O dia 24 de novembro de 2018 entrou para a história do futebol sul-americano, mas da pior forma possível. A sequência de incidentes que vimos em Buenos Aires, protagonizada pelas autoridades argentinas e pela Conmebol – para não dizer também da Fifa – é das coisas mais absurdas que nós vimos no cambaleante futebol do continente. Começou com ataque ao ônibus do Boca Juniors, que teve vidros quebrados e jogadores feridos e passando mal por efeitos do gás de pimenta. Depois, o adiamento do jogo por duas vezes e uma imensa pressão para que o jogo acontecesse. Por fim, o adiamento, envergonhado.

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A começar pelo começo: as autoridades argentinas falharam. Falharam na logística da chegada do Boca Juniors ao estádio. Batedores em motos protegiam o ônibus do time visitante na chegada ao estádio Monumental de Núñez, mas ao chegar perto da entrada, faltou cuidado. O veículo passou no meio de milhares de torcedores do River Plate que agiram como animais e atiraram tudo que foi possível. As autoridades argentinas foram incompetentes, para dizer o mínimo, ao não se precaverem desse tipo de situação, que era bastante previsível.

“Sem dúvida houve uma falha na entrada do ônibus do Boca. Há pessoas detidas e estamos investigando porque esse cerco de segurança falhou e as consequências disso ligadas à torcidas organizadas”, afirmou o secretário de segurança da cidade de Buenos Aires, Marcelo D’Alessandro, depois do fatídico incidente com o ônibus do Boca Juniors. “Foram usadas as forças federais, com a polícia da cidade. Viemos de uma semana de trabalho intenso contra as máfias do futebol, a organizada do River não entrou no estádio”, justificou ainda o secretário. “Houve uma falha de segurança e foi aberto um sumário administrativo. Serão responsabilizados aqueles que tenham que cuidar disso”.

Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires (Photo by Adrian Farias/Getty Images)

Importante lembrarmos que o jogo teria torcida única. Na Argentina, desde 2013, os clássicos se jogam com torcida única. Uma medida que, segunda as autoridades e os clubes, visa segurança. Considerando que esta seja a razão, é uma admissão de incompetência total: significa que as autoridades desistem de tentar combater a violência que alertam ser o risco e, assim, tiram a possibilidade de termos duas torcidas. A eficácia dessa medida em termos de segurança é, no mínimo, muito discutível.

As razões de verdade para a torcida única passam bastante longe disso. Os clubes têm ambições econômicas e querem vender mais ingressos em jogos de alto interesses, como sempre são os clássicos. Não ter torcida visitante significa não precisar inutilizar parte dos lugares com policiais para separar as duas torcidas. Na prática, se lucra mais com o estádio com uma torcida só. Uma final de Libertadores com um clássico é o exemplo máximo disso: com os ingressos custando caro, é uma forma de poder lucrar o máximo possível. Portanto, a torcida única naquela que é chamada de a maior final da Libertadores de todos os tempos já era uma imensa derrota.

Só que a Conmebol entrou em cena para piorar ainda mais as coisas. Diante de fatos tão graves, com jogadores, segundo relatos, tendo que ir ao hospital, a insistência da entidade era para que o jogo fosse realizado, fosse como fosse. Um dos motivos? A presença do presidente da Fifa, Gianni Infantino, convidado de honra da Conmebol. Parecia haver pouca preocupação com os mais de 60 mil torcedores presentes no Estádio Monumental de Núñez, que esperaram por mais de quatro horas por um jogo que não aconteceu. Só se preocupava com a presença do presidente da Fifa, que teria a honra de entregar o troféu ao campeão.

Para não fazer uma desfeita, houve uma pressão enorme para que o jogo acontecesse. E isso ficou claro na fala de Carlos Tevez: “Não temos uma posição porque estão nos dizendo que temos que jogar. Se temos que fazer isso, faremos, mas o grupo não está em condições. Nos surpreendeu muito isso. Eu tive uma reação alérgica, subiu a pressão de alguns, a de outros baixou. Tiveram problemas de respiração. Faz horas que estamos esperando, assim é impossível”. Nas falas do atacante, também uma pressão porque a Fifa, representada na figura de Infantino, queria que o jogo acontecesse. E as duas entidades forçaram para que isso acontecesse.

