Uma das partidas de futebol mais espetaculares do ano aconteceu nesta quarta-feira em Londres, no White Hart Lane, estádio do Tottenham Hotspur. A equipe comemorava seu 125º aniversário, e saiu na frente do Aston Villa aos 20 minutos de jogo, com um gol de Berbatov. Vinte minutos e várias falhas do goleiro Paul Robinson depois, porém, a partida já estava 3 a 1 para os visitantes, que ampliaram aos 14 do segundo tempo.

A partir daí, operou-se uma das mas fantásticas reações dos últimos tempos no futebol – considerando que do outro lado estava um time de futebol, e não o Botafogo. Aos 24, o lateral Chimbonda diminuiu. Até aí, normal. O problema é que, aos 37, o atacante Harewood cometeu um pênalti infantil, convertido por Keane. O mais incrível aconteceu já nos descontos: depois de uma confusão na área, o zagueiro Kaboul aproveitou o rebote para encher o pé e empatar a partida. Uma reação épica. Que, entretanto, não ajudou a tirar a equipe da zona do rebaixamento.

Quem acompanha o futebol inglês sabe disso, e até guarda pra impressionar os amigos na mesa do bar. Para quem ainda acha que o futebol da Inglaterra é só chutão, porém, pode surpreender saber que o grande clássico londrino não envolva o Chelsea, mas sim Arsenal e Tottenham, os dois rivais do norte da cidade. Embora não vença o rival desde 1999 – e na casa do adversário desde 1993 –, os Spurs ainda são o rival mais odiado pelos Gunners. A equipe é tradicional: tem dois títulos ingleses, além de oito FA Cups, três League Cups, e duas Copas Uefa, ganhas na época em que a competição era disputada pelos vice-campeões nacionais. O único problema é que o último desses títulos foi a League Cup de 1999.

Pensando nisso, em 2004, depois de muitos anos orbitando na região mediana da tabela, a direção da equipe resolveu dar um passo ambicioso, e anunciou, antes da Eurocopa, a contratação de Jacques Santini, naquele momento ninguém menos que o técnico da seleção campeã do mundo. Foi um desastre. Santini deixou a equipe semanas depois do início da temporada, e foi substituído por Martin Jol, então seu auxiliar. A temporada de estréia de Jol ainda foi medíocre e a equipe só começou a acreditar de novo que era grande ao ficar em 5º nas duas últimas temporadas – em 2006, a vaga para a LC foi perdida na última rodada.

Só que o início da atual temporada não trouxe boas notícias para os Spurs. A equipe foi derrotada quatro vezes e empatou outras três nas oito primeiras partidas, provocando rumores aparentemente fundamentados de que a direção da equipe havia perdido a paciência com Jol. Segundo relatos da imprensa inglesa, o holandês só não foi substituído porque Juande Ramos, candidato mais forte ao seu posto, não quis deixar o Sevilla no início da temporada – ele teria que trocar a disputa da LC pela da Copa Uefa, que já conquistou com a equipe espanhola por duas vezes.

Uma olhada rápida pelo elenco e pelos valores gastos pelos Spurs em transferências no ano pode justificar uma perseguição ao treinador. O Tottenham tem em seu grupo uma boa parte dos melhores talentos da nova geração inglesa, com Bale, Jenas, Lennon, Huddlestone, Dawson e Bent. isso para não falar de jogadores relativamente “consagrados”, como Robbie Keane, Jermaine Defoe, Berbatov e Paul Robinson. Boa parte deles, porém, começou a temporada no estaleiro. Além disso, fala-se na Inglaterra que Jol não opina nas contratações, e que seria obrigado a aceitar jogadores que não pediu, como o meio-campista Zokora, ao invés de ter reforços nas posições em que a equipe é carente – apesar de ter três meias para jogar pela direita, não há nenhum disponível para jogar do lado oposto.

Outro dado importante é o tamanho da folha de pagamento do time, equivalente a mais ou menos a metade da de Chelsea e Manchester United, e bem menor também do que as de Arsenal e Liverpool. Ou seja: a direção quer entrar para os “quatro grandes”, mas não parece disposta a gastar para isso.

Enquanto o Tottenham perdia a partida, nem a mãe de Martin Jol apostaria um cruzeiro pela manutenção do filho no cargo. A reação da equipe, entretanto, mostrou que os jogadores apóiam o holandês. Além disso, a partida foi do tipo que pode mudar uma temporada. A continuidade de Jol no comando depende muito ainda de seus próximos resultados, que podem ser melhores por causa da confiança conquistada na partida diante do Villa. No final da temporada, entretanto, se ainda estiver por lá, só resistirá se conseguir dar o chamado “próximo passo”: chegar à Liga dos Campeões. O que, hoje, parece impossível. Resta saber se Jol é culpado por não conseguir. Ou simplesmente por fazer a direção achar que era possível.

E a pressão continua

O empate sem gols com o Fulham talvez não seja o resultado mais vergonhoso do mundo para o Chelsea, mas indica claramente o tamanho do buraco deixado por José Mourinho. Sem o português, nem o time megaestelar de Stamford Bridge tem como segurar a onda na Premier League.

Avram Grant, o substituto de Mourinho importado da seleção israelense, chegou com um discurso ‘low-profile’, mas não deve adiantar muito. Parece claro que a sua autoridade não vai se impor sobre jogadores que têm como atuar em qualquer parte do mundo e não se vê no israelense também nenhuma capacidade tática que faça uma torcida suspirar.

A realidade é que o Chelsea passou de favorito a uma grande interrogação. O clube sofrerá um êxodo liderado por Drogba em janeiro? Transformar-se-á em um time irregular? Contratará um nome de peso (como Capello ou Lippi) para retomar o rumo imediatamente? Ninguém sabe. E dependendo do que acontecer em Stamford Bridge, os próprios destinos da Premier League podem ser alterados.

O colunista Tomaz Alves retorna na semana que vem