* Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

Há 25 anos, em 6 de outubro de 1993, ocorria o último Ceará x Fortaleza da primeira divisão brasileira. O clássico tem bons prognósticos para retornar à Série A no próximo ano, dada a grande campanha tricolor de liderança na segundona e o embalo alvinegro sob Lisca na fuga contra a queda da elite. No mesmo 6 de outubro de 1993, também ocorria o último Re-Pa da primeira divisão. Rivalidade que, em contraste, pode em 2019 ocorrer pela primeira vez na Série C. Vale relembrar os momentos de glória do Clássico-Rei da Amazônia.

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Diversas são as curiosidades a envolver os dez encontros entre Remo e Paysandu na elite do Brasileirão – ou melhor, do “Copão”, como o campeonato era apelidado no período mais frequente do dérbi pelo certame, os anos 70. Três ocorreram em pleno feriado de 7 de setembro. No geral, os azulinos têm vantagem de uma vitória, três contra duas.

Por outro lado, dois dos triunfos do Leão se deram entre 1973 e 1977, quando todos os clássicos foram realizados somente no estádio remista, o Baenão; as duas vitórias do Papão ocorreram já na Era Mangueirão, inaugurado em 1978. Vez ou outra, troféus à parte também eram disputados nos confrontos.

Por fim, o último Re-Pa, a completar hoje 25 anos, rendeu o único gol de Giovanni no dérbi mais vezes realizado no mundo, em contraste ao fracasso do Messias santista por ambas as camisas três anos antes de brilhar no Barcelona. Eram tempos em que as notícias do jogo ainda eram vendidas em cruzeiros – a 70 no jornal da versão paraense do Grupo Globo, a 50 no diário associado à cadeia de Assis Chateaubriand e a 30 no da família Barbalho, respectivamente O Liberal, A Província do Pará e Diário do Pará, que serviram de fonte para essa matéria.

1973

Quarenta times disputaram o campeonato, inicialmente divididos em dois grupos de vinte. Remo e Paysandu começaram a competição separadamente, e nada bem: o Papão ficou em último no Grupo A, e o Leão em 17º no B. Ninguém era eliminado; ao fim da fase, os times foram redistribuídos em quatro grupos de dez, fase em que a dupla paraense viria a se cruzar, no Grupo 4.

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Ainda assim, a inicial campanha ruim azulina custou o cargo do treinador Aloísio Brasil, que em agosto havia encerrado jejum estadual de cinco anos do clube, que vinha de dois vices traumáticos – sofrendo virada de 3 a 2 em jogo que vencia por 2 a 0 até os 36 do segundo tempo em 1971; e um empate em casa em final tumultuada em 1972: as luzes do Baenão foram apagadas por oitenta minutos em meio à discussão se o gol remista seria ou não validado; quando foram reacesas, as redes haviam sumido e o rival foi buscar redes na Curuzu, a duas quadras dali, para a partida ser reiniciada…

Cenas do primeiro Re-Pa da elite nacional publicadas em A Província do Pará, com destaque ao salto de Alcino

Aloísio Brasil foi substituído por um nome célebre a nível internacional: Paulo Amaral. O resultado se viu na segunda fase. O Remo terminaria líder do Grupo 4, a reunir ainda, pela ordem de colocação, o Santa Cruz, Comercial de Campo Grande, Goiás, Desportiva, Sport Recife, CEUB, Náutico, Paysandu e Moto Clube. Haveria ainda uma terceira fase, que já não incluiria todos os quarenta times. Para chegar nela, era necessário ficar na metade superior de uma tabela geral, a somar pontos das duas fases prévias. Assim, o segundo colocado Santa Cruz e o quarto colocado Goiás puderam avançar, mas não o líder Remo. Quando o Re-Pa ocorreu, em 18 de novembro, o Leão ainda aspirava a classificação, enquanto o rival buscava apenas fugir das últimas colocações.

Era um duelo de opostos, mas clássico é um campeonato à parte (gerando inclusive a maior arrecadação do “Copão” 1973 em Belém, 169 mil cruzeiros): mesmo no Baenão, o Paysandu foi descrito como melhor em campo. O Remo abriu o marcador de modo controverso: Roberto, o “Diabo Louro”, recebeu em posição de impedimento passe de Tito. Enquanto O Liberal registrou que o lance teria sido legal, criticando a defesa alviceleste por preferir cochilar sob o aguardo do bandeirinha, A Província noticiou que o próprio atacante parou sua jogada. Fato é que o auxiliar nada marcou e o juiz mandou o jogo seguir. Livre, Roberto driblou o goleiro Omar e marcou, aos 40 minutos.

