“Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo”. A famosa declaração de Vampeta, durante sua apagada passagem pelo Flamengo, retrata o caos financeiro tão comum nos clubes brasileiros. Ainda que a situação já tenha sido pior, o descaso e o descompromisso acontecem com frequência na gestão esportiva do país. Nesta terça-feira, porém, os jogadores do Figueirense transmitiram uma mensagem diferente na Série B do Brasileirão. Após diversos avisos ao longo dos últimos dias, eles decidiram não entrar em campo para enfrentar o Cuiabá, na Arena Pantanal. Protestavam justamente contra os salários atrasados e, derrotados por W.O., expõem um caso seríssimo dentro do clube, que também pode se aplicar a outras agremiações e a outros momentos do futebol brasileiro.

A crise administrativa e financeira do Figueirense se arrasta ao longo dos últimos meses. No entanto, o ápice da queda de braço começou na semana passada. Com salários e direitos de imagem atrasados, os jogadores não se reapresentaram no Orlando Scarpelli após a derrota para a Ponte Preta na quinta-feira. Não treinaram desde então e ameaçaram não viajar ao Mato Grosso para enfrentar o Cuiabá. Acabaram embarcando, mas a pendência continuava. Os futebolistas manifestaram-se através das redes sociais e relataram a pressão para que voltassem às atividades. Resistiram. Queriam que ao menos um salário fosse debitado até a tarde de terça, a todos os funcionários que convivem com os atrasos.

No domingo, uma notificação extrajudicial assinada por 31 jogadores foi enviada à Elephant, empresa responsável pela gestão do futebol do Figueira (sobre a qual falaremos mais na sequência do texto), exigindo o pagamento das dívidas. O elenco alargou gradualmente o limite do protesto, aguardando alguma resposta da diretoria-executiva. Ameaçou também não deixar o hotel nesta terça e, diante do esboço de uma negociação, deu o seu ultimato já na Arena Pantanal. Ao final, sem uma sinalização favorável às suas exigências, os atletas cumpriram a palavra e se recusaram a entrar em campo para encarar o Cuiabá. Entregaram a vitória por 3 a 0 aos anfitriões e deixaram o clube sob o risco de receber uma multa de até R$100 mil. Precisarão segurar o rojão diante das possíveis represálias, imediatas ou não.

Vale ressaltar que o desgaste se ampliou por conta da postura da Elephant e da atual administração do Figueirense. O elenco já tinha boicotado os treinos em meados de julho e também prometeu se ausentar da partida contra o Vitória. Na época, a revolta só foi apaziguada depois que os diretores prometeram pagar os débitos. A Elephant chegou a assinar um termo de compromisso com o Conselho Administrativo (um órgão paralelo dentro da estrutura atual do clube), em que se estabelecia um cronograma de investimentos e de pagamento das dívidas.

Neste termo de compromisso, exige-se o pagamento dos atrasos salariais até 28 de agosto, mas os atletas preferiram fazer suas próprias demandas. Segundo Felipe Rino, advogado do elenco, eles desejavam outro acordo simultâneo. Queriam assinar um novo termo de compromisso afirmando que, se a gestão não pagasse os salários até a próxima semana, o presidente Claudio Honigman (também cabeça da Elephant) deveria renunciar. A proposta não foi aceita pela diretoria-executiva e, por isso mesmo, a ameaça de W.O. se reforçou. O episódio em Cuiabá deixa a falta de diálogo mais exposta e aumenta os atritos internos.

Há um risco evidente ao Figueirense. Por mais que o clube ocupe o 13° lugar na Série B, a três pontos da zona de rebaixamento, o Furacão soma oito partidas sem vitória e três derrotas consecutivas. Pior, outro W.O. significaria a exclusão automática dos catarinenses no torneio e o rebaixamento à terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Há uma mancha que fica, dentro de uma crise histórica, que fere o orgulho dos torcedores e o próprio passado da instituição.

