Uma história muito comum em grandes times do futebol mundial é vermos garotos sendo emprestados para ganharem experiência, normalmente em times menores. Muitos desses nunca conseguem a chance de atuar no time principal daquele clube que defenderam nas categorias de base. Parecia que seria assim com Harry Kane. Ele contou em um depoimento ao Player’s Tribune um pouco da sua história e contou algo curioso: um documentário sobre Tom Brady ajudou a mudar a sua vida para sempre, no pior momento da carreira.

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Kane chegou a 100 gols na Premier League no domingo, no empate com o Liverpool por 2 a 2. Aliás, ele marcou o gol no último lance do jogo, em um pênalti. O 100º gol dele na Premier League significou muito para ele, que sofreu com muita desconfiança no início da carreira. E desconfiança que chegou até ele mesmo. O texto que o atacante inglês publicou no Players’ Tribune mostra como um dos maiores jogadores de futebol americano de todos os tempos – se não o maior – o ajudou a superar seu pior momento na carreira e confiar em si mesmo.

O início no Arsenal

A história que Harry Kane contou no Players’ Tribune começa com um fracasso. Com oito anos, ele foi dispensado pelo Arsenal. A notícia foi dada pelo seu pai, que ele conta ter uma atitude diferente do que se espera.

“Eu não consigo realmente lembrar o que senti no momento. Para ser honesto, eu não acho nem que eu realmente sabia o que isso significava. Eu era muito jovem. Mas eu lembro como o meu pai reagiu e como isso fez me sentir. Ele não me criticou. Ele não criticou o Arsenal. Ele não pareceu especialmente incomodado de modo algum. Ele apenas disse: ‘Não se preocupe, Harry. Nós iremos trabalhar mais duro e nós iremos continuar e iremos encontrou outro clube, certo?’”.

“Olhando para trás, você pensaria que eu ficaria mais chateado. E muitos pais, se estivessem desesperados para que seu filho fosse jogador profissional… Eles teriam reagido de maneira um pouco diferente, eu imagino. Mas meu pai, não importa o que acontecia, ele nunca colocou qualquer pressão em mim. Ele sempre foi muito positivo. Sua frase clássica, em qualquer situação, era: ‘Bom, vamos continuar com isso então’. E foi isso que fizemos”.

Depois da dispensa do Arsenal, Kane jogou pelo time do seu bairro e, observado por um olheiro, foi convidado para um teste no Watford. Jogou pelo time, até que enfrentou o Tottenham e recebeu o convite para jogar pelos Spurs, seu time de coração. Um sonho, mas ainda longe de chegar ao que está hoje. E quando enfrentava o Arsenal, ele sempre pensava: “vamos ver que estava certo e quem estava errado”.

“Olhando para trás, foi provavelmente a melhor coisa que aconteceu comigo, porque me deu um caminho que não estava lá antes”, contou Kane. “Estou realmente feliz que cheguei a 100 gols na Premier League. Quando o Tottenham me mandou por empréstimo por dois anos, houve muitos momentos que eu questionei se eu teria a chance de marcar ao menos um gol na Premier League. Mas eu aprendi muitas grandes lições durante esses anos”.

Empréstimo ao Milwall em 2012

“Eu lembro quando eu fui para o Milwall em 2012 e nós estávamos em uma briga voraz contra o rebaixamento. Obviamente, os torcedores lá são infames por sua paixão. Eles estão em outro nível. Em um dos meus primeiros jogos em Ther Den, o árbitro tomou uma decisão ruim. Apenas uma decisão ruim. E de repente, os torcedores começaram a atirar muitas coisas no gramado. Apenas objetos aleatórios! Muitos objetos. Os árbitros tiveram que parar a partida por cinco minutos até que a torcida se acalmasse. E você tem que lembrar, eu tinha apenas 18 anos lá. Eu estava olhando em volta. Uau. Isso é… Isso é maluco”.

“Assim que a temporada avançada e ainda estávamos na zona do rebaixamento, alguns dos rapazes no vestiário começaram a dizer algumas coisas que me atingiram com a guarda baixa. ‘Cara, se cairmos, meu salário cai pela metade’. Ou ‘Se cairmos, eu ficarei sem contrato’. Esses eram caras com crianças pequenas em casa – e foi quando eu comecei a ver o jogo de uma forma completamente diferente, de verdade. Você começa a perceber que algumas pessoas não estão jogando apenas pelo esporte. É pelo sustento da família, sabe? Você começa a perceber o quão delicado isso pode ser. E isso, no futebol, tudo pelo qual você trabalhou pode acabar em um instante”, contou ainda Kane.

“Minha experiência no Milwall me fez perceber que eu não poderia ser um garoto mais. Foi um importante aprendizado para mim. E não acredito que tenha sido uma coincidência que eu tenha ido muito bem lá. Mais importante que isso, nós não fomos rebaixados. Isso sempre me deu uma grande ligação com os torcedores do Millwall. Eu amo os torcedores… Mesmo que eles sejam um pouco loucos às vezes”, disse ainda o hoje atacante da seleção inglesa.

