Todos os anos, 27 de janeiro marca o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto. Nesta mesma data, em 1945, as tropas soviéticas libertaram os prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz. O dia foi instituído posteriormente pela Organização das Nações Unidas, para que seus países enfatizassem a história do genocídio cometido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial – sobretudo contra judeus, mas não apenas. A mensagem é retransmitida neste domingo por clubes de diferentes cantos do mundo, enquanto a Bundesliga realiza uma ação coletiva. Nesta rodada, antes de cada jogo, os jogadores posam em campo com um faixa escrita “#WeRemember”. Os torcedores do Bayern de Munique, ainda assim, resolveram promover uma conscientização mais contundente. Aqueles que foram à Allianz Arena para o duelo contra o Stuttgart ganharam um folheto sobre o assunto.

O projeto vai além da lembrança do Holocausto, afinal. É uma referência à própria história do clube. No panfleto, os criadores da iniciativa citam o nome de 104 membros do Bayern que foram perseguidos pelos nazistas. “Atualmente, sabemos que 104 dos cerca de 1050 membros que o Bayern tinha na época foram privados de seus direitos, perseguidos, expulsos ou mortos entre 1933 e 1945, por causa de suas origens judaicas ou por razões políticas”, afirma o material. Há os nomes de 27 pessoas assassinadas, oito que faleceram durante a ditadura nazista, nove desaparecidos, quatro que se suicidaram, quatro que sobreviveram na Alemanha e 52 que precisaram se exilar em outros países. Entre os sobreviventes, o único a permanecer vivo é Oskar Reiss, de 98 anos.

 

Tradicionalmente, o Bayern faz ações nas arquibancadas com referências às suas origens judaicas. O desenvolvimento do clube até a década de 1930 se deveu bastante à participação da comunidade hebraica em Munique. O clube conquistou o seu primeiro título no Campeonato Alemão em 1932, sob as ordens de Richard “Domby” Kohn. Nascido em Viena, ele era judeu e deixou a Alemanha meses após o feito, diante da ascensão do nazismo em 1933. Trabalhou ainda no Barcelona, no Basel e no Feyenoord. Já o craque da equipe era Oskar Rohr, que deixou a Alemanha em 1933 para atuar em outros países. Considerado “persona non grata” pelo Terceiro Reich, ele foi preso por “propaganda comunista” em Marselha. Chegou a ser enviado a um campo de concentração e, depois, ao front da guerra. Contudo, o seu passado no futebol o levou ao time de soldados e, assim, ele escaparia dos riscos, sobrevivendo ao conflito.

Já o principal personagem deste período no Bayern de Munique é Kurt Landauer. O judeu nascido na própria Baviera foi goleiro do segundo quadro do clube. Já entre 1913 e 1914, teve a sua primeira passagem como presidente. Deixou o cargo antes de lutar na Primeira Guerra Mundial pela Alemanha, recebendo condecorações militares. Em 1919, ele retornou ao comando do Bayern e permaneceria por lá inclusive na conquista do Campeonato Alemão de 1932. Porém, seria vítima da perseguição a partir da ascensão dos nazistas em 1933. Renunciou à presidência e perdeu o seu emprego no principal jornal local. Em 1938, ele seria enviado ao campo de concentração de Dachau. Foi liberado meses depois e, em maio de 1939, fugiu à Suíça. Quatro de seus irmãos acabaram assassinados pelo regime nazista.

Embora o Bayern tenha sido obrigado a se adaptar às determinações nazistas, após sofrer retaliações, os jogadores prestaram homenagem a Landauer durante um jogo em Zurique, realizado em 1940. O dirigente retornou a Munique em 1947 e reassumiu seu posto como presidente. Comandou o reerguimento do clube, incluindo a construção de seu centro de treinamentos em Säbener Strasse. Ficaria no cargo até 1951, falecendo dez anos depois. A praça onde está localizada a Allianz Arena se chama Kurt Landauer.  Além disso, nos últimos anos, a torcida bávara já realizou diferentes mosaicos com o rosto de Landauer. A lembrança que vai além de 27 de janeiro.


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