Poucos lugares do mundo possuem arquibancadas tão inflamadas quanto o norte da África. E não é uma mera questão do fanatismo ou dos espetáculos produzidos pelas torcidas na região. Há também um engajamento político grande, em que discutem questões não apenas de interesse futebolístico, mas também geral. E um sinal contundente desta postura veio do Ittihad Tanger, clube que tem feito boas campanhas no Campeonato Marroquino. Os torcedores emprestaram sua voz para criticar o governo do Marrocos, uma monarquia constitucional.

A tradução é da página Middle East Eye. Durante uma partida do campeonato local, os ultras do Ittihad apontaram para a corrupção do governo e a desigualdade social existente no país. Criticaram os gastos públicos com um show da cantora Shakira, enquanto a população passa por necessidades básicas. Além disso, também afirmaram como a difícil situação leva muitas pessoas a atravessarem o Mediterrâneo rumo à Europa como imigrantes ilegais, em busca de melhores condições de vida.

“Esta é uma terra de humilhação e lágrimas foram derramadas aqui. A vida é amarga, as pessoas não mentiram quando disseram que o governo nos mata com promessas vazias. Não vimos nada neste país. Eles deram um milhão para Shakira no festival de Mawazine. Nossas demandas são pequenas. Vocês nos queimam com os preços inflacionados. Por Deus, é uma grande máfia. Todo mundo se tornou um trapaceiro. Nos bairros, as pessoas pobres formam filas, uma vela nos dá luz, nossa única água vem de torneiras comunitárias. E eles riem da gente, com nosso dinheiro compram mansões. Nos leve em um barco, nos salve da terra deles”, cantam.

Vale lembrar que, no norte da África, diferentes grupos de torcedores tiveram papéis centrais na Primavera Árabe. A organização dos ultras foi importante nas revoltas contra os governos em países como Tunísia e Egito – o que também gerou represálias posteriores. A insatisfação permanece.