Ninguém pode falar com mais propriedade sobre o Independiente do que Ricardo Bochini. O meia de talento sublime, ídolo de Diego Maradona em sua juventude, epitomiza o período mais glorioso do Rojo. Protagonizou as maiores façanhas, presente na conquista de quatro Libertadores e dois Mundiais. Representou o que de mais refinado havia no mundo do futebol, com seus passes cirúrgicos e seus lances impressionantes. E para o deus do lado vermelho de Avellaneda, não há dúvidas sobre qual foi o maior feito de sua carreira: o título do Nacional de 1977, a mais épica de tantas epopeias vividas e desfrutadas.

“Esta foi a maior façanha da história do Independiente. Maior que o primeiro título Mundial, contra a Juventus. Não há comparação. O jogo de Córdoba foi dramático e conseguimos algo impensado, por tudo o que havia ocorrido. O país estava contra a gente, tínhamos três homens a menos, perdíamos por 2 a 1 fora de casa e o tempo era escasso para revertermos. Esse confronto é recordado não apenas pela torcida do Independiente, mas por todo o mundo do futebol”, declarou Bochini, ao Clarín, em setembro de 2013. “Por tudo o que significou, não há outra partida mais importante na história do futebol argentino. Não vou me esquecer nunca mais desse jogo, me lembro exatamente de tudo”, complementou ao La Nación. Noite imensurável que completou 40 anos nesta quinta.

Naquele momento, o Campeonato Argentino representava uma certa lacuna ao Independiente e a Bochini. O jovem craque ainda não havia conquistado o título nacional. Chegou ao clube em 1971, mas se juntou inicialmente às categorias de base, vendo os profissionais celebrarem a taça. A partir do ano seguinte, quando se elevou ao elenco principal, Bocha compartilhou o jejum do Rojo na liga, enquanto ajudava a sacramentar o apelido do Rey de Copas. O garoto participaria de três das quatro conquistas consecutivas da Libertadores, logo virando um dos destaques da equipe. E a partir da segunda metade dos anos 1970, tornaria-se ele uma das referências durante o processo de renovação empreendido em La Doble Visera.

Assim, depois de campanhas mais modestas, o Independiente voltou a rondar o troféu do Campeonato Argentino em 1977. Em uma época na qual o torneio era dividido em duas disputas distintas por ano, o Rojo terminou com o vice no Metropolitano, que envolvia os clubes da Grande Buenos Aires, além de outras províncias próximas. Por dois pontos, a consagração seria do River Plate. No entanto, os comandados por José Omar Pastoriza – lenda do clube como jogador e que iniciava sua carreira como treinador, ao pendurar as chuteiras no Monaco – se manteriam fortes rumo ao Nacional, que juntava os melhores times do Metropolitano aos representantes do interior da Argentina.

O Independiente fez campanha dominante na fase de classificação do Nacional. Terminou na liderança de seu grupo e assegurou a classificação às semifinais, juntamente com os outros três campeões de chaves. O primeiro desafio foi o Estudiantes e, depois do empate por 1 a 1 em La Plata, o Rojo buscou a classificação na prorrogação, vencendo por 3 a 1 na Doble Visera. Já na decisão, o oponente seria o Talleres. A equipe mais forte do interior vinha com uma campanha louvável, ao desbancar Racing e River Plate em sua chave, antes de eliminar o Newell’s Old Boys nas semifinais. Teria a vantagem de fazer o segundo jogo em casa, na pulsante La Boutique.

E o momento era favorável ao Talleres de diferentes maneiras. La T tinha a chance de uma conquista nacional inédita. Contava com uma equipe bastante qualificada, não só para os padrões do interior, mas também se comparada com os adversários do Metropolitano. Vários jogadores de relevo figuravam no time treinado por Roberto Marcos Saporiti, auxiliar de César Luis Menotti na seleção argentina. Não à toa, três deles fizeram parte da Albiceleste que faturou a Copa do Mundo de 1978: Luis Galván, Miguel Oviedo e José Daniel Valencia. Existia mesmo uma comoção nacional ao redor dos pequeninos, diante da possibilidade de se eternizarem com aquela taça – até porque, convenhamos, o tetracampeão da Libertadores sustentava sua antipatia. Mas também um contexto nebuloso por trás.

