Muito se falou da renovação do Uruguai, com um elenco mais equilibrado para a Copa do Mundo. A diferença está principalmente no meio-campo, onde jogadores como De Arrascaeta, Bentacur, Vecino e Torreira acrescentam mais refinamento ao toque de bola do que os compatriotas que ocuparam o setor em outros Mundiais. Tudo isso continua sendo verdade, mas velhos hábitos são duros na queda. O Uruguai tentou envolver o Egito, teve muito mais posse do que o adversário, mas não conseguiu criar muitas oportunidades, em que pese o dia ruim de Suárez para definir as poucas que surgiram. No fim das contas, a vitória por 1 a 0, em Ecaterimburgo, saiu ao velho estilo: pressão, abafa e bola parada. 

Dupla personalidade

Esperava-se que o Uruguai trabalhasse melhor a bola, em vez de recorrer apenas àquele estilo de jogo de imposição física e lançamentos para os dois homens de frente. Mas a sensação que ele passou foi a de que os jogadores sul-americanos precisavam se lembrar da nova maneira de atuar. Quando não se esforçavam nesse sentido, o piloto automático acionava a estratégia antiga. Tanto que a posse de bola balançou a favor dos uruguaios apenas a partir da metade da primeira etapa, e Godín sentiu a necessidade de avançar com frequência ao meio-campo para ajudar com a armação. Apesar de 57% de bola no pé tempo inicial, o Uruguai acertou apenas um chute a gol, de fora da área, sem problemas para o goleiro El Shenawy. Depois do intervalo, Tabárez trocou Nandéz e Arrascaeta por Sánchez e Cristian Rodríguez, dois jogadores de mais força física do que de passe refinado. Conseguiu melhorar a criação, mais oportunidades surgiram, mas, no fim das contas, o gol da vitória saiu no velho estilo: cobrança de falta pela direita, e Giménez subiu mais do que todo mundo para cabecear para o fundo das redes. 

O contraste dos atacantes

Luis Suárez não pode reclamar. Teve muitas oportunidades para abrir o placar, pelo menos três muito boas, e foi mal na hora de definir – sua especialidade. Todas surgiram de jogadas de Cavani. Seu chute diagonal de perna esquerda resultou no escanteio que encontrou Suárez, livre, na segunda trave. O atacante do Barcelona bateu reto, para fora. Suárez recebeu o passe do companheiro de ataque, ganhou no corpo e ficou cara a cara com El Shenawy, que fez uma grande defesa. De pé em pé, a bola chegou para Suárez na pequena área. Em vez de bater de bico ou com a canhota, como costuma fazer, tentou driblar o goleiro, sem espaço para isso, e foi desarmado. Quando os papéis se inverteram, Suárez escorou para Cavani bater de fora da área. Outra boa defesa de El Shenawy. O jogador do Paris Saint-Germain ainda carimbou a trave, em uma cobrança de falta, e foi um dos melhores em campo. Suárez, o pior. 

Egito deu bons sinais

A partida do Egito foi interessante. Defendeu-se bem – o Uruguai teve chances, mas quantas zagas anulam um ataque como Cavani e Suárez? – e se mostrou organizado. Tanto na compactação quanto na saída de bola. Os jogadores têm bons passes e conseguem chegar ao outro lado da cancha. O problema esteve na hora da criação de jogadas e nas decisões tomadas nos contra-ataques. Talvez pela ausência de Salah, que seria o destino automático das transições, o Egito chegava com velocidade à entrada da área do Uruguai, mas, em vez de espetar o adversário, buscar a jogada aguda, tocava de lado, trabalhava, e permitia que o adversário se reposicionasse. Com o jogador do Liverpool em campo, a história poderia ter sido diferente, nos momentos em que a partida mais esteve equilibrada. Mas deu bons sinais de que pode vencer a Arábia Saudita sem problemas e decidir a vaga nas oitavas contra a Rússia. 

Ô dó

Aos 40 minutos, Amr Warda, o substituto de Salah no time do Egito, tentou uma bicicleta e espatifou as costas no chão. E ficou lá estendido por um bom tempo. O árbitro precisou interromper a partida para tratar o jogador egípcio que, por sorte, não precisou encerrar mais cedo sua estreia em Copas do Mundo por causa deste insólito acidente. 

Ficha técnica

Egito 0 × 1 Uruguai

Local: Arena Ecaterimburgo, em Ecaterimburgo (RUS)
Árbitro: Bjorn Kuipers (HOL)
Gols: José Giménez, aos 44’/2T (URU)
Cartões amarelos: Ahmed Hegazy (EGI)

Egito: El Shenawy; Ahmed Fathi, Ali Gabr, Ahmed Hegazy e Abdel-Shafy; Elneny, Tarek Hamed (Sam Morsy), Amr Warda Ramadan Sobhi), Abdallah Said e Trezeguet; Marwan Mohsen (Kahraba). Técnico: Héctor Cúper

Uruguai: Muslera; Varela, Godín, Giménez e Cáceres; Bentacur, Vecino (Torreira), Nández (Carlos Sánchez) e De Arrascaeta (Cristian Rodríguez); Suárez e Cavani. Técnico: Óscar Tabárez


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