Nos 15 anos do título, 15 fatos marcantes do Barcelona campeão espanhol de 2004/05

Um gigante adormecido. Ou quase. O Barcelona que encantara com Johan Cruyff e conseguiu continuar vencendo com Louis van Gaal mais uma vez apostava em um holandês para despertar. A virada do século fora cruel aos catalães, com problemas financeiros e uma incômoda distância da parte de cima da tabela. Uma nova diretoria com novas ideias ajudaria a resgatá-los, mas, especialmente, jogadores como Ronaldinho Gaúcho, Deco e Eto’o fariam o Barça dar o salto, com o seu primeiro título espanhol no século e preparando as bases para a Champions League da temporada seguinte. No dia em que o título espanhol azul-grená de 2004/05 completa 15 anos, separamos 15 fatos marcantes para homenageá-lo.

Reformulação

O Barcelona terminou a temporada 2002/03 no seu pior momento neste século. Havia sido sexto colocado em La Liga, sua pior posição desde 1987/88, depois de dois quartos lugares consecutivos, e as finanças estavam de cabeça para baixo. Joan Laporta foi eleito naquele ano para colocar a casa em ordem. Entre seus executivos, estava o vice-presidente financeiro Ferran Sorriano, que relatou as decisões tomadas no livro A Bola Não Entra Por Acaso e atualmente trabalha no Manchester City. Além de ampliar os recursos, era urgente aplicá-los melhor. Antes da campanha campeã espanhola, houve uma profunda reformulação no elenco. O núcleo holandês foi desfeito, com as saídas de Philip Cocu e Patrick Kluivert e a aposentadoria de Marc Overmars. Luis Enrique também pendurou as chuteiras, e Luis García foi vendido ao Liverpool. As chegadas começaram a formar a espinha dorsal do Barcelona de Frank Rijkaard, já com altos investimentos para a época. A maior contratação daquela janela na Espanha foi Samuel Eto’o, trazido do Mallorca por € 27 milhões. Mais € 21 milhões foram desembolsados em Deco, do Porto. Ludovic Giuly e Edmilson desembarcaram da França, e a colônia brasileira cresceu com Belletti e Sylvinho. O veterano Henrik Larsson reforçou o ataque. Eles se juntaram a Ronaldinho Gaúcho, Rafa Márquez e Giovanni Van Bronckhorst, contratados no mercado anterior, e à turma de La Masia.

As mágicas de Ronaldinho

Os números não foram absurdos. Nove gols e nove assistências. Mas era o Ronaldinho Gaúcho no auge da sua forma, especialmente no quesito imprevisibilidade. Era capaz de dribles que os marcadores nem sabiam que existia. Bem fisicamente, ninguém conseguia pará-lo quando arrancava. Dava passes de peito e de calcanhar, rolinhos para lá e para cá, e não cansava de deixar os companheiros na cara do gol. Algumas das assistências nessa campanha foram maravilhosas, assim como alguns de seus tentos. As imagens são daquelas que nos deixam triste pelo seu ápice ter sido tão curto.

Estreia de Messi

Messi fez sua primeira partida pelo Barcelona em um amistoso contra o Porto, mas sua estreia oficial foi na sétima rodada da temporada 2004/05 de La Liga. Aos 37 minutos do segundo tempo, entrou na vaga de Deco no clássico contra o Espanyol. Faria sete jogos naquela campanha, mais dois por Champions League e Copa do Rei. Seu primeiro gol vestido de azul-grená também faz parte desta história. Precisou de apenas três minutos em campo contra o Albacete na 34ª rodada para completar a assistência de Ronaldinho com um toque por cima do goleiro Mark González, apenas a primeira das centenas de pinturas que assinaria pelo Barça.

Explosão de Eto’o

Quando chegou à base do Real Madrid, garoto de tudo, Eto’o vislumbrava aprender, se desenvolver e alguma hora conseguir jogar no mais alto nível da Espanha, com a camisa de um dos gigantes do país. Não teve espaço no Santiago Bernabéu, ofuscado pela política de galácticos, e os primeiros anos de sua carreira foram preenchidos por uma sequência de empréstimos. Em um deles, ao Mallorca, firmou-se como um eficiente artilheiro, com apreço especial por marcar contra os merengues, talvez impulsionado pela vontade de provar um ponto. A sua hora no primeiro patamar de La Liga chegaria, mas pelo Barcelona. Foi a contratação mais cara daquele mercado dos catalães, negociação difícil que também envolveu Florentino Pérez porque o Real Madrid detinha 50% dos seus direitos e a preferência de igualar propostas.