Em anos sangrentos da ditadura argentina, o Talleres estava emaranhado com o centro do poder. Ex-interventor federal da província de Córdoba (uma espécie de governador imposto) e comandante do III Corpo de Infantaria, liderando assim o temível centro de detenção clandestino de La Perla, Luciano Benjamín Menéndez era um general pertencente ao braço mais repressor e violento do regime militar. “El Cachorro” seria indultado por Carlos Menem em 1990, mas esta liberdade foi considerada inconstitucional em 2005 e ele foi acabou vinculado a pelo menos 139 crimes de lesa humanidade. Por isso, recebeu 12 condenações à prisão perpétua. Naqueles tempos, porém, ainda gozava do poder e, próximo a Amadeo Nuccetelli, presidente do clube, esperava que a conquista de La T pudesse alavancar o seu nome ao centro do poder na Argentina. Ambição compartilhada também por outros dirigentes envolvidos naquela final.

Apesar do contexto tenebroso, o duelo entre Independiente e Talleres na final parecia submetido à competência esportiva. No primeiro encontro, realizado em Avellaneda, as duas equipes terminaram em igualdade: empate por 1 a 1, em que ambos os gols saíram em pênaltis duvidosos, mas mantiveram o equilíbrio. Assim, o reencontro aconteceria em um ambiente fervilhante em Córdoba, diante da história que La T poderia concretizar. A empolgação podia ser sentida na atmosfera da cidade, que se coloriu para apoiar o seu time, mas nada que desse margem à desconfiança de algum benefício aos anfitriões.

“Estava tudo preparado para que se comemorasse o título do Talleres. As rádios, a televisão, os jornais de lá falavam do Talleres campeão. Tinham confiança porque, de fato, contavam com uma grande equipe. O Talleres era um time que havia revolucionado o futebol argentino, por sua torcida que o seguia a todos os lados”, relembrou Bochini. “Mas antes da partida, ninguém imaginava uma armação. Quando aconteceram as coisas em campo…”. O general Menéndez estava entre os 25 mil presentes nas arquibancadas de La Boutique, mas não se restringiria apenas a torcer, segundo os relatos.

O Independiente, que precisava da vitória ou de um empate com mais de dois gols, terminou o primeiro tempo em vantagem. Omar Larrosa levantou a bola na área e, depois que Enzo Trossero ajeitou, Norberto Outes apareceu para completar às redes. O relógio apontava 29 minutos e os dois times faziam um confronto aberto, no qual o Rojo surpreendia o aparente favoritismo do Talleres. Tudo mudaria durante o intervalo.

Benjamín Menéndez e Amadeo Nuccetelli teriam descido até os vestiários durante a pausa. Segundo conta a lenda, com ares um tanto quanto verídicos, foram “conversar” com o árbitro Roberto Barreiro em tom nada amigável, imaginando as possíveis consequências de uma derrota do Talleres em campo. O próprio Bochini admite que a história chegou aos jogadores do Independiente: “Depois soubemos que Menéndez havia ido falar com o árbitro no vestiário, embora não possa assegurar a veracidade. O Talleres tinha que ganhar porque era algo positivo para a província”.

Fato é que a partida se transformou para o Talleres. O empate saiu aos 15 minutos. Em um suposto toque de mão, que teria acontecido fora da área, Barreiro assinalou um pênalti contestável ao Talleres, como já tinha feito na semifinal contra o Newell’s. Ricardo Cherini converteu e empatou. Mas o pior ficaria para a sequência, aos 30, quando Ángel Bocanelli meteu a mão na bola e desviou um cruzamento para dentro. Apesar da irregularidade, o árbitro validou o tento. “La Mano de la Dictadura” parecia pronta a fazer La T levantar a taça, cumprindo a festa e os 50 mil pôsteres de campeão imprimidos em Córdoba.

O lance, obviamente, causou uma enorme revolta entre os jogadores do Independiente. E permitiu que o açougueiro Barreiro terminasse de operar os visitantes: expulsou nada menos do que três jogadores do Rojo. Rubén Galván foi o primeiro a questionar o árbitro e recebeu o vermelho. Depois, Trossero quase se atracou com o homem do apito e também foi para o chuveiro. Por fim, Larrosa foi o último expulso por indagar a postura de Barreiro. Que a indignação tivesse tomado os alvirrubros, não havia o que justificasse tamanha intransigência.