Por outro lado, é preciso reconhecer a luta legítima dos jogadores. Eles são a ponta do iceberg de uma situação complicada que também afeta os demais funcionários, mas aproveitaram a visibilidade que têm em campo para expor as suas demandas de uma maneira bem mais ampla. Durante o desembarque na volta a Santa Catarina, a delegação do Figueira foi recebida por torcedores no aeroporto e aplaudida pelo ato corajoso, independentemente da maneira como a ausência pode prejudicar o clube na Segundona. Muito mais prejudicial, e não só ao clube, são os desdobramentos da má gestão.

Os jogadores estão em seu direito como trabalhadores. Reivindicam não apenas o que é justo, mas aquilo que é uma obrigação assinada em contrato pela gestão. Parte deles não recebe os seus direitos de imagem desde maio (que equivalem a 65% do rendimento líquido de cada um), assim como o salário referente a julho ainda não caiu a todos os funcionários alvinegros e também aos garotos das categorias de base. Além do mais, a Elephant não depositou salários referentes a contratos anteriores de atletas que seguem no elenco, alguns deles com até sete meses a receber. Também há problemas no recolhimento do FGTS, o que levou o goleiro Denis a rescindir seu contrato três semanas atrás. A própria Lei Pelé resguarda os futebolistas, caso não se apresentem a uma competição por estarem com dois ou mais meses de salários, direitos de imagem ou depósitos do FGTS atrasados. Só que a paralisação pode gerar outros entraves internos.

Após o desembarque em Florianópolis, os jogadores seguiram direto ao estádio Orlando Scarpelli. Reuniram-se e aguardam as próximas cenas para definir seus passos. Segundo o Globo Esporte, existe até mesmo o temor de uma demissão em massa, após circular uma informação extraoficial de que a diretoria-executiva do Furacão poderia dispensar todos os atletas e buscar empréstimos para a sequência da Série B. Desta maneira, restaria a eles lutar pelos salários atrasados na justiça.

“Chegou pela imprensa essa informação, mas não há nada concreto. A gente não espera muita coisa diferente disso”, declarou o capitão Zé Antônio, que atua como porta-voz do grupo neste momento. “As pessoas julgam, apontam o dedo, fazem retaliações, incitam violência, como alguns estão fazendo em redes sociais, mas a gente está aqui porque não tem nada para esconder. Aqui tem homens, pais de família. Tudo que quiserem saber da minha parte, é um livro aberto”.

As repercussões

Obviamente, o protesto dos jogadores do Figueirense gerou uma série de repercussões e posicionamentos oficiais dentro do clube. Antes da partida, o Conselho Administrativo do Figueirense deu razão ao atletas e cobrou a Elephant, responsável pela direção-executiva do futebol. A chamada Associação Figueirense Futebol Clube, composta por conselheiros, se solidarizou com os futebolistas – enquanto reiterava a confiança de que continuariam honrando a camisa do Figueira, em respeito ao compromisso profissional e à torcida alvinegra.

“A Associação reconhece e se solidariza com atletas e funcionários que reclamam o pagamento de um mês de salário e dois meses de direitos de imagem, além de pendências pontuais para alguns jogadores. A Associação também esclarece a todos que, de acordo com o referido Termo de Compromisso, a primeira parcela de investimentos deverá ocorrer até o final deste mês, sob pena de rescisão dos acordos firmados”, ressaltou o Conselho Administrativo.

A diretoria-executiva do Figueirense, por sua vez, tratou de indicar a posição unilateral dos atletas. Em comunicado publicado logo após o W.O., a gestão ligada à Elephant se eximiu das responsabilidades pela derrota por 3 a 0. “O Figueirense Futebol Clube comunica que a decisão de promover o W.O. na partida da Série B do Campeonato Brasileiro desta terça-feira, 20 de agosto, contra o Cuiabá, em Mato Grosso, é exclusiva dos jogadores profissionais relacionados para o confronto. Vale ressaltar que a comissão técnica se apresentou normalmente para a disputa e o setor de logística do Alvinegro promoveu todos os procedimentos prévios para entrada em campo dos atletas”, escreveu o clube.