Quatro minutos depois, veio o empate. Diogo cruzou para a área azulina, e Mendes cortou, preferindo sair com a bola dominada. Perdeu-a para Ivair, que driblou também Rui antes de desferir um tiro forte e bem colocado no ângulo direito, sem chances a Dico (“um golaço, daqueles que fariam levantar um morto”, publicou O Liberal). O resultado ficou no 1 a 1, considerado justo para uma partida quente e movimentada, sem retrancas, com a crítica maior da Província sendo dirigida ao trio de arbitragem conduzido por Geraldo César Coelho (sem parentesco com Arnaldo, por sinal filho de paraenses). O treinador bicolor, o folclórico João Avelino “71”, declararia que se o time jogasse sempre como naquela tarde, teria se classificado. Adiante, o Remo perderia a classificação por dois pontos.

O que mais era noticiado: além da viagem do Santos ao Chile para enfrentar a seleção chilena (no estádio que ainda abrigava presos políticos do golpe de setembro), precisamente no dia do Re-Pa ocorreu a célebre declaração do ainda presidente Richard Nixon de que não era “um canalha”, em resposta às investigações de Watergate.

1974

Dessa vez, o “Copão” ocorreu no primeiro semestre e a dupla estava junta em um dos dois grupos de vinte times. E quem brigava pela classificação era o Paysandu, reforçado com uma estrela local: o ponta Manoel Maria, ex-Santos de Pelé, vinha da equipe argentina do Racing. Para apitar, ninguém menos que Romualdo Arppi Filho. Na teoria, prognóstico de bom jogo no Baenão. De fato, O Liberal assinalou que o clássico, apesar do 0 a 0, “estava sendo um dos melhores dos últimos anos em matéria de jogo” até a polêmica começar aos 32 do segundo tempo para o clássico terminar associado aos anos de chumbo.

Naquele instante, o bicolor Tuíca recebeu lançamento para a esquerda, resistiu a duas entradas duras de Rosemiro (Bola de Prata da Placar em 1978, pelo Palmeiras) e passou a Adilson, que de primeira entregou a Luizinho. Este passou por Oscar e Queiroz e, na saída do goleiro Gelson, tocou rasteiro no canto, na descrição d’O Liberal. Irritado, o presidente remista Manoel Ribeiro invadiu o gramado e socou o estômago do bandeirinha Darcey Lucas, segundo A Província. Em contraste aos relatos de 1973, era ela quem considerava que o gol era “duvidoso” enquanto O Liberal afirmava ter sido “legítimo”. Romualdo inicialmente validou e instalou-se a confusão, com Darcey “esclarecendo” que vira falta de Luizinho em Queiroz. O árbitro, embora estivesse em cima do lance segundo os dois jornais, então reviu a decisão e invalidou, revoltando dessa vez os visitantes.

O nervoso Romualdo Arppi Filho acabou como personagem principal em 1974. O que era apitar uma final de Copa do Mundo (em 1986) após tiroteio em Re-Pa?

Luizinho e os colegas Roberto Bacuri e Jair Santos se dirigiram à própria torcida, insuflando-a. Objetos começaram a ser arremessados e o alambrado, depredado. Com a invasão de campo, a reação policial foi a tiros. Seis torcedores foram baleados, dois deles no tórax, e diversos outros sofreram ferimentos de cassetete, tijolo ou pisoteamento, embora felizmente ninguém tenha morrido. O Liberal registrou que o capitão remista Queiroz, que não era do Estado, manifestou desejo de partir: “Eu já falei com Manoel Ribeiro e pedi três passagens para ir embora no fim de semana. Não sou nenhum louco para ficar aqui e arriscar a minha vida nesta guerra”.

Adiante, o Paysandu de fato logrou classificar-se ao hexagonal-semifinal liderado pelo Cruzeiro. A ausência da vitória, porém, representaria um tabu de 23 jogos sem vencer o rival entre 1973 e 1976. Nos clássicos seguintes, esse jejum já era mais destacado na imprensa.

O que mais era noticiado: a posse e início de governo de António de Spínola após a Revolução dos Cravos em Portugal e a preparação da seleção para a Copa do Mundo.

1975

Remo e Paysandu estavam em grupos separados, A e B, em novo “Copão” desenrolado no segundo semestre. Mas o regulamento esdrúxulo previa que os dez times do grupo A só enfrentariam os dez do B, e vice-versa. Os cinco primeiros se classificariam à fase seguinte.