O que soava como um roubo quase provocou uma desistência do Independiente. Diversos jogadores queriam se retirar de campo, para que a perda do título não se consumasse de maneira vexatória, diante da injustiça. Foi o técnico José Omar Pastoriza quem acabou por convencer os seus heróis a permanecerem na cancha. “Não vão. Joguem, sejam homens, porque se pode ganhar”, teria dito o comandante. Ele foi buscar seus oito jogadores na porta dos vestiários e os obrigou a voltar. “Eu era um daqueles que queriam deixar o campo. Pensei que estava tudo perdido, mas seguimos lutando”, afirmou Bochini, depois do jogo. Restavam 15 minutos e o Rojo precisava de um gol para ser campeão. Por sua qualidade, de qualquer forma, o Talleres parecia pronto a golear.

Em busca do resultado, Pastoriza não se conteve a esperar na defesa. Buscou ainda mais o ataque, com duas substituições imediatas: entraram Mariano Biondi e Daniel Bertoni – este, outra referência ofensiva do time, mas que estava sendo poupado porque voltava de lesão. Pelos primeiros instantes, as chances de um massacre do Talleres eram mais palpáveis. La T ia perdendo gols e mais gols, em jogadas individualistas de seus homens, como se cada um quisesse ser o símbolo daquele título. Até que tudo se transformasse aos 38 minutos, com a ajuda de Biondi e Bertoni, além da maestria de Bochini – completando 24 anos naquele exato dia.

“Normalmente eles deveriam ter marcado muitos gols. Eu me recordo de uma jogada de Bocanelli, com dois jogadores que o acompanhavam para escorar ao gol, mas ele preferiu chutar e errou por 10 ou 15 centímetros. Aí terminou tudo”, descreve Bochini. “Eu dei a bola a Bertoni e ele passou a Biondi, que tocou para o lado quando o goleiro saiu. Eu, como vinha em velocidade, peguei de primeira. Foi uma jogada bárbara, tocando por baixo, fazendo tabelas. A bola entrou no alto, por cima de Víctor Binello, que tentou cabecear. Havia pouco espaço e, se não batesse assim, não entrava. Saí correndo para festejar. Os torcedores do Independiente derrubaram o alambrado e caíram dentro do campo. Pastoriza entrou e nos abraçamos. O destino quis que os campeões fossemos nós”.

Nos sete minutos restantes, coube ao Rojo segurar a diferença com todas as suas forças. O empate por 2 a 2, graças aos gols fora de casa, era o suficiente para a consagração daqueles oito guerreiros. A torcida da casa, contudo, ainda teve uma gota de dignidade. Aos fanáticos pelo Talleres, se somavam os torcedores do Belgrano, do Instituto, do Racing de Córdoba e outras tantas camisas do interior, que, em algo impossível nos dias de hoje, esperavam por um triunfo local. Já durante a volta olímpica, aplaudiram os jogadores campeões. Era impossível não se curvar àquele time do Rojo, diante da mostra gigantesca de bravura que deram. Na volta à Grande Buenos Aires, dois mil enlouquecidos alvirrubros se reuniram no aeroporto de Ezeiza. Já nas ruas de Avellaneda, a procissão dos campeões foi acompanhada por 30 mil, antes dos festejos em La Doble Visera.

Aquela vitória foi prova irrefutável da divindade de Bochini, unida à idolatria de outros tantos jogadores importantes, como Trossero, Larrosa, Outes e Bertoni. Já o ‘Pato’ Pastoriza ampliava a sua imagem em Avellaneda. Multicampeão como jogador, seria bicampeão nacional em sua primeira passagem como técnico. Depois, voltaria para a conquista da sétima Libertadores, em 1984, contando com a cátedra de Bochini. Além disso, outro que se impulsionou com o resultado foi o presidente do Independiente, Julio Humberto Grondona. Naquele momento, o mandatário do Talleres era um dos favoritos a assumir a AFA, por seu apoio no interior e trânsito com a ditadura. O resultado em La Boutique ajudou a mudar o cenário. Em 1979, Grondona iniciaria a sua extensa passagem de 35 anos no comando da federação – obviamente, sem que a troca de atores signifique necessariamente algo positivo.