O posicionamento do Figueirense incomodou os jogadores. Nesta quarta-feira, eles também assinaram uma nota oficial, na qual explicam a sua visão sobre o protesto e indicam a falta de comprometimento da direção no pagamento dos salários. Segundo o elenco, não há abertura suficiente ao diálogo com a Elephant e a atual gestão do Furacão. Os futebolistas afirmam que não foram procurados pela diretoria de sexta até a tarde de terça, sem qualquer conversa ou proposta de solução. Apenas o Conselho Deliberativo os contatou.

Ainda conforme o relato publicado na carta dos jogadores, o diálogo só foi aberto com o departamento jurídico alvinegro uma hora antes do pontapé inicial contra o Cuiabá. Por conta disso, o time aceitou se dirigir ao estádio e aguardava o contato de alguém da diretoria-executiva. Concordavam receber os salários atrasados até 28 de agosto, desde que o presidente Claudio Honigman se comprometesse a renunciar em caso de calote. Como a gestão foi taxativa ao se recusar o trato, o W.O. se concretizou.

“Em repúdio à nota oficial do Figueirense, informamos que os únicos culpados pelo W.O são os diretores do clube, que além de não se comprometerem com os contratos assumidos, não abriram nenhum diálogo conosco durante todo esse tempo, não procuraram nenhuma forma de acordo. Apenas queriam que entrássemos em campo em troca de promessas. Promessas que já são descumpridas desde 2017”, descreve a nota. “O clube não se comprometeu com nada. Nenhuma das nossas exigências foram cumpridas. E estas eram as mais simples possível”.

Citado na carta, o presidente do Conselho Deliberativo do Figueirense também analisou que os jogadores possuem sua parcela de culpa. Em entrevista à Rádio CBN Diário, Chiquinho de Assis avalia que a intransigência é mútua, não apenas da diretoria-executiva. “É um jogo político. Há um radicalismo no posicionamento e isso nos preocupa bastante. A instituição está em segundo plano. Agora é preciso ter a cabeça fria e pés no chão e saber os próximos passos”, afirmou. “Os jogadores se precipitaram. Se há um calendário, um cronograma e temos uma sequência de jogos… se fosse para fazer um protesto e tomar essa atitude, ao menos deveriam esperar o compromisso firmado. Sabemos que a empresa tentou pagar. Mas eles exigiram a renúncia do presidente”.

A Elephant e o repetitivo descaso

Em agosto de 2017, o Figueirense firmou seu acordo com a Elephant S.A. e transferiu a direção-executiva do futebol alvinegro à nova empresa. O projeto prometia levar o Furacão a um novo patamar, através do pagamento das dívidas do clube, da injeção de dinheiro no elenco e da atratividade a novos investidores. Não foi bem isso o que aconteceu. Além do rendimento esportivo insatisfatório, com a ameaça de queda à Série C nas duas últimas temporadas, a gestão deixou de honrar os seus compromissos e os atrasos salariais se tornaram rotina aos funcionários já a partir de 2017. Não se notava a prometida “racionalidade empresarial” na condução da agremiação.

Uma figura frequente nos bastidores do Figueirense desde 2017 é a de Claudio Honigman. Inicialmente, ele seria apenas um investidor ou um sócio da Elephant, algo negado publicamente. Aos poucos, sua sombra aumentou sobre o Orlando Scarpelli e, depois de se tornar diretor de marketing, virou presidente em dezembro de 2018. A princípio, Honigman seria um nome forte para segurar as rédeas do Furacão em meio à crise financeira, com imbróglios judiciais encadeados e pressão pelos atrasos salariais. Virou o protagonista do mar de lama que toma os alvinegros.

