O coração do futebol argentino pulsa ao redor de Buenos Aires. A paixão se enraizou por dezenas de bairros da capital e da região metropolitana, em torno da qual se estruturou a organização do campeonato local. Ainda hoje, o predomínio portenho é evidente, com 18 dos 30 times da primeira divisão. Contudo, dá para dizer que a alma boleira na Argentina está mais à oeste, em Rosário. Para muita gente, a rivalidade mais ferrenha do país é vivida na cidade, dividida entre as cores de dois clubes. Símbolos de enorme furor, Rosario Central e Newell’s Old Boys duelam em um universo próprio de fanatismo. E os auriazuis, no calor de uma de suas melhores temporadas, tiveram negada a chance de gritar um título de primeiro nível após 20 anos.

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Nesta quarta, o Boca Juniors se consagrou com o doblete nacional. Três dias após faturar o Campeonato Argentino com uma rodada de antecedência, os xeneizes ratificaram a hegemonia nacional ao conquistarem também a Copa Argentina. Venceram o Rosario Central por 2 a 0, dentro do pulsante Estádio Mario Kempes – com arquibancadas divididas entre as duas torcidas. Entretanto, a comemoração dos visitantes se misturou com a revolta dos canallas. Os rosarinos reclamaram bastante de um gol de Marco Rubén anulado no primeiro tempo, por impedimento. O atacante estava em posição legal, mas, segundo o assistente, outro companheiro de time teria interferido no lance. Contudo, problema maior veio na segunda etapa, em um pênalti absurdo marcado a favor do Boca, que Lodeiro converteu. Por fim, Chávez ratificou a vitória.

A revolta, porém, não deixaria a taça em Rosário. Após grande campanha (eliminando Racing, Estudiantes e River Plate, todos presentes na Libertadores de 2015), este é o segundo vice-campeonato consecutivo do Central na Copa Argentina, derrotado nos pênaltis pelo Huracán em 2013/14. Já no Campeonato Argentino, os canallas vão para a última rodada na terceira colocação, já garantidos na Copa Libertadores de 2016. Prêmio e tanto para o bom trabalho encabeçado pelo agora técnico Eduardo Coudet, que tem como protagonistas alguns nomes de bastante rodagem, como Rubén, Caranta, Niell e César Delgado.

Acima dos nomes, no entanto, se coloca a torcida. O Gigante de Arroyito costumeiramente conta com uma das atmosferas mais fantásticas do futebol argentino. A festa antes da decisão da Copa Argentina foi um exemplo. Algo que se repete nas arquibancadas a cada partida importante. Em agosto, contra o Sarmiento Junín, o estádio parecia em chamas. A média de público bate os 36 mil presentes por jogo, superando em mais de 83% a ocupação máxima de sua casa.

E, para sustentar o fervor, o Rosario Central independe de títulos. Mesmo ao longo de sua história, são raros os grandes feitos dos canallas. Conquistaram o campeonato nacional em quatro oportunidades, entre 1971 e 1987. Em 1995, veio a Copa Conmebol após dramática virada sobre o Atlético Mineiro. Desde então, no máximo, a segunda divisão de 2012/13. Valeu o alívio para tirar os rosarinos do inferno, assim como a enorme festa, mas longe de satisfazer os anseios de sua torcida. Até porque, na mesma época, o Newell’s comandado por Tata Martino conquistava o Torneio Final, enquanto chegava até as semifinais da Copa Libertadores.

A ascensão desde 2013, de qualquer maneira, ressalta o potencial que o Rosario Central tem. Restabelecido na elite, voltou com campanhas intermediárias, até estourar novamente em 2015. Se mantiver a base para o próximo ano, possui credenciais para fazer boa campanha na Libertadores, com o retorno após dez anos longe da competição continental. Afinal, mais do que grandes craques, o torneio sul-americano tem premiado os times mais sólidos nos últimos anos. E, copeiros como poucos dentro da Argentina, os canallas já provaram tal virtude. Até porque também possuem uma torcida para fazer a diferença.