Meses depois, quatro jogadores do Independiente fariam parte da seleção argentina que disputou a Copa do Mundo de 1978: Bertoni, Galván, Larrosa e Pagnanini. Bochini, inegavelmente o maior talento que poderia ser visto em La Doble Visera, ficou de fora. Apesar de fazer parte do elenco desde que Menotti assumiu o time, em 1974, acabou preterido na lista final. Precisaria que esperar oito anos, já veterano, para disputar o seu primeiro e único Mundial, em 1986. Maradona teria pesado em sua convocatória e teve o gosto de compartilhar o campo com seu maior ídolo por alguns minutos, rumo à conquista que o transformou em deidade.

Mas não que uma trajetória duradoura com a seleção, digna de sua qualidade, faça falta a Bochini. À sua grandeza, bastou o Independiente. As quatro Libertadores, os dois Mundiais. E aquele 25 de janeiro de 1978, no qual o craque foi o escolhido para reverter o inevitável. Para subjugar o impossível e, contra todas as crenças, permitir que oito homens vencessem os 15 minutos de um jogo inigualável.

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Sobre o jogo histórico, fica a dica de leitura para os textos produzidos por Caio Brandão, do Futebol Portenho, e Douglas Ceconello, do Meia Encarnada.

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Abaixo, reproduzimos a crônica de Eduardo Sacheri, célebre escritor argentino e torcedor do Independiente. Em 2004, ele escreveu o texto “Señor Pastoriza”, em que reconta aquele épico do Rojo, paralelamente a uma história pessoal.

Senhor Pastoriza

Quando descobri, quase não pude dizer qualquer palavra sobre a sua morte, senhor Pastoriza. Não sei muito bem por que. Embora suponha que sempre me acontece isso com as coisas que me lastimam. Não posso nomeá-las, ainda que me doam, ou ainda que me doam muito, ou ainda que sejam uma dor nova e desconhecida, uma dor que busca seu lugar no cemitério de tristezas que todos temos em algum lugar da alma.

Mas ao mesmo tempo soube, desde o momento em que descobri, logo cedo pela manhã, enquanto escutava o rádio ao barbear-me, que teria que escrever estas linhas, ou outras como estas, senhor. Isso também é algo que me ocorre com as coisas que me doem. Elas travam na língua, mas se destravam em palavras, quando as escrevo. Ainda que, com a morte, nunca seja fácil. Sempre é mais difícil com a morte, senhor Pastoriza.

Mas se tenho a necessidade, quase a obrigação, de escrever-lhe pelo menos estas linhas, senhor Pastoriza, é por algo que devo fazer há muitos anos, e que não pude agradecer-lhe corretamente em seu momento. Espero que saiba perdoar, à medida que eu avance neste relato, este atraso de minha parte. Digamos que tem a ver com isso da dificuldade de lidar com a morte, senhor Pastoriza. Com todas as mortes. Mas dizem que nunca é tarde, de modo que talvez seja esse o momento de agradecer, meu próprio agradecimento, este que tenho demorado desde muito tempo. Agora que você se foi, senhor, sinto que é o momento de dizer ou de escrever, que – como já apontei – é meu modo de dizer.

Você não necessita que eu te recorde, senhor Pastoriza, essa façanha de janeiro de 1978, quando o Independiente, com oito jogadores, conseguiu um empate impossível contra o Talleres de Córdoba, como visitante e com meio mundo contra, na final do Campeonato Nacional de 1977. Ganhava o Independiente e o Talleres virou, com um gol mentiroso, convertido com um toque de mão sem pudor que o árbitro não teve a hombridade de anular. Sim, teve a hombridade de expulsar três jogadores do Independiente que foram gritar a sua indignação. E a história estava escrita. Todos queriam sair, cheios de raiva e impotência. Mas estava você, senhor Pastoriza. Você estava e os deteve. Deteve e os fez voltar. Fez voltar e lhes disse: “Joguem”. Disse “joguem” e eles fizeram, senhor Pastoriza.