O fundo do poço no Leicester e a inspiração de Tom Brady

Tom Brady, do New England Patriots, no Super Bowl XLIX (Photo by Tom Pennington/Getty Images)

“Eu esperava que eu tivesse feito o suficiente para os Spurs me manterem na próxima temporada. Infelizmente, eles me mandaram por empréstimo de novo e foi o começo de um período muito duro. O pior momento foi provavelmente quando eu estava no Leicester City e não conseguia ver como conseguiria entrar no time. Eles ainda estavam na Championship [segunda divisão] na época e eu lembro de estar no meu apartamento e ter essa terrível percepção de ‘Se eu não consigo jogar no Leicester na Championship… Como eu poderia jogar pelos Spurs na Premier League?’”, escreveu ainda Kane.

“Algumas semanas mais tarde, eu estava no meu apartamento novamente e na época eu já estava realmente me envolvendo com a NFL. Se eu não estava treinando, então eu estava jogando Madden ou assistindo a vídeos do New England Patriots no Youtube. Então, um dia, eu acabei encontrando um documentário sobre Tom Brady. Era sobre os seis quarterbacks que foram escolhidos antes dele no draft da NFL”, revela Kane.

“Acontece que Tom Brady foi a 199º escolha na sua turma de Draft. Imagine isso. Isso explodiu minha mente, mas de um jeito bom. O filme realmente mexeu comigo. Todo mundo estava duvidando de Tom a sua vida inteira. Mesmo quando ele foi para a faculdade os técnicos tentavam substituí-lo com outro quarterback”, escreve o camisa 10 dos Spurs.

“Eles mostraram a sua foto sendo pesado pelos olheiros antes do draft da NFL e ele tirou a sua camiseta… E é engraçado, porque ele parece um cara normal, sabe? E um técnico diz: ‘Estamos olhando para esse garoto Brady, ele é alto e desajeitado e parece que ele nunca viu uma sala de musculação’. Ele me lembrou de mim. As pessoas sempre faziam as mesmas suposições comigo. ‘Bem, sabe, ele não parece como um atacante apropriado’”.

“Foi genuinamente inspirador para mim. Brady acreditou tanto nele mesmo e ele continuou trabalhando e trabalhando, quase obsessivamente, para ficar melhor. Isso realmente se conectou comigo. Isso pode soar estranho, mas foi como uma luz acendendo dentro da minha cabeça naquele dia, bem no meu sofá, em Leicester – e, de repente, eu disse: ‘Quer saber? Eu vou fazer isso. Eu vou trabalhar o mais duro possível e minha chance virá e eu vou agarrá-la’”.

“Algumas partidas depois, nós estávamos jogando contra o Millwall, meu antigo time. E um dos grandes defensores, eu acho, estava tentando me intimidar. Ele estava atrás de mim em um lateral e disse: ‘Oi, Harry’. Eu respondi: ‘Sim?’. Ele disse: ‘Eu ainda não recebi nenhum cartão amarelo’. Eu disse: ‘Err… tudo bem?’. E ele disse: ‘Isso é bom porque eu estou prestes a usar um com você’”.

“Ele estava tentando me intimidar, simplesmente. Veio o lateral… Nós dois pulamos para a cabeçada… Um pouco dos velhos cotovelos de um lado para o outro… E sabe o que aconteceu? Eu o acertei acidentalmente bem na costela. Ele caiu no chão, estremecendo, e eu meio que pisei nele enquanto ele estava caído. Eu nem disse qualquer coisa, sabe? Eu apenas… Pisei nele. Foi meu dia de provar para ele, e para mim, para todo mundo, que eu não seria intimidado”.

“Na temporada seguinte, eu voltei para o Tottenham e encontrei com o treinador, André Villas-Boas. Ele queria me mandar por empréstimo de novo. Havia alguns bons clubes interessados em mim e isso teria sido ok, mas não era o meu sonho. Meu sonho não era jogar na Premier League. Meu sonho era jogar na Premier League pelos Spurs. Então eu disse a ele: ‘Eu não quero ir’. Enquanto as palavras saiam da minha boca, eu pensava ‘Oh, talvez não seja…’. Ele apenas olhou para mim, um pouco confuso”, contou Kane.

“E então eu disse tudo. ‘Eu vou te provar que eu deveria estar começando os jogos neste time. E você pode me dizer toda sexta antes do jogo que eu não mereço isso e que eu não vou jogar. E tudo bem. Mas eu não quero ir’. E foi assim. Ele me deixou ficar e treinar com o time. E isso foi o ponto de mudança da minha confiança. Eu sempre senti que eu tinha a habilidade, mas eu tinha que me colocar. Era como se eu pudesse ver o meu sonho de criança e estava na minha frente… Mas estava fora de alcance. Eu estava esperando alguém me dar. Mas a vida nunca te da, não é? Você tem que agarrar”.