O Remo vinha de um tri estadual seguido, após não conseguir desde os anos 50 sequer dois títulos seguidos. Nesse contexto do tri e do tabu de 23 jogos brilhava o ídolo azulino máximo, o atacante Alcino. Contudo, o “Negão Motora” vinha devendo contra o rival no “Copão”, algo que vinha sendo destacado na imprensa. Ele não só não balançava as redes como em 1973 foi descrito como facilmente anulado, e em 1974 sua atuação fora registrada como “lenta”.

No mês seguinte ao fim do estadual, a dupla se encontrou em 7 de setembro. E enfim Alcino teve um Re-Pa nacional para chamar de seu, marcando os dois gols da tarde após um primeiro tempo monótono dos dois lados depois de dez minutos iniciais movimentados. Mas quem mudou o jogo teria sido o colega Zé Lima, ao ser colocado por Paulo Amaral (de volta a Belém após o comando técnico azulino ficar em 1974 com Paulinho de Almeida, embora o treinador no Re-Pa da bala houvesse sido o ex-goleiro François) no segundo tempo. Sob emergência: substituiu Roberto “Diabo Louro”, que saíra desacordado de maca após choque com Valtinho.

Alcino: após passar em branco nos dois clássicos anteriores pelo Brasileirão, guardou dois em 1975

A Província registrou que o reserva pôs algum fogo na partida, além de fornecer as duas assistências-relâmpago: aos 22 do segundo tempo, Zé Lima centrou na medida para Alcino aproveitar de cabeça, no alto de sua estatura superior a 1,90 m (muito mais incomum na época), colocando a bola no canto esquerdo de Reginaldo. O Papão tentou buscar o empate, mas desordenado, desguarnecendo a defesa: dois minutos depois, no primeiro contra-ataque após o 1 a 0, o Leão ampliou, com cruzamento agora rasteiro de Zé Lima para Alcino, que usou o pé esquerdo para completar.

Os azulinos se deram por satisfeitos e passaram a cadenciar o jogo apitado pelo gaúcho Agomar Martins. Na época, a vitória normalmente ainda valia dois pontos, mas no regulamento do “Copão” valeria três se viesse por dois gols de diferença. Tanto o Grupo A como o B terminaram embolados e aquele Re-Pa teve seu peso: sem aqueles três pontos, o Remo terminaria em 6º, desclassificado. Ficou em 3º e avançaria para a fase da recordada vitória sobre o Flamengo no Maracanã. Já o Papão terminou em um enganoso 9º lugar: três pontos foram justamente a diferença que faltou para a classificação.

O que mais era noticiado: no mesmo dia, Niki Lauda garantiu seu primeiro título na Fórmula 1.

1976

Alcino partira para o Grêmio e o Paysandu enfim encerrou a sequência de vitórias azulinas no clássico e no troféu estadual, sendo em agosto o campeão paraense de 1976. Até o 7 de setembro, já havia vencido quatro Re-Pas naquele ano, um deles (pelo terceiro turno estadual) por W.O. No “Copão”, os dois ficaram no Grupo C, a reunir nove times e dar vaga aos quatro primeiros para a fase seguinte.

Em calendário ainda mais maluco, o Re-Pa seria o quarto compromisso azulino no torneio, mas apenas o segundo dos bicolores. O Leão vinha apenas regular: 2 a 0 no Ceará e 0 a 0 com o Guarani, ambos em Belém, e antes do clássico havia sido derrotado por 1 a 0 para o Fortaleza no Nordeste. O Papão, por sua vez, havia vencido por 3 a 0 o Nacional de Manaus e já seguia invicto havia 31 partidas. Mais uma vez, o clássico se realizaria no Baenão. Que veria o melhor Re-Pa já jogado na primeira divisão, e com “a maior renda já alcançada no Pará, Cr$ 444.161,00”, registrou O Liberal.

“Há muito tempo o torcedor paraense não via uma partida de verdadeiro futebol, cheia de emoções do princípio ao fim, de muita vibração, muita técnica, raça, sem falhas da arbitragem e, principalmente, de muitos gols”, exaltou A Província. Aos dez minutos, o jogo era fluido e já colecionara bons lances aos dois lados. Foi quando Amaral abriu o marcador para os donos da casa, acreditando na falha do goleiro Reginaldo – que simplesmente havia ido disputar a bola longe da meta, ganhara e rolara a redonda para a área para poder usar as mãos. Antes que se agachasse, perdeu-a para o oportunismo do adversário.

O baque psicológico pela maneira que o gol foi sofrido condicionou o resto do jogo, ainda que Reginaldo se recuperasse com boas defesas, uma delas descrita como “monumental” em cabeceio de Mesquita aos 16 minutos. Só que os colegas de ataque tentavam no desespero o empate. Aos 37 minutos, após dois rebotes da zaga bicolor, Feitosa mandou um chute seco a meia altura, que desviou no bicolor Willi e enganou Reginaldo: 2 a 0.

