“Diego Costa fez um jogo sensacional”, disse Fernando Hierro na coletiva de imprensa logo depois ao jogo. A decisão sobre quem seria o centroavante da Espanha era a mais difícil. Iago Aspas, em uma temporada fantástica pelo Celta, vinha ganhando espaço. Diego Costa não vinha tão bem com a camisa da Espanha, mas é, sem dúvida, o jogador que mais causava dúvidas entre os torcedores. Com a demissão de Julen Lopetegui a dois dias da estreia na Copa, a dúvida aumentou. Fernando Hierro decidiu escalar Diego Costa. Foi uma decisão conservadora, de um técnico improvisado com um jogador que é experiente e relevante dentro do vestiário, apesar das desconfianças do próprio vestiário. E a escolha se pagou.

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O modelo de jogo da Espanha campeão em 2008, 2010 e 2012 (Eurocopa, Copa e novamente Eurocopa, respectivamente) já sofria com problemas em 2014. Nos últimos quatro anos, o time sofreu tentando encaixar outros estilos de jogadores. Apesar dos conflitos internos, há jogadores mais acostumados a um jogador como Costa. Entre eles, Koke. O meio-campista foi uma outra decisão de Hierro, ao escalá-lo no lugar de Thiago, outro cotado para a posição. Jogadores como Nacho e Sergio Ramos também sabem como atuar em transições ofensivas e defensivas em velocidade, por já trabalharem assim, por vezes, no Real Madrid. E outro jogador que se tornou crucial para a Espanha também sabe trabalhar nos dois modelos com tranquilidade: Isco. Sabe trabalhar com contragolpes, uma arma que a Espanha campeã não tinha.

Em um time que gosta de trabalhar tanto a bola em movimentação, Diego Costa atuou de forma decisiva na estreia da Espanha na Copa. Em 2014, quando ele recém assumiu a nacionalidade espanhol, o centroavante era um corpo estranho em campo. Parecia desencaixado de um time que funcionava perfeitamente até ali. Quatro antes depois e muitos altos e baixos na seleção depois, Diego Costa foi titular, em uma disputa acirrada pela posição, e foi destaque. Marcou dois gols e, mais do que isso, foi importante no jogo da Espanha.

O estilo de jogo de Diego tão com a cara do Atlético de Madrid de Diego Simeone se tornou uma arma para a Espanha de um jeito que aumentou o repertório da Espanha. O seu primeiro gol, que empatou o jogo em 1 a 1, foi um gol típico de centroavante de força. Depois, no seu segundo gol, outro gol típico de um camisa 9 – embora ele goste de usar a 19. Em uma cobrança de falta alta, para o lado, Sergio Busquets tocou de cabeça para o centro da área, pegando a defesa de Portugal mal posicionada. Embaixo do gol, Diego Costa só empurrou para a rede.

Dois lances que não são características da Espanha, mas foram decisivos. Estes são lances de um time que sabe se adaptar a um jogo diferente. Apesar da resistência de alguns jogadores, é algo que os principais jogadores da Espanha já passaram a viver em seus clubes. Peguemos como exemplo os jogadores como Andrés Iniesta, Jordi Alba, David Silva e Sergio Busquets. Silva atua pelo Manchester City no período, um time que, de fato, privilegiou nos últimos quatro anos um jogo mais técnico e menos físico.

O Barcelona, porém, nos últimos quatro anos adicionou muitos recursos de jogo mais próximos a um jogador como Diego Costa. Luis Suárez pode não ter o poder físico de Costa, mas é um jogador que usa muito o corpo e o jogo de explosão. Quando assumiu o Barcelona, Luis Enrique passou a trabalhar mais a bola de forma rápida, aproveitando a característica de jogadores como Neymar e Suárez. Passou a ter um estilo de jogo menos paciente e mais incisivo. O Real Madrid variou mais, mas sempre teve um bom contra-ataque e soube se aproveitar de um estilo físico. Sem nem falar do Atlético de Madrid, o expoente máximo de um jogo de disciplina, posicionamento e tirar espaços.

Com tudo isso, as apostas de Vicente Del Bosque e Lopetegui em contar com um jogador como Diego Costa se justificavam também por isso. Claro, seria preciso que ele jogasse e mantivesse o nível alto que o fez chegar à seleção. Depois de um semestre de dúvida por sua ausência no Chelsea, a sua volta ao Atlético de Madrid trouxe o Diego Costa que nos acostumamos a ver, com ótimas partidas e fazendo uma grande dupla com Antoine Griezmann. Sua presença no grupo de convocados estava justificada. Faltava a resposta em campo, com a camisa da Espanha. E, por isso, se especulava que ele não fosse o titular, e sim Iago Aspas, que vinha entregando boas atuações frequentemente.

David Silva, quando perguntado sobre isso, disse algo que é categórico: “Nós teremos que nos adaptar”. Quando se tem um jogador como Diego Costa e outros que são inteligente, experientes e técnicos, o trabalho do treinador é justamente tirar o melhor deles com suas características. E parece que a Espanha conseguiu, ao menos nesse jogo com Portugal. A participação de Diego Costa foi mais relevante, mais importante e, principalmente, mais construtiva. A Espanha precisa de um jogador no centro do ataque que seja capaz de construir jogadas, tanto quanto finalizar. Por isso, o jogo de Diego foi importante, porque os passes que fez ajudaram, conseguiu tabelas.

“Eu estou realmente feliz por Diego Costa ter feito dois gols. Ele sofreu muito nos últimos quatro anos e nesta noite e ele provou que é realmente o jogador para jogar no ataque da Espanha”, avaliou Cesc Fàbregas, comentando pela BBC. Como companheiro de clube durante algum tempo no Chelsea e também na seleção da Espanha, Fábregas conhece bem a capacidade de Diego Costa de decidir jogos, seja com gols, seja criando espaços, seja se impondo fisicamente para que outros do time não precisem fazê-lo.

A Espanha do toque de bola que parecia um veneno lento e mortal passou a ser mais agressiva e com ataques que causam mais danos em menos tempo. Não significa que o time esteja perfeitamente ajustado, mas ao menos é uma indicação que a ideia de que Diego Costa não tem sentido para o estilo espanhol é só uma conclusão precoce. Se o Barcelona, o expoente de um jogo de passe e paciência, aprendeu a ser mais físico e também contra-atacar quando for preciso, por que não a Espanha? Diego Costa que o diga.