Todo o esforço se pagou imediatamente, com cinco gols nas cinco primeiras rodadas, dando o tom do que seria a temporada de afirmação do camaronês como um dos grandes atacantes do mundo. Ele terminaria o campeonato com 24 tentos e estava naquela fase iluminada quando o centroavante marca de todas as maneiras. Com um único toque na bola, pegando a sobra do bate e rebate, em jogadas individuais e até dando chapéu no goleiro, como contra o Mallorca e o Zaragoza. E claro que o Real Madrid voltou a ser vítima. Eto’o acrescentou mais dois tentos ao seu retrospecto contra o grande rival do Barcelona, um na vitória por 3 a 0 no primeiro turno e outro na derrota por 4 a 2 no returno.

Deco letal de fora da área

Deco foi a segunda contratação mais cara do Barcelona naquela janela e chegou com o status de campeão europeu pelo Porto. Acabou sendo o líder do meio-campo catalão em um momento no qual Xavi ainda não era tudo que poderia ser e o jovem Iniesta jogava mais no ataque. E uma marca do luso-brasileiro naquela campanha foi a precisão dos chutes de fora da área. Fez sete gols dessa maneira e contou um bocado com a sorte também porque três deles contaram com desvios providenciais. Também contribuiria com 11 assistências.

Vitória crucial no Superclássico

Não foi uma temporada fácil para o Real Madrid. O projeto galáctico seguiu com a chegada de Michael Owen, para uma posição que estava bem resolvida por Raúl e Ronaldo, e foi difícil acertar o técnico. José Antonio Camacho retornou para uma segunda passagem pelo Bernabéu e renunciou porque não acreditava que conseguiria fazer o time melhorar. Em setembro. Seu assistente Mariano García Remón tocou o barco até o fim do ano quando chegou Vanderlei Luxemburgo. Apesar dos problemas, conseguiu acompanhar o Barcelona no primeiro terço do campeonato e chegou ao Superclássico, na 12ª rodada, apenas quatro pontos atrás. Se ganhasse no Camp Nou, a briga ficaria completamente aberta. Eto’o, porém, bateu a carteira de Roberto Carlos e Casillas para abrir o placar. Van Bronckhorst ampliou, e Ronaldinho fechou o caixão, de pênalti. O Real Madrid voltaria a ameaçar o Barça na virada do ano, e chegou a restaurar a diferença de quatro pontos, mas três derrotas e um empate, em cinco rodadas entre o fim de fevereiro e início de março, foram fatais.

Apenas uma derrota no Camp Nou

A fortaleza do Camp Nou foi fundamental para o título do Barcelona. Das quatro derrotas naquela campanha, apenas uma foi em seu estádio, no começo de fevereiro, contra o Atlético de Madrid, por 2 a 0. O Barça ganhou 10 das 11 primeiras partidas como mandante, incluindo uma sequência de sete vitórias consecutivas no início do campeonato, arrancada que acabou se provando essencial. Se foi campeão, foi também por ter sido implacável com as suas visitas.

32 rodadas seguidas na liderança

Desde a virada do século, o Real Madrid brilhava com os Galácticos, o Valencia havia sido duas vezes campeão e o Deportivo La Coruña se firmara nas primeiras posições, com um título, dois vices e dois terceiros lugares. O Barcelona daquela temporada superou todos eles com autoridade, não apenas conquistando o título, como também enviando uma mensagem com o que pretendia fazer nos próximos anos. Dominou o campeonato, líder em 34 das 38 rodadas, incluindo as últimas 32. Foi um pouco ameaçado na 22ª jornada, quando o Real Madrid ficou a apenas quatro pontos, mas, na 28ª, estava 11 à frente. Com vantagem no confronto direto, assegurou o caneco na antepenúltima partida, ao empatar com o Levante.

Supremacia nos números

Primeiro, temos que contextualizar. As boas campanhas de 15 ou 20 anos atrás se parecem pouco com as de hoje em dia, época dos super-times, quando se tornou comum ver campeões, ou até vices, com mais de 90 pontos e 100 gols nas grandes ligas eurpeias. Acontecia, mas com menos frequência. Além disso, cada campeonato tem sua lógica própria, e aquela edição de La Liga não teve números exuberantes. Dentro desses padrões, o Barcelona passeou, com o melhor ataque e a melhor defesa. Os 73 gols marcados não chamam tanta atenção porque foram quase sempre superados pelos times de Cruyff e Van Gaal. Por outro lado, os 29 sofridos representaram a melhor marca defensiva desde 1988/89.