Dupla Re-Pa perfilada para o hino nacional em 1976: um dos três Re-Pas que o Brasileirão já reservou para o feriado de 7 de setembro

Mas aos 41 o Papão se recolocou no jogo. Arranjou um escanteio e no agarra-agarra da cobrança o elogiado árbitro paulista Dulcídio Vanderley Boschillia assinalou pênalti que Roberto Bacuri (talismã alviazul naqueles tempos, a ponto de jogar aquela partida mesmo com lesão no joelho), cavara em disputa com Dutra. Lula converteu no canto esquerdo, deslocando Dico, que fora para o outro canto.

Ainda no finzinho do primeiro tempo, Lula poderia ter empatado, em cabeceio que forçou uma defesa atrapalhada, em dois tempos, de Dico. Mas no segundo tempo, novo baque psicológico ao Papão, dessa vez por sofrer gol logo aos 2 minutos. Em contra-ataque que pegou os visitantes desprevenidos, Amaral, mesmo de canela, pôs a bola no canto direito, sem chances a Reginaldo. Mais uma vez, o Paysandu buscava de forma desordenada o gol, expondo a defesa. Nisso, dez minutos depois sofreu o 4 a 1, com Mesquita escorando de cabeça cruzamento de Feitosa.

O Paysandu, “sem perder a esportiva” segundo A Província, ainda acertou o travessão de Dico, com Willi. O ponta Patrulheiro também obrigou o goleiro remista a fazer boas defesas em dois chutes fortes de longa distância. Aos 29, porém, a goleada aumentou: Zezinho recebeu bom lançamento de Feitosa e driblou Reginaldo. Fora acompanhado por Humberto, mas notou que o colega estava impedido e preferiu entrar com bola e tudo. Àquela altura, O Liberal conjecturou que o Leão tinha força mental para executar uma goleada muito maior, “talvez até superando aqueles famosos 7 a 0”, em referência ao maior placar da rivalidade, favorável ao rival em 1945. Mas preferiu relaxar e aos 40 minutos, o Papão conseguiu mais um gol de honra.

Dutra recuou mal uma bola e Lula interceptou, só sendo parado ao ser agarrado na área por Dico. Com a mesma categoria do anterior, o próprio Lula converteu o novo pênalti. Ainda assim, o 5 a 2 foi exaltado pelos cartolas em resposta à Federação Paraense, com quem se desentenderam a ponto de terem praticado aquele W.O. no estadual. Com a vitória, o Remo liderou provisoriamente o grupo, que tinha ainda Corinthians, Ponte Preta e Rio Negro. Mais uma vez, o clássico teve peso ao fim da fase: por dois pontos a mais, o Remo conseguiu a última vaga do grupo. Um placar inverso teria dado ela ao rival.

Esse Re-Pa, como os demais, não teve maior notícia na Placar (semanal, na época) lançada após o jogo. A curiosidade é que a revista enalteceu na edição de 10 de setembro a… Tuna Luso, elogiando a notável estrutura tunante como clube social, reconhecidamente superior à dos dois rivais na época e prioridade assumida pelos cartolas: “se a Tuna não entra no Brasileiro, melhor para a Tuna”, diziam.

O que mais era noticiado: o asilo ianque concedido ao célebre desertor soviético Viktor Belenko, que usara seu próprio MiG para fugir ao Japão.

1977

Exatamente um ano depois, novo Re-Pa no Baenão em um feriado de 7 de setembro. Dessa vez, os dois clubes vinham de resultados ruins em seu grupo. Mesmo assim, a renda quebrou o recorde do ano anterior, em 484.548 cruzeiros, no registro d’A Província, que avaliou que o Remo esteve melhor em campo, mas pecando excessivamente nas finalizações. Houve uma preliminar com os times juvenis, cujo 0 a 0 seria repetido pelos principais.

Um primeiro Re-Pa abaixo da crítica, em 1977

Novamente, o goleiro Reginaldo terminou com destaque negativo. A Província noticiou um goleiro que teria atuado de modo nervoso, soltando muitas bolas fáceis, chegando a propiciar um tiro livre indireto no primeiro tempo ao usar a mão fora da área. No segundo, terminou expulso por Agomar Martins ao pisar em Humberto em disputa de bola na qual saíra mal.

