Nem quando esperava a fumaça branca sair das chaminés da Capela Sistina ou as cortinas da Basílica de São Pedro se abrirem para ser apresentado ao mundo, Jorge Mario Bergoglio não havia ficado tão tenso. Talvez ele tenha desejado não ser o Sumo Pontífice, o chefe de estado do Vaticano, o sucessor de Pedro na última noite. Queria ser mais um cuervo nas arquibancadas do Nuevo Gasómetro, quando o San Lorenzo finalmente poderia conquistar o seu grande sonho: a Copa Libertadores. Porém, durante a final, o torcedor tinha suas obrigações como Papa Francisco. E não pôde se dar ao luxo nem mesmo de ver a consagração de seu Ciclón.

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A agenda papal indicava a viagem de Francisco à Coreia do Sul, em nobre visita pela reconciliação com os irmãos do Norte. “Mas bem na hora do jogo?”, certamente refletiu, em seu íntimo. Afinal, Jorgito cresceu frequentando o velho Gasómetro. Viu seu pai defender o azul e o grená do basquete do clube. Encantara-se pelo esquadrão cuervo ainda em 1946, aos 10 anos de idade, quando o clube conquistou seu terceiro título argentino na era profissional. Quando sequer existia a Libertadores para desejar, um tesouro que tenta os torcedores do San Lorenzo desde 1960, a primeira edição do torneio.

Bergoglio tinha 24 anos quando o Ciclón teve sua primeira grande chance de conquistar as Américas. Já tinha decidido se tornar sacerdote naquela época, entrando para o seminário jesuíta da Villa Devoto. Naquele mesmo ano, se graduou em filosofia na Universidade Católica de Buenos Aires. E certamente deve recorrido aos grandes pensadores para tentar compreender onde os dirigentes do San Lorenzo estavam com a cabeça, ao negociarem o mando de campo do jogo-desempate contra o Peñarol. Depois dos empates na ida e na volta, os cuervos aceitaram disputar a terceira partida da semifinal no Estádio Centenário, em troca da renda das bilheterias. Os uruguaios venceram e, dias depois, se sagraram os primeiros campeões. As contas do rosário e os gols de Sanfilippo não foram suficientes.

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Enquanto complementava sua formação espiritual, Bergoglio viu o San Lorenzo atravessar o seu calvário na Libertadores. O clube chegou às semifinais outras duas vezes, em 1973 e 1980, antes mesmo do futuro Papa se tornar bispo. Justo no ano em que foi nomeado cardeal, o Ciclón conquistou o seu primeiro título continental, a Copa Mercosul de 2001, emendando com a taça da primeira edição da Copa Sulamericana na temporada seguinte. Ainda assim, não era o topo. O sacerdote continuava envolvido com o dia a dia dos cuervos, virando sócio honorário e rezando a missa do centenário. Para que a principal prece dos torcedores fosse atendida.

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Francisco sabe que não foi sua chegada ao Vaticano que fez o San Lorenzo reviver seus momentos mais gloriosos, primeiro com a conquista do Torneio Inicial de 2013. O sucesso do time faz parte de um trabalho de gestão profissional, da chegada de um ótimo técnico como Edgardo Bauza, da montagem de um elenco com contratações precisas no mercado. Mesmo assim, oração nunca é demais. Já tinha se apegado à reza nos milagres contra Botafogo, Grêmio e Cruzeiro, na goleada sobre o Bolívar. Faria o mesmo no jogo de volta contra o Nacional, por mais que não pudesse acompanhar nem mesmo pela televisão.

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Quando a bola começou a rolar no Nuevo Gasómetro, o Papa estava voando rumo à Coreia do Sul. Era informado em tempo real sobre o que acontecia na decisão. Levantou as mãos para os céus quando o chute dos paraguaios explodiu na trave de Torrico. E se sentiu realmente nas nuvens quando Néstor Ortigoza marcou o gol decisivo. Se a tensão é grande apenas de ver o que acontece em campo, imagine quando é preciso esperar pelas notícias? As contas do terço rodaram mais rápido pelas mãos do velho Jorgito, os cintos de sua poltrona mais apertados. Seu santo padroeiro era Lorenzo Massa, o padre que ajudou a fundar o Ciclón.

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Quando Francisco pisou em terra firme, o segundo tempo da decisão já tinha começado. Cumprimentou o presidente da Coreia do Sul com as mãos mais suadas do que de costume. E não deixou de pensar no que Villalba, Piatti, Mercier e seus companheiros faziam em campo. No momento em que soube que o título finalmente tinha vindo, que Romagnoli levantaria a taça, o Papa sorriu e festejou. A alegria mundana do futebol, estampada no rosto daquele que é chamado de representante de Deus na Terra.

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O San Lorenzo não perderá a oportunidade de pagar a promessa para agradecer seu torcedor mais ilustre. Levará a Libertadores ao Vaticano, para que os jogadores sejam recebidos por Francisco. O pontífice fará uma enorme festa para receber aqueles que também foram seus heróis. Mas tendo a certeza de que gostaria de estar com eles antes. Quem sabe, até pulando nos alambrados do Nuevo Gasómetro, para celebrar o milagre pelo qual aguardou por décadas.