono de um projeto ambicioso. O volante não se adaptou de imediato e passou um ano emprestado ao Bordeaux, mas voltaria para fincar o pé. Parte da equipe tetracampeã nacional, já era indiscutível na campanha histórica rumo à conquista da Liga dos Campeões em 1992/93. Não à toa, substituíra Jean-Pierre Papin como capitão e, aos 24 anos, ergueu a Orelhuda com a braçadeira. Contudo, o escândalo de manipulação de resultados envolvendo Bernard Tapie fez com que o meio-campista deixasse o Vélodrome. Assinou com a Juventus, que se reconstruía.

Mais uma vez, Deschamps se tornou fundamental. Era um dos homens de confiança no meio-campo de Marcello Lippi e participou das campanhas que recolocaram a Juve como uma potência continental. Manteve-se intocável na equipe que faturou a Liga dos Campeões em 1995/96, além de ser vice-campeão do torneio em outras duas oportunidades. Também levou três Scudetti para casa. Face da liderança bianconera, formaria uma parceria notável com Zinedine Zidane, que repercutiu acima do clube. No entanto, já depois dos 30 anos, sentindo o impacto físico da idade, também foi afetado pelos resultados mais modestos de sua equipe.

Em 1999, Deschamps aceitou uma proposta do Chelsea. Por lá, encontrou velhos conhecidos e teve certa importância na equipe que retornava à Liga dos Campeões. Ainda assim, não causou a repercussão esperada e deixaria o time ao final da temporada. Por fim, teria uma passagem também pelo Valencia, em ano no qual os Ches foram finalistas da Liga dos Campeões. Com problemas físicos, não conseguiu conquistar seu espaço no meio-campo. Assim, aos 32 anos, resolveu pendurar as chuteiras. Foi quando seu currículo o impulsionou como treinador. Disputou a final da Champions com o Monaco, recolocou a Juventus na Serie A, faturou a Ligue 1 com o Olympique de Marseille e, a partir de 2012, desenvolveu seu trabalho com os Bleus. Nem sempre teve os melhores resultados, mas garantiu que a história fosse feita. Ou, em seu caso, refeita.

Nem tudo foram flores durante a passagem de Didier Deschamps pela seleção francesa como jogador. Ele estreou em 1989 e participou dos fracassos nas Eliminatórias para a Copa de 1990 e de 1994, além de estar presente na campanha abaixo das expectativas na Euro 1992, após um bom ciclo anterior. Ascenderia mesmo com a chegada de Aimé Jacquet, assumindo o posto de capitão. Foi importante na Euro 1996, até estourar nas duas conquistas seguintes. Brilhou na Copa do Mundo de 1998 como um dos melhores do torneio. E, mesmo sem apresentar sua forma mais apurada, também teve ótimas atuações na Euro 2000. Em ambas eternizou a imagem com a braçadeira e a taça. Deixou a sua aura como uma verdadeira referência aos Bleus. Algo que se repetiu em 2018, com sua boa relação com o elenco e a capacidade de moldar o time.

Deschamps não era o tipo de jogador que resolvia as partidas. Contudo, o volante oferecia equilíbrio e coesão às suas equipes, entre a ótima noção de posicionamento, o esforço constante, a habilidade para desarmar os adversários e a simplicidade para construir o jogo. Se não era um craque, estava distante de ser considerado um simples perna de pau. Fazia a sua função com extrema maestria, algo que se comprova pelo currículo recheadíssimo. Excelência que valeu seu lugar na história e abriu as portas para continuar acumulando vitórias.