O moderno Allianz Parque está afastando certos grupos de torcedores palmeirenses dos jogos. A questão tem sido pauta no Palmeiras, mas está longe de ser uma exclusividade do alviverde. O fenômeno de elitização das arquibancadas acontece em todos os lugares em que estádios antigos e sem tanta infraestrutura passam por reformas para dar lugar a confortáveis e luxuosas arenas. Neste domingo, durante a partida entre Palmeiras e Goiás, as torcidas organizadas palmeirenses voltaram a protestar contra os preços dos ingressos. Não os consideram justos. Em contrapartida, o time batia o recorde de público deste Brasileirão, com mais de 37 mil pessoas assistindo à derrota para os goianos por 1 a 0.

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De um lado, os torcedores palmeirenses têm sua razão. Parece injusto que setores da torcida que sempre estiveram com o time e que tiveram papel no estabelecimento da imagem do clube sejam deixados de lado em nome de um progresso financeiro. Além da alta nos ingressos individuais, o aumento significativo das mensalidades do Avanti, plano de sócio-torcedor, foi outro grande estopim para os protestos recentes. O problema, estrutural e social, já aconteceu na Inglaterra, que hoje vive um processo de tentativa de conciliação do presente e do futuro com o passado. Por que não aprender com os erros de fora e importar também as soluções que têm encontrado, em vez de apenas um modelo que já demonstra suas falhas há algum tempo e é combatido? Neste sentido, a torcida do Palmeiras faz o certo. Na Premier League, o princípio das mudanças está acontecendo por pressão externa de torcedores, e não por uma tomada de consciência coletiva dos clubes.

Por outro lado, o clube tem a seu favor os números. Para a lei do mercado, não existe tal coisa como “preço justo”. O justo é simplesmente aquilo que as pessoas estão dispostas a pagar. E, do ponto de vista estritamente financeiro, como dizer que essa precificação não tem sido aceita se numa manhã de domingo mais de 37 mil pessoas desembolsaram os altos valores cobrados para poder assistir ao time?

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Em meio a tudo isso, uma situação complexa tem se desenvolvido dentro da torcida palmeirense. Um simulacro palestrino da luta de classes, como bem define Leandro Iamin em seu texto abordando o assunto no blog O Periquitão, no ESPN FC. Diagnóstico evidenciado durante o primeiro protesto de silêncio por parte das organizadas, no jogo contra o Atlético Mineiro, em que, enquanto os uniformizados se calavam contra os preços dos ingressos, o restante da torcida os xingava.

O meio termo proposto pela torcida palmeirense em seu comunicado que anunciava o protesto deste domingo é razoável. Pediam que, em meio ao projeto de se lucrar o máximo possível com arrecadação de ingressos, reservassem um espaço para o palmeirense que ama o time, mas não tem condições de acompanhar esses novos valores. Se a luta por ingressos mais inclusivos na Inglaterra é calcada nas rendas imensas de direitos de televisão conquistadas com o último acordo entre a liga e as emissoras, o que subsidiaria essas entradas mais populares no Brasil? A resposta está longe de ser encontrada, até porque o problema é relativamente novo para o futebol brasileiro. Não dá para prever como chegaremos até ela, mas o exemplo dos ingleses mostra que a falta de diálogo não é o caminho.