No ‘Dia de Drummond’, a força das palavras do escritor para traduzir a conquista da Copa de 58

O futebol foi uma paixão e um tema recorrente na literatura de Carlos Drummond de Andrade

Uma mente privilegiada para transformar em letras o turbilhão de pensamentos. É impossível percorrer a história do Brasil no século passado sem citar Carlos Drummond de Andrade. O escritor conseguia unir a leveza de suas palavras ao peso de suas ideias. E tratando com a mesma maestria os mais diferentes assuntos. A poesia serviu para consagrá-lo. Mas o mineiro de Itabira também se dava muito bem com a prosa. Foram anos escrevendo crônicas para alguns dos principais jornais do país. Falando, inclusive, de uma de suas paixões que também trazia para dentro da literatura: o futebol.

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Nesta segunda, é comemorado o Dia D: o dia do nascimento de Drummond. Se estivesse vivo, o escritor completaria 114 anos. E, para homenageá-lo, relembramos um de seus textos fantásticos sobre futebol. Foi publicado em 1° de julho de 1958, no Correio da Manhã, logo após a conquista da Copa do Mundo. Diz muito sobre o esporte, mas também sobre a sociedade brasileira – com algumas ideias que permanecem válidas ainda hoje. Confira:

Celebremos

A vitória do selecionado brasileiro na Suécia foi perfeita. Jogadores e técnicos abriram uma reta entre o ceticismo irônico do começo e a pura alegria nacional de domingo. Uma campanha metódica e segura fez o milagre. Quando partiram daqui, quem esperava a taça do mundo? Mas à proporção que se desenrolavam as partidas, um número cada vez maior de pessoas indiferentes ao esporte se ia identificando com a sorte deles, sentindo-se transportadas ao local da peleja e dela participantes, e no fim a confiança era tamanha que já não se afetaria com um mau resultado. Se perdêssemos, seria terrível, mas isso não abalaria a fé nos atletas, teria sido uma derrota individual nossa, imposta pelo capricho das coisas, injusta sem humilhação.

Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica. Indica valores morais e eugênicos, saúde de corpo e de espírito, poder de adaptação e de superação. Não se trata de esconder nossas carências, mas de mostrar como vêm sendo corrigidas, como se temperam com virtualidades que a educação irá desvendando, e de assinalar o avanço imenso que nossa gente vai alcançando na descoberta de si mesma.

Esses rapazes, em sua mistura de sangues e de áreas culturais, exprimem uma realidade humana e social que há trinta anos oferecia padrões menos lisonjeiros. Do Jeca Tatu de Monteiro Lobato ao esperto Garrincha e a esse fabuloso menino Pelé, o homem humilde do Brasil se libertou de muitas tristezas. Já tem caminhos abertos à sua frente e já sabe abri-los, por conta própria, quando não é assistido pelos serviços oficiais ou de classe a que cumpre melhorar as condições de vida coletiva. O futebol trouxe ao proletário urbano e rural a chave ao autoconhecimento, habilitando-o a uma ascensão a que o simples trabalho não dera ensejo.

Mas agora, vemos o futebol operando ou espelhando ainda maiores transformações, pois a conquista do campeonato mundial demonstrou a meu ver um maior entrosamento de forças sociais, a máquina burocrática do esporte deixando de operar suas porcas e parafusos de intriga, ambição e politicagem; consciência mais funda dos dirigentes; carta branca aos peritos para os trabalhos de formação e aprimoramento da equipe; e a contenção geral para evitar desbordamentos emocionais prévios, comprometedores do equilíbrio psíquico dos esportistas. Tudo isso, em termos de educação nacional, é confortador, e permite alongar a vista para mais longe do campo de jogo, dá à gente um certo prazer matinal de ser brasileiro, menos por haver conquistado a Taça Jules Rimet do que por havê-la merecido. Prazer límpido, sem xenofobia: é justamente por nos sentirmos iguais a outros povos capazes de vencer campeonato que nos despimos de pretensões de superioridade ou domínio político.

No mais, é celebrar como começamos a fazer ao primeiro gol e não sei quando acabaremos, que isso de sofrer rente ao rádio, vezes e vezes repetidas, embora de coração esperançoso ou por isso mesmo, exige expansão compensadora e farta, ai meu Deus, minha Nossa Senhora da Cancha, meu Senhor Bom Jesus do Tiro em Meta! Como deixar de lançar papeizinhos ao ar, sujando a cidade mas engrinaldando a alma, e de estourar bombas da mais pura felicidade e glória, mesmo que arrebentemos os próprios tímpanos, se não há jeito de reprimir a onda violenta de alegria que se alça até nos mais ignorantes do futebol, criando esse calor, essa luz de unanimidade boa, de amor coletivo, de gratidão à vida, que hoje nos irmana a todos?

Recomendo também a homenagem feita a Drummond pelo escritor André Ribeiro, no site Literatura na Arquibancada.