Honigman não possui a reputação mais ilibada, digamos assim. Com carreira no mercado financeiro e no marketing esportivo, o carioca não tinha qualquer relação com o Figueirense antes da chegada da Elephant ao Orlando Scarpelli. Seu passado no futebol sempre esteve ligado a Ricardo Teixeira, seu parceiro por anos e com quem teve negócios, assim com também possui laços com Sandro Rosell, que foi diretor da Nike no Brasil antes de presidir o Barcelona. Ao lado de seus “amigos”, Honigman é acusado pela movimentação de milhões através de uma empresa de fachada. Também participava da venda de partidas da seleção brasileira. Esteve envolvido no famoso Brasil 6×2 Portugal de Brasília, investigado de fraude nos contratos. Na época da nomeação do cartola, o Figueirense chegou a publicar uma nota oficial garantindo que o dirigente “não tinha pendências na justiça”. Entretanto, o próprio histórico já deveria deixar uma pulga atrás da orelha.

Os oito meses de Honigman à frente do Figueirense não garantiram qualquer estabilidade ao clube. Em maio, o Conselho Administrativo (que, vale ressaltar outra vez, é independente da Elephant) notificou a direção-executiva sobre o descumprimento das cláusulas do acordo assinado em agosto de 2017. Foi então que a Elephant fechou o novo termo de compromisso, no final de julho, para esclarecer seus processos e estabelecer prazos aos pagamentos. A gestão apenas botou no cronograma aquilo que já deveria estar acontecendo e não era realizado, sob o risco de ter o vínculo rompido diante de novos problemas. O prazo para que este termo de compromisso comece a se concretizar é justamente o final de agosto.

Mesmo após a ação inicial do Conselho Administrativo, o Figueirense encarou outras turbulências. Isso inclui os dois protestos dos jogadores, em julho e agora em agosto, assim como a saída de funcionários do clube – incluindo o goleiro Denis e o técnico Hemerson Maria, que expôs publicamente parte dos problemas internos alvinegros quando pediu demissão. Antigo ídolo do clube, Fernandes também se desligou da direção em maio. Alegou não acreditar mais no projeto encabeçado pela Elephant no Orlando Scarpelli, com dívidas aumentando e colaboradores demitidos sem receber nada. “A minha responsabilidade sempre foi e sempre será com a torcida e com o Figueirense Futebol Clube. Não vou me ausentar e quero ajudar muito para ver um Figueirense melhor”, afirmou na época.

O Figueirense está no olho do furacão. Sua crise é a prova cabal de que, embora uma gestão mais racional seja necessária aos clubes brasileiros, a chegada de investidores privados cheios de promessas não vai realizar melhorias por osmose. Há até mesmo uma relação asséptica que se construiu com a Elephant, sem se importar com a torcida e com os funcionários. E a maior ameaça se concentra ao próprio clube, que por ora deve enfrentar meses complicados para se segurar na Série B. O rebaixamento significaria um encolhimento maior das finanças e do próprio calendário do Figueira. A preocupação é óbvia àquilo que pode muito bem se tornar uma bola de neve.

Enquanto isso, os jogadores se posicionam. A situação se arrasta há dois anos e a falta de paciência do elenco é plenamente compreensível. Brigam não só àquilo que os pertence, mas também às necessidades dos funcionários que são muito mais dependentes de seus salários. Erguem a voz a um problema que tantas vezes se repete no futebol brasileiro, mas que raramente recebe um necessário e contundente enfrentamento. O imbróglio tende a se arrastar e a proteção aos funcionários é mínima, especialmente diante do risco de demissão dos atletas.

Ainda mais por isso, a coragem dos alvinegros é digna de aplausos. E fica a esperança de que se torne uma semente a outros elencos que desejem se portar da mesma maneira por seus direitos. Se há uma certa conivência das entidades e até mesmo dos governos com a má gestão dos clubes, é importante que os prejudicados quebrem o silêncio. Assim, é possível pressionar por mudanças mais expressivas e, sobretudo, que tenham efeito prático. Os jogadores do Figueira deram um exemplo fortíssimo nesta terça.