O jornal Olé confirmou que houve uma primeira reunião com o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, com os presidentes dos clubes, Rodolfo D’Onofrio, do River, e Daniel Angelici, do Boca, que definiu o primeiro adiamento, de 17h para 18h de Buenos Aires (19h de Brasília). Mais tarde, houve nova reunião com os mesmos participantes a inclusão de um novo: Gianni Infantino, presidente da Fifa. Novo adiamento é definido. Uma terceira reunião acontece com mais um participante adicional: Claudio Tapia, presidente da AFA. Novo adiamento definido, para 19h45 (20h45 de Brasília). Foi anunciado aos repórteres no estádio, mas também não foi cumprido.

O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, então vem a público dizer que o jogo estava adiado para domingo, 17h (18h de Brasília). Em sua fala, fica claro: quem tomou essa decisão não foi a Conmebol, foram os clubes, depois de mais uma reunião dos dirigentes. “Estamos nesta situação por culpa de uns poucos vândalos que não entendem que futebol é paz. Se desnaturalizou o jogo. Um não quer jogar e o outro não quer ganhar nessas condições. Será amanhã às 17h, no Monumental. Assinado e confirmado pelas três partes”, disse Domínguez.

Um dos rumores era que o Boca Juniors tinha sido pressionado e ameaçado que se não entrasse em campo, seria punido com a perda dos pontos – e, portanto, do título. O clube já tinha admitido jogar, mas o River Plate entrou na questão. O técnico Marcelo Gallardo foi um ator importante nisso. Foi o treinador do River que se solidarizou com o Boca e não queria que o jogo fosse disputado. O técnico, segundo o Olé, teria lembrado do episódio da Libertadores 2015. Naquela ocasião, por uso de gás de pimenta da torcida do Boca na Bombonera contra jogadores do River, o jogo foi suspenso e o Boca acabou eliminado.

Pablo Pérez com um curativo no olho, deixa o estádio Monumental de Núñez (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)

Pablo Pérez foi ao hospital e voltou. Quando passava das 19h (horário de Buenos Aires, 20h de Brasília), surgiu a escalação dos clubes com o meio-campista surpreendentemente entre os titulares, depois de voltar do hospital. Minutos depois, a notícia que o jogo estaria suspenso. Em seguida, veio o anúncio nas palavras do presidente da Conmebol aos jornalistas.

“Havia um acordo entre os clubes, estavam em condições. Mas não querem jogar, e se fará amanhã. Quero felicitar a ambos os presidentes porque foi um ato de cavalheirismo. Nestas condições, se desnaturalizaria o jogo. Queremos que ganhe o melhor no campo, não vamos tolerar vândalos. Isso é futebol e os jogadores são seres humanos que têm família e vivem. Isso não é guerra, é futebol”, disse Alejandro Domínguez.

Fica claro que se o River não toma uma posição em favor do Boca, o jogo teria acontecido, mesmo à revelia da vontade do Boca. Houve um acordo entre os dois clubes que, daquele jeito, não seria bom que a partida acontecesse. Houve um pouco de bom senso entre os dois times. O que faltou à Conmebol. O que sempre falta à Conmebol. O que falta com constância a governos como o da Argentina. Como falta em São Paulo também, por exemplo, onde os clássicos também são disputados em torcida única. Um festival de incompetência de todas as autoridades, governamentais e do futebol. Uma vergonha que a Conmebol passou internacionalmente.

No dia que a Libertadores teria a sua final no sábado e tentando chamar a atenção do mundo todo, o que se mostrou foi o pior que há do futebol sul-americano: caos, violência, desorganização, desinformação, desrespeito ao torcedor. Era um dia para ser cheio de memórias e momentos históricos dentro de campo. Se tornou um grave episódio que, infelizmente, exemplifica boa parte dos problemas que a Conmebol possui, que os governos sul-americanos possuem organizando grandes eventos e especialmente futebol. Que, no fim, o futebol sul-americano segue com talento e competitividade em campo de alguma forma.

Fora de campo, segue sendo um enorme caos. Não é mais do que merece a Conmebol por uma Libertadores que teve jogador irregular do River atuando por sete partidas, sem qualquer punição; que teve jogador do Boca Juniors atuando irregular, também sem punição; que teve o caso Carlos Sánchez, de incompetência do Santos e mais ainda da Conmebol, que, apesar disso, puniu apenas o Santos em um caso de informação privilegiada ao Independiente, o que gerou, no mínimo, suspeitas. No fim, a Conmebol nada no próprio lamaçal de incompetência. Ter uma final adiada de forma atrapalhada e caótica e só um símbolo que coroa esta edição da Libertadores.