La Masia fazendo justiça à fama

A reputação La Masia, nome da academia que forma jogadores para o Barcelona, foi abalada por algumas safras muito abaixo da qualidade que lhe valeu uma fama que não era totalmente injustificada porque aquele time do Barcelona tinha um maravilhoso elenco de apoio formado em casa para auxiliar as estrelas internacionais e que, anos depois, com Pep Guardiola, seriam os líderes incontestáveis do time. Puyol, Valdés e Xavi eram nomes mais consolidados, enquanto Iniesta e Messi davam seus primeiros passos. A turma ainda tinha alguns nomes menos glamorosos que deram sua contribuição, como Oleguer e Gerard López.

O fim do jejum

Jejum é um termo relativo quando estamos tratando de um gigante como o Barcelona. O período sem títulos no começo do século não foi um dos maiores da sua história, nem comparável aos anos sessenta e setenta, mas cinco anos de seca eram significativos para o clube refundado por Johan Cruyff, principalmente porque a cada um deles o time parecia definhar um pouco mais. O primeiro ano do projeto de Laporta, comandado em campo por Frank Rijkaard, havia dado sinais de recuperação, com um segundo lugar e um já espetacular Ronaldinho Gaúcho. Não fora suficiente. Era necessária uma reforma mais profunda nas fundações. Com novos reforços e mais tempo de trabalho, o Barcelona decolou e aproveitou também uma temporada conturbada no Santiago Bernanbéu, com três técnicos diferentes, para conquistar seu primeiro título de La Liga desde 1998/99.

Xavi mostra suas credenciais

Xavi sempre foi um jogador talentoso, do qual muito se esperava, mas não se tornou, sem contestações, um dos melhores do mundo até a chegada de Guardiola. Não era incomum que atuasse como o jogador mais recuado do meio-campo. Seu futebol melhorou com Frank Rijkaard, o primeiro a lhe dar mais de 3 mil minutos em campo no Campeonato Espanhol. Fez três gols naquela campanha, inclusive um balaço de fora da área contra o Zaragoza, e deu 11 assistências.

O primeiro título de Rijkaard (e um dos únicos)

Rijkaard tinha naturalmente o DNA do futebol holandês e havia sido treinado por Arrigo Sachi no Milan. Nenhum problema com as referências. Era, porém, inexperiente e seus dois únicos trabalhos como treinador passavam sinais conflitantes. O primeiro, no comando da seleção holandesa, promovido após ser assistente de Guus Hiddink, foi bom. O segundo, no comando do Sparta Roterdã, terminou em rebaixamento na Eredivisie. O Barcelona acreditou em suas habilidades e colheu os frutos, por mais que Rijkaard não tenha conseguido emplacar como um grande treinador em nenhum outro lugar. Aquele título de La Liga foi o primeiro de sua carreira e um dos únicos. Defenderia o Campeonato Espanhol e conquistaria a Champions League na temporada seguinte, com um par de Supercopas. E para por aí.

Preparando-se para ser campeão europeu

O Dream Team de Cruyff havia sido o último Barcelona campeão europeu, em 1992, e para piorar a situação, o Real Madrid encerrara um longo jejum com os troféus de 1998, 2000 e 2002. Voltar às cabeças parecia um sonho distante, mas até que foi bem rápido. E a base do time que derrotaria o Arsenal em Paris estava toda no Camp Nou naquela temporada, em que as viagens continentais pararam em um excelente duelo contra o Chelsea. A única adição mais importante foi Van Bommel. Ah, e Messi, promovido de vez ao time principal.

A rapa nos prêmios

No meio da campanha, Ronaldinho Gaúcho exibiu à torcida do Barcelona o prêmio de Melhor Jogador do Mundo que havia recebido naquele ano de 2004. No entanto, a Bola de Ouro fora dada a Andriy Shevchenko. Principalmente pelas atuações no título de La Liga, o brasileiro não teve adversários em 2005 e unificou as honrarias individuais. E o Barça teve um lugar de destaque especialmente na cerimônia da Fifa, com mais dois representantes. Samuel Eto’o fechou o pódio, atrás de Frank Lampard, e Deco ficou em 15º lugar.

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