O reserva Detinho não comprometeu tanto e os bicolores, mais serenos mesmo com dez em campo, souberam jogar para manter o 0 a 0 fora de casa – Edson Cimento, o goleiro remista premiado naquele torneio com a Bola de Prata, “foi ao campo olhar o jogo”, com o zagueiro adversário Élido sendo descrito como o melhor dos alviazuis (“salvou bolas de cabeça, antecipou-se nas divididas, catimbou o árbitro e até acalmou companheiros”), sabendo anular o artilheiro remista Bira (que, apagado naquele dia, teve o calção até rasgado).

Porém, no jogo seguinte Bira recuperou-se com três gols em um 4 a 0 no Cruzeiro. O Remo venceria as duas partidas seguintes, contra Fast e Nacional, e se classificaria. Já o Paysandu tinha somente mais dois jogos ao invés de três após o Re-Pa. Venceu ambos, sobre o Botafogo de Ribeirão de Sócrates (que, voltando à cidade natal, marcou o gol paulista no 2 a 1) e o América Mineiro, mas o mal início cobrou o preço: faltaram quatro pontos para a classificação.

O que mais era noticiado: de ameaças de explosão de três aviões comerciais alemães pelo Grupo Baader-Meinhof a resenhas de 007 – O Espião que me Amava e seu vilão Jaws.

1978

Em 20 de fevereiro, em jogo ainda válido pelo campeonato brasileiro de 1977, ocorreu o primeiro jogo do Mangueirão – vitória remista de 2 a 0 sobre o Operário de Campo Grande. No mês seguinte, já se desenrolava o campeonato válido por 1978, rendendo o primeiro Re-Pa no novo estádio, em 26 de março. Foi precisamente a estreia da dupla no “Copão” de 1978. O estádio ainda tinha arquibancadas em ferradura, mas sua capacidade muito maior para público praticamente dobrou a renda, em 804.410 cruzeiros, no registro d’A Província – ainda que O Liberal publicasse que a meta esperada era chegar ao milhão. A forte chuva teria sido um empecilho.

Favorito pelo título estadual em 1977 e pela boa campanha no “Copão” anterior, o Remo preparava uma despedida digna a seu treinador, Joubert Meira, contratado pelo Flamengo (para onde levaria o volante Aderson). Contudo, o primeiro clássico no Mangueirão não fez jus à ocasião histórica e foi descrito como fraco das três partes: do Remo, do Paysandu e da arbitragem do amazonense Alexandre Lourenço, que não teve pulso para conter a violência dos dois lados. A chuva também teria atrapalhado um jogo mais técnico, tornando o gramado pesado.

Júlio César “Uri Geller” em lance com Paulo Marabá no violento primeiro Re-Pa do Mangueirão, com anéis superiores ainda ferradura em 1978

A Província e O Liberal foram unânimes nos elogios à boa postura tática do Paysandu contra o favoritismo remista, com os pontas reforçando os laterais na marcação e inclusive com o goleiro Reginaldo recuperando o nome: foi avaliado como o destaque da partida pela Província (em especial em cabeceio de Bira espalmado “como um raio”, logo no início do jogo, em bola cruzada por Júlio César “Uri Geller”) e recebeu nota 10 por O Liberal ao salvar o time sempre quando exigido. Mesmo quando foi vencido, o colega Zuza, estreante no Re-Pa, impediu em cima da linha um gol de Leônidas.

O empate não fez maior diferença adiante entre os doze times do Grupo F. O Remo, em 3º, avançaria independentemente do ponto, assim como o Paysandu, em 9º, não iria adiante mesmo se vencesse. No ano seguinte, o clássico não apareceu no Copão (com a Tuna participando pela primeira vez, no lugar do Papão), sendo destaque nacional pelo estadual mesmo, com a contratação de Dadá Maravilha pelo Paysandu na metade do certame. Dario e Bira estimularam um ao outro na briga pela artilharia, com os 32 gols do azulino ainda configurando um recorde individual. Viraram amigos e Dario recomendou Bira ao Internacional, onde o amapaense integraria os campeões brasileiros invictos de 1979. O Remo, por outro lado, iniciaria uma década perdida nos anos 80. Após anos seguidos de Re-Pa no “Copão”, o clássico só seria realizado na elite dali a sete anos.

O que mais era noticiado: os primeiros dias do sequestro do político italiano Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas. Seria executado cerca de dois meses depois.

1985

Pela primeira vez, o campeonato teve dois clássicos Re-Pa em uma mesma edição, realizada no primeiro semestre. O regulamento tinha similaridades ao de 1973: duas fases de grupos, com a pontuação acumulada definindo a classificação a uma terceira fase. Dessa vez, porém, os líderes de cada uma das duas fases necessariamente teriam vaga garantida à terceira. Remo e Paysandu ficaram no Grupo C, um virtual Norte-Nordeste com Sport, Mixto, Botafogo da Paraíba, CSA, Ceará, Nacional de Manaus, Flamengo do Piauí, ABC, Sampaio Corrêa e Sergipe.

