Foi um jogo extremamente tenso, como há de ser um Gre-Nal, e ainda mais um Gre-Nal valendo taça. Não faltaram as emoções além das quatro linhas, com técnicos expulsos, jogadores no banco recebendo cartão e outros atritos. Infelizmente, houve até espaço para a desnecessária polêmica de arbitragem, quando o VAR acaba conduzido sem a necessária competência. E, apesar da ausência de um futebol vistoso, a final do Gauchão esteve repleta de taquicardia. O Internacional parecia pronto a frustrar a Arena, sobretudo depois que Marcelo Lomba pegou o pênalti de André. O empate por 0 a 0, repetindo o placar do Beira-Rio, forçava a disputa na marca da cal. Mas, em uma reviravolta também de heróis e vilões, Paulo Victor botou a capa durante os penais. O goleiro gremista defendeu três cobranças. Permitiu ao próprio André, transformando seu destino, confirmar o título do Grêmio com o triunfo por 3 a 2. Não havia como estragar a festa tricolor, diante de uma torcida exultante nas arquibancadas abarrotadas.

Desde os primeiros minutos, o Gre-Nal reuniu os diferentes elementos que geralmente se veem em um clássico desta dimensão. Teve bate-boca, entradas duras, catimba. E o VAR não demorou a se tornar protagonista, anulando o gol de André. A decisão acertada, porém, demorou demais a ser tomada, já indicando problemas na condução da tecnologia. Todavia, se as chances de gol rareavam, Paulo Victor não demoraria a surgir como um potencial personagem. No melhor lance dos primeiros 45 minutos, Paolo Guerrero desferiu uma cabeçada perigosíssima. Seria um tento para o peruano cair ainda mais nas graças da torcida colorada. Seria, porque o goleiro do Grêmio realizou uma defesa magnífica. Saltou e, com a ponta dos dedos, evitou o pior aos tricolores. Se Kannemann engrossava a marcação de Guerrero, no mínimo espaço o peruano quase decidiu. Parou no propenso herói gremista.

As defesas prevaleceram num primeiro tempo de muito contato físico e lances ríspidos. Moledo e Geromel eram raros que mereciam menções honrosas por suas atuações. Não seria tão diferente na etapa complementar. Paulo Victor voltaria a ser testado, evitando um golaço de Edenílson. E até parecia que Luan se transformaria em salvador. De volta ao time, o atacante saiu do banco de reservas durante o segundo tempo, provocando estardalhaço nas arquibancadas da Arena. Não seria tão efetivo, mas provou como a idolatria permanece. Quem chamou os holofotes no Gre-Nal, entretanto, vestia vermelho. Marcelo Lomba salvou a pele do Internacional e, por tabela, da equipe de arbitragem. Com recomendação do VAR, o árbitro Jean Pierre Lima foi ao vídeo analisar uma possível jogada de pênalti em Cortês. A revisão do lance deixa evidente que o puxão no calção do gremista não foi suficiente à sua queda. Não foi isso que o juiz viu, confirmando uma marcação pra lá de discutível.

O sentimento de revolta tomou os jogadores do Inter. D’Alessandro foi expulso no banco de reservas, ao reclamar bastante com o quarto árbitro. Odair Hellmann precisou ser escoltado pela brigada militar. Mas Lomba evitou um debate maior sobre o lance, ao defender a cobrança de André. Saltou no canto certo e manteve o placar zerado. Tudo estava aberto no Gre-Nal de nervos afloradíssimos. O clássico seguiu arrastado, até os nove minutos de acréscimos ampliados pela confusão. O Grêmio poderia ter garantido a vitória aí, com Everton chamando a responsabilidade. O chute colocado saiu raspando, a bomba explodiu na trave. Os aplausos pelo título não seriam do atacante. E caberia aos tricolores encararem outra vez Lomba na marca da cal, certamente sentindo um peso maior sobre os ombros diante de sua torcida.

Mas a multidão que espera a vitória também é a que apoia incessantemente. Desta vez, ela sorriu. Ela comemorou a estrela de Paulo Victor, reconhecido especialista em pênaltis. O goleiro antecipou as suas escolhas e quase sempre deu um passo ao lado antes que os batedores acertassem a bola. Os colorados, porém, tiveram pressa na hora de cobrar. Preferiram baixar a cabeça e encher o pé no canto, em vez de analisar a movimentação do goleiro. Camilo, Cuesta e Nico López pararam em suas mãos. Apenas Rafael Sóbis (mostrando a língua, em provocativa comemoração) e Guerrero converteram ao Inter.

Não que a precisão do Grêmio fosse muito melhor. Everton, do quase no tempo normal, isolou por cima do travessão. Lomba voltou a acertar o canto na tentativa de Michel. E ainda triscou nos chutes Tardelli e Matheus Henrique, que entraram. Por centímetros, não confirmou-se como o nome deste Gre-Nal. Não teve a firmeza de Paulo Victor. E, já que os colorados começaram chutando, depois de três erros para um lado e dois a outro, coube ao quinto batedor gremista fechar o duelo. Coube justamente a André, por ordem de Renato. Incrivelmente, sem se abater pela falha anterior, o centroavante foi o melhor cobrador entre os tricolores. Demonstrou uma frieza impressionante, ao caminhar e olhar nos olhos de Lomba. O goleiro preferiu cair para o lado esquerdo, o mesmo do primeiro penal. Calmamente, André rolou a bola para a outra direção, beijando a bochecha na trave. Ao lado de Paulo Victor, ganhou o direito de fazer a Arena pulsar com a conquista.

O Grêmio tem consciência que o Gauchão representa apenas um prazer, mesmo que a campanha tenha sido louvável. Foram 17 jogos de invencibilidade, com 38 gols marcados e um mísero sofrido. O objetivo do clube, de qualquer forma, é avançar na Copa Libertadores. Não pode deixar que a euforia pela vitória no clássico atrapalhe a concentração rumo a dois jogos difíceis, por mais que a equipe só dependa de si no torneio continental. Mas também tem todo o direito de festejar uma vitória como esta, sobre os maiores rivais, da forma como aconteceu, com este grau de emoção. Se o peso dos estaduais é mínimo para determinar o sucesso de um time, o gosto pela flauta contra os colorados não diminui. É por isso que a Arena encheu esperando a taça e terminou a noite ensandecida. Paulo Victor e André serão os nomes óbvios para as lembranças deste triunfo. Heróis e vilões podem mudar ao longo de 90 minutos. E uma disputa por pênaltis sempre abre a porta a grandes histórias.