No segundo choro de Thiago Silva, caíram as lágrimas redentoras do herói da classificação

O capitão do Paris Saint-Germain quase deixou o sonho ruir ao cometer um pênalti bobo, mas se redimiu com o gol que derrubou o Chelsea

O braço esquerdo carregava a faixa de capitão, símbolo da responsabilidade de liderar o Paris Saint-Germain às quartas de final da Champions League. E o direito quase pôs tudo a perder. Como se quisesse dar um toco de basquete em Zouma, subiu com a mão estendida e desviou o lançamento. O árbitro marcou pênalti. De repente, tudo ruiu, mas Thiago Silva não sentou na bola e chorou. Reuniu as forças para atacar o Chelsea. Tentou uma vez e parou em Courtois. Tentou a segunda e virou o herói da noite em Londres. A redenção que lhe permitiu derrubar lágrimas de alegria sem precisar se explicar.

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A Copa do Mundo tem dessas coisas. Pode ser o palco que eterniza os grossos ao mesmo tempo em que estigmatiza craques por episódios específicos. Thiago Silva nunca pareceu a escolha certa para ser o capitão da seleção brasileira e comprovou não ter equilíbrio emocional para tanto naquelas oitavas de final contra o Chile. Isso não deveria, porém, influenciar as avaliações sobre a sua capacidade de antecipação, passe, desarme e cabeceio. É um dos melhores do mundo na posição.

Foi com essa insígnia colada no peito que Thiago Silva atuou durante quase todo o jogo, na retaguarda de um time com dez jogadores em campo graças à rigidez (ou ruindade mesmo) do árbitro holandês Björn Kuipers. Ibrahimovic, no duro, é o grande líder do PSG, mas foi expulso com meia hora de partida. A missão caiu no colo do zagueiro e estava sendo cumprida à risca. Mesmo com um a menos, o Chelsea, acomodado, não criava, nem ameaçava. Até os 36 minutos do segundo tempo.

Thiago Silva não chegou a falhar no gol de Gary Cahill, mas poderia ter cabeceado para fora da área. A bola, porém, foi para trás, e depois de várias tentativas frustradas de afastá-la – inclusive uma do Diego Costa -, Cahill estufou as redes. O fim do jogo estava a menos de cinco minutos quando David Luiz, na prática dispensado do Chelsea por Mourinho, também conseguiu sua própria mini-redenção e empatou com um tiro de cabeça.

O tempo extra ainda estava no começo quando Thiago Silva, 30 anos, cometeu o erro de um juvenil que ainda dá os primeiros passos da carreira em Xérem. Subiu para marcar Zouma com o braço acima da cabeça e desviou, de leve, a bola. Tão de leve que apenas a imagem congelada confirmou ao público que houve, de fato, um pênalti. Hazard caminhou e fez, com muita frieza, o gol que daria a vaga nas quartas de final ao Chelsea e congelou as esperanças do PSG.

As redes sociais, implacáveis como sempre, deram início a sua série de piadas sobre Thiago Silva. É óbvio que ele estava com vontade de chorar. Havia acabado de jogar no lixo uma possibilidade real de vitória para o seu time, o melhor em campo a partida inteira. Qual o problema disso? Até porque, desta vez, não sucumbiu às emoções. Transformou a decepção em raiva e determinação, as lágrimas de tristeza em gotas de alegria.

Foi uma aula cinematográfica de persistência. O primeiro escanteio veio da direita, e Thiago Silva colocou no canto de Courtois de uma forma que vazaria a maioria dos goleiros do mundo. Mas Courtois não é a maioria dos goleiros do mundo. É um dos melhores. Espalmou a cabeçada para uma nova cobrança de tiro de canto. O goleiro belga achou que conseguiria cortar essa antes que alcançasse um adversário, mas a bola fugiu dele. Seguiu uma curva aberta e só poderia terminar a trajetória na testa do capitão do PSG.

Ficou clara a apreensão de Thiago Silva antes de fazer a bola passar por cima de Courtois e classificar o Paris Saint-Germain. Os olhos marejaram na comemoração do gol, mas ele se segurou. Ainda havia cinco minutos pela frente. Quando o árbitro apitou o final da partida, deixou as emoções fluírem. Abraçou todo mundo, correu pelo gramado e acenou para sua torcida. E chorou também, claro, mas desta vez as lágrimas da classificação da qual foi o principal herói.