Chico Spina salta: dele foi o gol da primeira vitória do Papão no clássico pelo Brasileirão, em fevereiro de 1985. Teve até taça!

O Remo não era campeão estadual desde 1979 e só voltaria a sê-lo em 1986; dominante no Estado nesse ínterim, revelando inclusive o lateral Aldo (irmão de Bira) para o Fluminense tri estadual e campeão nacional de 1984, o Paysandu logo apresentaria outro nome destacado nos gramados cariocas – Charles Guerreiro, ainda volante. O ídolo, porém, era o veterano matador Chico Spina, homem dos gols do título colorado invicto de 1979. A ponto de o próprio dirigente azulino Manoel Ribeiro ver na derrota magra de 1 a 0 em 24 de fevereiro um desempenho promissor para a reconstrução da imagem remista, segundo A Província.

Spina, porém, quase não jogou naquele 24 de fevereiro. Estava em desacordo com os dirigentes quanto a luvas devidas, chegando a voltar a seu Estado. Regressou a Belém na véspera. Já no dia do jogo, a polêmica foi generalizada, com severas críticas às federação então presidida pelo Coronel Nunes e até mesmo aos arquitetos do Mangueirão. O Diário do Pará (criado em 1982) noticiou que, enfurecidos com a lentidão das bilheterias disponíveis (metade das construídas), muitos torcedores pularam o muro ou arrombaram portões para presenciar o clássico, estimando-se que 30% do público entrou desse jeito.

“Quero ver quem vai se responsabilizar pelo prejuízo dos clubes. Este é o único estádio no mundo onde, para entrar, a gente dá volta em torno dele e retorna de novo”, bradou o cartola azulino João Braga Farias Júnior no registro do Diário. Em campo, o tabu de jamais ter perdido para o Papão em jogos válidos pelo certame nacional ruiu aos 20 minutos do segundo tempo, com um só toque de Chico Spina pegando livre bola vinda de Marcos Nogueira à meia altura pela direita frente ao goleiro Bracalli, que não teve chances. Os dois já haviam se duelado cara a cara na primeira etapa, com Spina perdendo a melhor chance de um primeiro tempo ainda equilibrado na maior parte, embora melhor aos alviazuis.

Mas segundo O Liberal o “dono do espetáculo” foi Charles Guerreiro: “mesmo sem a grande aplicação de outras partidas”, levou nota 10 por trabalhar “com muita segurança, dando tranquilidade ao meio de campo”. Já o Remo, com os dinossauros Bira e Mesquita, foi inoperante no ataque, mesmo contando com seu artilheiro máximo, Dadinho.

Comemoração na segunda vitória bicolor, o 3 a 0 de abril de 1985

Adiante, o Paysandu terminou em 6º e o Remo, na lanterna do grupo. Em meio à segunda fase, o desempenho azulino teve melhora apenas ligeira, em 8º na chave de doze times. O Paysandu subiu para 5º. O grande orgulho do futebol paraense era a Tuna Luso, que em 4 de abril garantiu o título da segunda divisão, a primeira conquista nacional do Estado. Três dias depois, ainda sob essa repercussão (pois ainda faltava a entrega da taça), ocorreu o Re-Pa pela segunda fase. Após um primeiro tempo descrito como “medíocre” por O Liberal, o segundo viu um Paysandu dominador.

O placar foi aberto aos 10 minutos da segunda etapa, com Chico Spina aproveitando de cabeça cruzamento pela direita sem que os adversários saltassem para acompanhar, nem o goleiro Jurandir contra uma bola defensável; até lá, o artilheiro não havia aparecido na partida, ressaltou o mesmo jornal, a lhe dar somente nota 7 enquanto Charles Guerreiro novamente recebeu um 10. Perdido na marcação, o Remo sofreu o segundo aos 19, em golaço de Marcos Nogueira. Mesmo com falhas da defesa, meio-campo sem criação e ataque inoperante, O Liberal registrou que o Remo teve um pênalti para si não assinalado aos 37 minutos, sofrido por Dadinho. Aos 41 minutos, veio o 3 a 0: Charles invadiu pela direita, livrou-se de Procópio e cruzou para novo gol de Chico Spina, que tocou na saída de Jurandir. Ao fim, a torcida bicolor se permitiu a gritar olé. Mas, adiante, faltaria um ponto para o clube se classificar à terceira fase

O que mais era noticiado: entre um jogo e outro, em fevereiro o Diário do Pará afirmou categoricamente que o governador paraense Jader Barbalho teria “tudo definido” para indicar um nome para o Ministério dos Assuntos Fundiários, após reunião em Brasília com Tancredo Neves. Já no início de abril as manchetes se direcionavam ao estado crítico de Tancredo. No mesmo 7 de abril, Alain Prost venceu o GP do Brasil, ainda em Jacarepaguá.

