Ninguém pode se dizer surpreso com a nota publicada pelo Real Madrid, nesta segunda-feira, anunciando que Julen Lopetegui foi demitido. O treinador balançava no cargo, depois de uma sequência ruim de resultados, quando enfrentou o Barcelona, no último domingo, e levou 5 a 1. Sua passagem pelo Santiago Bernabéu durou três meses, com 14 partidas e seis derrotas. Santiago Solari comandará a equipe provisoriamente.

A contratação de Lopetegui ganhou muita repercussão por ter sido anunciada na semana da abertura da Copa do Mundo. O ex-goleiro comandava a seleção espanhola e acabou demitido, às vésperas da estreia. Os dirigentes da federação sentiram-se traídos pela maneira como ele conduziu a proposta merengue. E, no final das contas, esse caso acabou sendo ruim para todas as partes envolvidas.

Começando, claro, por Lopetegui. Embora não pudesse prever a reação dos dirigentes espanhóis, a decisão que tomou acabou sendo muito ruim. Enterrou seu sonho de comandar a Espanha em uma Copa do Mundo, com potencial de chegar longe, em troca de três meses tumultuados no Bernabéu. A renovação que precisa ser feita no Real Madrid, com as saídas de Zidane e Cristiano Ronaldo, seria difícil para qualquer um.

Lesões, como a de Isco, aprofundaram o desafio, mas a passagem de Lopetegui foi um desastre. Foram quatro jogos seguidos sem fazer um gol, apenas uma vitória nas últimas sete partidas, contra o fraco Viktoria Plzen, e o time se encontra na nona posição do Campeonato Espanhol. A sequência ruim começou uma lavada do Sevilla, fazendo 3 a 0 no primeiro tempo, e terminou com a gota d’água, no último domingo, no Camp Nou.

Se o clássico era a última chance de Lopetegui salvar seu emprego, o resultado não poderia ter sido pior. Se a saída da Espanha para o Real Madrid era um trampolim para que o treinador se colocasse na primeira prateleira da Europa, o resultado foi pior ainda. Além dos desgastes pela maneira como saiu da seleção, ele acabou sendo o treinador com passagem mais curta pelo Bernabéu desde José Antonio Camacho, em 2004.

Lopetegui agora precisa reconstruir a sua imagem. E o Real Madrid, o seu time. O treinador escolhido não se mostrou à altura do desafio, nem valeu a pena a briga comprada com a federação e com os torcedores da seleção para contratá-lo. Agora, ficará alguns jogos com Solari enquanto busca a contratação de um novo treinador ou pondera se o interino merece uma promoção. De qualquer maneira, a construção de uma nova equipe foi atrasada, e estão em risco os objetivos desta temporada.

A seleção espanhola também se deu mal com a situação. A equipe chegou à Copa do Mundo como uma das favoritas e até começou bem, mas ficou claro que Fernando Hierro não conseguiu conduzir o time da mesma maneira como faria o homem que idealizou os treinos e as estratégias para o torneio. Exibições na Liga das Nações, como a goleada contra a Croácia, semifinalista da Copa, indicam também que, sem o tumulto de Lopetegui, a Espanha poderia ter chegado mais longe na Rússia.

Periodicamente, o Real Madrid passa por momentos assim. É um clube com alto nível de exigência que concede poucos espaços para derrotas. Mas ciclos sempre terminam e a formação de uma nova equipe requer um pouco de paciência. Nesse sentido, os merengues são bem brasileiros: a paciência dura muito pouco, como Lopetegui acabou descobrindo a pior maneira.