Não dá para dizer exatamente o que aconteceu. Se era falta de vontade, se era falta de confiança, se era alguma questão tática. Fato é que, na primeira partida desde a saída de Claudio Ranieri, o Leicester jogou muito. Gastou a bola, relembrando os melhores momentos do time campeão na temporada passada. Desta vez, para conquistar três pontos fundamentais e sair da zona de rebaixamento. Tudo bem, do outro lado o Liverpool teve uma noite muitíssimo abaixo de sua capacidade, em nova atuação mambembe contra um adversário da parte inferior da tabela. Ainda assim, isso não tira os méritos das Raposas, em jogo infernal principalmente de Jamie Vardy e Danny Drinkwater. Vitória categórica por 3 a 1, para delírio da torcida no Estádio King Power.

Obviamente, havia comoção nas arquibancadas pela demissão de Ranieri. A saída do técnico, de maneira um tanto quanto inesperada, não caiu bem aos torcedores. Várias faixas e cartazes se espalharam pelo estádio, assim como máscaras do italiano. De qualquer maneira, não foi isso que impediu a torcida de apoiar sua equipe, independentemente dos rumores de que o elenco forçou a rescisão com o treinador.

O interino Craig Shakespeare apostou em um Leicester à imagem e semelhança da temporada passada. Escalou a equipe no 4-4-2, com 10 dos 11 titulares do time que se consagrou na Premier League. A única alteração, obviamente, veio com Wilfred Ndidi na vaga que era de N’Golo Kanté. Até mesmo Shinji Okazaki retornou à linha de frente, compondo dupla com Jamie Vardy. Foi apenas o terceiro jogo na atual temporada em que 10 titulares de 2015/16 fizeram parte do 11 inicial – e o primeiro desde 10 de setembro.

A mudança de postura do Leicester era clara. Investindo em seu jogo direto, o time incomodava bastante o Liverpool. Além disso, os Reds mal conseguiam criar oportunidades no ataque. Simon Mignolet trabalhava bastante, com três boas defesas para evitar que os anfitriões saíssem em vantagem. Aos 28 minutos, entretanto, o goleiro não teve o que fazer. Marc Albrighton iniciou contra-ataque com excelente passe em profundidade. Vardy – mas o Vardy da temporada anterior, não o da atual – partiu em velocidade e finalizou rasteiro, abrindo o marcador. Pela intensidade, nada parecia capaz de brecar as Raposas.

O segundo gol saiu em grande estilo. O Leicester também ameaçava no jogo aéreo. E, aos 39, em sobra de bola alçada na área, Danny Drinkwater anotou um golaço. Pegou na veia, de fora da área, sem dar qualquer chance para Mignolet. O Liverpool apresentava um futebol burocrático, com pouquíssima penetração na defesa do time da casa. Tinha mais posse de bola, o que não valia muito, sem aproveitar a velocidade de sua linha de frente. Ndidi, sobretudo, era um leão – acumulou 11 desarmes na partida, marca inferior nesta Premier League apenas à de Kanté diante do próprio Liverpool, em Anfield. Primeiro tempo soberbo da equipe comandada agora por Craig Shakespeare.

O Leicester demorou pouco para matar o jogo. Aos 15 minutos do segundo tempo, os azuis demonstraram também ótimo trato com a bola. Jogada trabalhada na ponta esquerda, com Riyad Mahrez preparando a passagem de Christian Fuchs. O austríaco cortou a marcação e cruzou com perfeição, na cabeça de Vardy. Depois disso, as Raposas tiraram o pé do acelerador, embora tenham criado uma chance ou outra ampliar a vantagem. O destaque ficou mesmo para quando os torcedores cantaram o nome de Claudio Ranieri, aos 65 minutos, em referência a sua idade. Nada, porém, que tenha gerado represálias aos jogadores.

Somente nos instantes finais é que o Liverpool resolveu jogar bola. Kasper Schmeichel, um dos poucos que salvam a temporada como um todo, fazia grandes defesas. Só não conseguiu evitar o pior aos 23, em chute no canto de Philippe Coutinho. Jürgen Klopp tentou impulsionar o seu ataque, através das alterações. Nada que tenha surtido muitos efeitos. Ainda que a defesa do Leicester repetisse algumas de suas repetidas carências dos últimos meses, não foi nada suficiente para os Reds encostarem no placar, estacionando na quinta colocação.

Depois de passar o final de semana na zona de rebaixamento, o Leicester saiu do Z-3. Chegou aos 24 pontos, ganhando três posições, ao ultrapassar Crystal Palace, Middlesbrough e Swansea. Reação importante para o momento e, principalmente, para demonstrar que a demissão de Claudio Ranieri (ao menos do ponto de vista do rendimento, deixando as discussões sobre respeito e consideração de lado) não foi tão ruim assim. O comportamento do time como um todo foi outro, como poucas vezes se viu nesta temporada. Resta saber se isso durará por mais rodadas ou foi apenas um lampejo do velho futebol apresentado na campanha histórica.


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