1993

Se antes da Copa União em 1987 a classificação ao Brasileirão dependia do desempenho no Estadual, para 1988 foi estabelecida uma primeira divisão com os times do Módulo Verde de 1987 e os sete primeiros do Amarelo, além do America do Rio. Restou ao futebol paraense recomeçar nas divisões inferiores. Após passar até pela terceira divisão em 1990, o Paysandu obteve o título da Série B em 1991, ano em que o Grêmio foi rebaixado da elite. Para 1992, a CBF definiu o acesso de doze participantes da Série B que receberia os gaúchos. O Remo sucumbiria na terceira fase de grupos, mas já tinha acesso garantido àquela altura.

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Assim, o Clássico-Rei da Amazônia foi reeditado na elite nacional após oito anos. O Remo vinha embalado pelo seu título estadual naquele ano, em que se iniciaria um tabu ainda maior que o dos anos 70. Buscando causar boa impressão, reforçou o elenco com empréstimos de gente renomada, casos do lateral Edson Boaro (ex-Paysandu campeão estadual de 1992 e da seleção brasileira na Copa de 1986), do ponta Mauricinho e com um pacote de jogadores da Tuna, que em 1992 havia vencido a terceira divisão.

A estreia da dupla seria justamente pelo Re-Pa, que voltou a ocorrer em um 7 de setembro, em tempos em que Brasil x Venezuela ainda rendia cornetas no sentido de que “a torcida que lotou o Mineirão esperava um verdadeiro massacre, mas teve que se contentar com um 4 a 0”, como estampado na véspera pelo Diário do Pará – cuja capa do dia 6 registrou, além do 5 a 0 da Colômbia sobre a Argentina, também que o treino do Paysandu foi finalizado com tiroteio: assaltantes em fuga invadiram a Curuzu, com os jogadores se jogando na grama para não serem atingidos. O quão isso influenciou na partida jamais se saberá.

O Liberal do dia 8, além de registrar na capa a imagem que abre a matéria entre o remista Edson Boaro e o bicolor Carlinhos (e a reconvocação de Romário), publicou que a partida “deixou muito a desejar”, com marcação exagerada no meio-campo prejudicando o ataque de ambos, rendendo poucas emoções. O Remo abriu o marcador aos 21 minutos, com Edson Boaro cruzando para a grande área. Na disputa aérea, Ageu “Sabiá” (um dos tunantes emprestados, após ter sido artilheiro do estadual de 1993) levou a melhor sobre Eduardo, com seu cabeceio encobrindo o goleiro bicolor Paulo Vítor – outro ex-membro da seleção na Copa de 1986.

Agnaldo, o “Seu Boneco”, divide com Carlinhos no Re-Pa de setembro de 1993

Ainda no primeiro tempo, o Paysandu teve Válber expulso pelo segundo cartão. Apesar de jogar com dez, pôde levar perigo à defesa azulina e empatou aos dois minutos do segundo tempo. A defesa bicolor passou a bola a Jorginho (aquele que treinaria a “Barcelusa”), descrito como o melhor alviazul em campo. Ele lançou bola longa na medida para Marcos Roberto, que invadiu a área rival, esburacada com um avanço de Belterra, e tocou na saída do goleiro Luís Carlos. A dez minutos do fim, Edson Ferreira cobrou escanteio para o Remo. Mário César, mesmo marcado por Pedrinho, cabeceou com sucesso para dar a vitória ao Leão.

O clássico se repetiu pela oitava rodada. Até ali, o Paysandu se recuperou com vitórias fora de casa sobre Santa Cruz e Fortaleza, além de bater em casa o Vitória, posteriormente finalista do Brasileirão. Mas a campanha azulina era ainda melhor, com outras quatro vitórias, a última delas sendo um 6-0 no Fortaleza. Os jornais de 7 outubro de 1993 destacavam, além do anúncio da aposentadoria de Michael Jordan no basquete, o desenrolar de tentativa de golpe de Estado na Rússia, as últimas exibições de Cães de Aluguel e o crescente cerco colombiano a Pablo Escobar, que o Re-Pa ocorrido na véspera fora novamente um “clássico ruim”. Mais: uma partida “deplorável”, na crítica de O Liberal.