“Eu estava muito bem no treino, mas eu ainda não conseguia jogar. Então o técnico foi demitido no inverno [metade da temporada] e Tim Sherwood entrou no lugar. E ele me deu minha chance. O resto, as pessoas dizem, é história. Eu marquei três gols nos meus primeiros três jogos como titular e esta foi uma sensação incrível, especialmente a primeira vez que marquei no White Hart Lane. Mas, honestamente, todas as coisas pelas quais passei antes de marcar meu primeiro gol… Isso me tornou quem eu sou”.

“Obrigado a Tom Brady por dar esperanças a caras que parecem nunca terem visto uma sala de musculação na vida”, disse.

A relação com Pochettino

“Obviamente, quando Mauricio Pochettino chegou na temporada seguinte, tudo mudou. Não apenas para mim, mas para o clube. Ninguém teve um impacto maior na minha carreira que Mauricio e isso é porque ele não apenas trouxe uma filosofia de treinamento maravilhosa, ele também nos fez ficar todos muito mais próximos. Ele teve uma carreira incrível, mas ele quase nunca fala sobre isso. Como técnico, nunca se trata dele – é sempre sobre ajudar os jogadores, seja o melhor jogador ou um jogador que vem sofrendo. É claro, se você não quer trabalhar duro e você é preguiçoso… Então ele é impiedoso. É isso, você não estará jogando e a porta não estará aberta para falar com ele também. Mas se você der a ele respeito e trabalhar duro por ele, ele te dará todo o tempo todo mundo”.

O primeiro clássico com o Arsenal

“Para mim, a rejeição foi o melhor que aconteceu para mim. Quando eu estava amarrando as chuteiras para meu primeiro jogo como titular no dérbi do Norte de Londres em 2015, eu tive uma recordação de quando eu tinha 11 anos, jogando contra o time de base do Arsenal. Foi como um déja vu. Antes de toda partida, eu sempre visualizo cenários na minha cabeça, exatamente como vou marcar gols na partida. Chute com curva de esquerda no canto baixo. Voleio de direita do lado direito da área. Eu sempre fui assim. Eu sou detalhista sobre isso, eu visualizado meus adversários, o corte da grama e tudo isso”.

“Desta vez, eu estava visualizando defensores vestindo o uniforme vermelho do Arsenal e eu fiquei arrepiado. Nós estávamos no túnel e eu pensei. ‘OK. Demorou 12 anos. Mas nós veremos quem estava certo e quem estava errado’. Eu marquei dois gols naquele dia e o gol da vitória aos 41 minutos foi algo que eu nunca nem sonhei visualizar antes de um jogo. Foi uma cabeçada, provavelmente a melhor cabeçada que eu já marquei, e aquele sentimento quando a bola foi para o fundo da rede… Eu nunca senti uma emoção como aquela na minha carreira inteira”.

“Eu lembro de andar ao redor do campo depois do apito final… E aplaudindo os torcedores… E eu senti algo como ‘bem, eu avisei’. Não se tratava do Arsenal. É mais profundo que isso. Se tratava de provar algo a mim mesmo e para a minha família, que acreditou em mim em cada passo do caminho. Mesmo quando eu estava no Millwall, Norwich e Leicester, mesmo quando eu estava duvidando que eu podia conseguir”.

O novo sonho: a Premier League

Kane diz que ao chegar aos 100 gols na Premier League, ele tem que agradecer muita gente. Além de Tom Brady, que o inspirou pela sua história, agradeceu sua família, companheiros, o técnico. Mas agradeceu também os torcedores. E projetou o futuro.

“E obrigado, claro, aos torcedores do Tottenham. Eu sonhei jogar pelos Spurs desde que eu era um garoto. Por um longo tempo, a minha motivação era simplesmente fechar meus olhos e me imaginar marcando contra o Arsenal na Premier League. Eu fiz isso algumas vezes agora. Mas agora, minha motivação é um pouco diferente. Agora, eu fecho os olhos e eu me imagino levantando o troféu da Premier League no nosso novo estádio com meus companheiros. Eu trocaria os próximos 100 gols por essa sensação”.

“Nós estivemos perto nas últimas temporadas, mas há apenas um modo de diminuir essa diferença. E eu tenho medo que é uma responde um pouco entediante. Como meu pai diria, nós temos que continuar trabalhando, continuar fazendo. Continuar com isso”.

Palavras inspiradoras de Kane, que, talvez, tenha um efeito parecido com o que Brady exerceu nele quando viu o documentário com a sua história. E leva os torcedores a sonhar muito alto, com a taça, aquela que não vai para White Hart Lane desde 1960/61.


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