Nesta noite eu não soube de nada, senhor Pastoriza. Haviam me enviado à Villa Gesell, junto com a minha irmã, passar o verão com uns tios. Essas coisas que acontecem e que quando você é criança, não se dá conta que estão te enganando. Como era possível ir de férias sem meus pais e nem meu irmão mais velho, todos que gostavam do mar? Teria que me dar conta que havia uma armação estranha com essa viagem à praia. Mas, aos dez anos, às vezes você se distrai e perde as referências, senhor Pastoriza.

De maneira que nessa noite eu não soube. Você estava com os braços no alto, freando os jogadores do Independiente. Falando com eles, sustentando eles, e eu dormia como um bendito. Meu pai, lá em Castelar, fumava como a chaminé de um encouraçado com o rádio grudado na orelha, e eu sonhava, olha que barbaridade. Você mandava ao campo Bertoni, meio lesionado e tudo, e eu não sabia de nada. O coração do meu velho latia ao ritmo frenético da tabela que armavam Blondi, Bertoni e Bochini, e eu seguia na nuvem mais distante dos meus sonhos. Bochini empurrava a bola para a glória e eu roncava. Meu velho gritava na porta de casa, para que soubessem os vizinhos, e eu como se nada acontecesse, metido no cobertor, porque as noites geselinas de então eram frias. Logo na manhã seguinte um torcedor do Rojo me deixou a par da façanha. Eu me senti estranho. Para mim, o Independiente campeão era os cânticos com meu pai, os saltos pela casa, as bandeiras vermelhas penduradas nos móveis. Não essa notícia atrasada, a quatrocentos quilômetros de Castelar, trazida por um desconhecido.

Mas você não sabe como foi a volta, senhor Pastoriza. Você não imagina. Cheguei durante a noite com a minha irmã e foi meu papai que abriu a porta. Escrevo e estou vendo, senhor Pastoriza. Alto. Levemente encurvado. Careca. O roupão bem amarrado na cintura e que não podia ocultar o monte de quilos que havia perdido nesses meses.

Creio que primeiro me deu um abraço. Não estou certo. Do que eu sim tenho certeza, porque me lembro de cada um dos dez passos que dei, é que me levou pela mão da porta até a mesa de jantar. “Vem”, me disse. “Vem que guardei tudo para você”. Coisas que tem a vida. Eu tinha dez anos e ele não podia me dizer que estava morrendo. Mas podia tramar para preparar sobre a mesa todos os recortes desta noite de fábula, do 2 a 2 com oito homens, senhor. La Nación. Clarín. La Razón. El Gráfico. Goles. Entre todas as notícias e as fotos, escolheu uma para ler em voz alta. “O gol eu fiz com a mão”, era o título, e o autor do segundo gol do Talleres confessava a farsa. Meu pai leu eufórico, nos ares, saindo do chão. Era a prova definitiva que nos haviam roubado e nem assim, senhor, nem assim conseguiram nos tirar o campeonato. E havia outro recorte que falava de você, senhor Pastoriza. De como parou e os parou e os disse que jogassem.

E na noite de janeiro meu pai mostrava cada título. Cada foto. Eu olhava os recortes e o olhava. Magro e tudo. Enfermo e tudo. Meio morto e tudo. Mostrava os papéis e a partida se levantava na mesa para que eu a visse. Marcava com o dedo o índice e era Moisés abrindo de ponta a ponta as águas do Mar Vermelho. Adão tocando a mão de Deus. Bochini empurrando a bola, dois a dois, a empatar. Você não sabe o que era esse homem, senhor Pastoriza.

Tenho esses recortes guardados na minha casa. Talvez alguma vez vá buscá-los. Não sei. Temo que, se abro a bolsa verde em que os tenho escondidos, se escapem também todas as lágrimas. Mas a minha debilidade não tem que ser ingratidão. Por isso, obrigado, senhor Pastoriza. Por esse campeonato lendário que me deu a oportunidade de dar a última volta olímpica com meu pai, sobre a mesa de jantar, enquanto ele dava os últimos dribles na morte.

Veja que não é porque sim, que você morre e eu me recorde destas coisas. O Independiente é uma ponte que perpetuamente me conduz ao meu pai. E tudo bem. Você esteve sempre parado nesta ponte. Assim, obrigado senhor Pastoriza. Obrigado e até sempre.