O primeiro tempo teria sido melhor ao Paysandu, que tocava bola “com mais consciência, porém sem qualquer criatividade”. Dominou os 30 minutos iniciais, com Jorginho aparecendo como “termômetro do jogo” para O Liberal, mas sem maior ousadia no ataque a não ser um pênalti não assinalado de Mário César em Manoel Ferreira. Terminou punido: em seu primeiro ataque mais perigoso, o Remo abriu o placar. Segundo o mesmo jornal, aos 37 minutos, Alex Dias (na época, ainda somente Alex) tocou a bola a Marcelo, que foi à linha de fundo e cruzou – já para o Diário do Pará, quem cruzou foi o próprio Alex. De um modo ou outro, a bola chegou quase embaixo do gol a Giovanni, que cabeceou forte para sacudir a rede. O futuro “Messias” era outro tunante emprestado e marcava pelo terceiro jogo seguido pelo Remo.

Apesar do gol, o Remo não cresceu em campo. Ainda no primeiro tempo, já no minuto 45, o árbitro, compensando a ausência de um pênalti no início, assinalou um inexistente ao Paysandu, em lance envolvendo o remista Júnior e o alviazul Marcelo Soares. Marcos Roberto, que havia marcado no Re-Pa anterior, converteu. Já o segundo tempo foi “ainda pior”, com o Papão parado e o Leão atrapalhado no excesso de individualismos, com Ageu sem dizer “o que foi fazer em campo” e Mauricinho “muito aquém da sua forma física”, em outras palavras de O Liberal, que apontou somente dois lances dignos de nota: a expulsão conjunta de Mário César e Marcelo Soares após uma briga e outro pênalti não assinalado ao Papão, quando Oberdan foi derrubado na grande área ao tentar jogada individual.

No decorrer do returno, Remo e Paysandu disputaram palmo a palmo a segunda vaga do grupo liderado pelo Vitória. Deu Leão nos critérios de desempate, após vencer por 3-1 o Santa Cruz (três gols de Mauricinho) enquanto o rival perdia para os baianos em Salvador por 5 a 2. Até lá, Giovanni decresceu de produção e passou a ser criticadíssimo em meio à melhor campanha de um clube paraense no Brasileirão, o oitavo lugar, manchado na época por uma goleada de 8 a 2 para o Guarani (partida em que ele, ironicamente, marcou, empatando provisoriamente em 1 a 1). A despeito da boa campanha conjunta da dupla, somente 15 mil pessoas pagaram ingresso para ver o Re-Pa de 25 anos atrás – e duas delas terminaram baleadas, segundo rodapé d’A Província.

Em 1994, embora Remo e Paysandu tenham figurado na elite, estiveram em grupos separados e não se enfrentaram; o Leão caiu para não voltar mais e o Papão seguiu-o em 1995. Entre 1996 e 1999, nenhuma Série B viu os dois chegarem ao quadrangular final que normalmente a decidia. Na Copa João Havelange, foi diferente: a dupla chegou às semifinais, mas uma inédita final nacional em Re-Pa foi inviabilizada, com a queda ante Paraná e São Caetano – restaram as duas partidas pelo terceiro lugar (Remo 3 a 2 e 1 a 1), que oferecia a vaga final aos mata-matas gerais. Apesar de ir mais longe, o Remo não foi mantido para a Série A em 2001, quando brigou para não cair na Série B, vencida pelo rival.

O ano de 2004 foi o que mais esteve perto de contar novamente com um Re-Pa na elite: no ano anterior, o Papão, mesmo punido pelo STJD, salvara-se do rebaixamento, enquanto o Leão teria subido se o regulamento da Série B fosse o atual – ficou em terceiro na primeira fase, abaixo somente da dupla Palmeiras e Botafogo, mas sucumbiu no quadrangular-semifinal com os cariocas, o Náutico e o líder Marília. Azulinos e bicolores se reencontraram na segundona em 2006, ambos brigando para não cair, pior para Paysandu. O Remo caiu em 2007 e novamente em 2008, o único ano que teve ambos na terceira divisão – em grupos diferentes, não se enfrentaram. A história pode ser tristemente diferente para 2019, com o primeiro Re-Pa da terceirona estando visível ante a situação periclitante dos alviazuis na Série B.

Giovanni pelo Remo no último Re-Pa da elite nacional: o “Messias” marcou nesse jogo, mas não teve êxito no clube e passaria pelo próprio Paysandu no início de 1994. Também não vingou, mas surrealmente dali a três anos já brilhava nos clássicos espanhóis com o Barcelona…


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