‘O Negro no Futebol Brasileiro’ é uma obra fundamental na literatura nacional. Possui sua importância não apenas por se debruçar sobre a questão esportiva e a maneira como o futebol ajudou a romper barreiras na primeira metade do Século XX. O livro de Mário Filho, publicado originalmente em 1947, se junta também a outros estudos que discutem a inserção do negro na sociedade brasileira durante as décadas posteriores ao fim da escravidão. A modalidade se torna um ponto de partida a uma visão mais ampla, dentro do contexto da época, mas que também se refletiu de diferentes maneiras. A influência de seu conteúdo é clara, seja em outras análises relacionadas aos negros no país, seja ao próprio reconhecimento do papel fundamental dos negros no desenvolvimento do esporte brasileiro.

No Dia da Consciência Negra, aproveitamos a ocasião para apresentar um pouco mais deste livro essencial. Parte da obra está disponível na internet, com a leitura aberta de seus prefácios (o primeiro deles, na edição original, escrito por Gilberto Freyre), assim como páginas dos primeiros capítulos escritos por Mário Filho. Abaixo, republicamos parte do prefácio de Gilberto Freyre e reproduzimos o conteúdo aberto. Vale pelo conhecimento e pela reflexão.

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Prefácio de Gilberto Freyre

Creio não dizer novidade nenhuma repetindo que por trás da instituição considerável que o futebol tornou-se em nosso país se condensam e se acumulam, há anos, velhas energias psíquicas e impulsos irracionais do homem brasileiro, em busca da sublimação. Essa sublimação estava outrora apenas na oportunidade para feitos heroicos ou ações admiráveis que o Exército, a Marinha e as Revoluções mais ou menos patrióticas abriam aos brasileiros brancos e, principalmente, mestiços ou de cor, mais transbordantes de energias animais ou de impulsos irracionais.

Dessas energias e desses impulsos, alguns eram de sentido sadista, outros masoquista. Uns exibicionistas, outros narcisistas. O que, honestamente reconhecido – pois tais elementos se encontram à raiz de algumas das mais belas expressões de bravura, de heroísmo e de valor até hoje praticadas pelos homens de qualquer cor, condição ou cultura – não importa em desconhecer-se a grandeza ou a beleza desses feitos sob a forma das sublimações que atingiram.

Isto quando essas energias ou esses impulsos, em vez de assim se sublimarem ou de se satisfazerem com os esportes ou os quase-esportes rurais dos dias de festa, ou dos dias comuns, dominantes no Brasil patriarcal – as cavalhadas, as corridas atrás de bois, as caçadas, as pessoas, as noites inteiras de samba ou de dança extenuante, as largas caminhadas pelos sertões, a caça aos índios ou aos negros fugidos, a fuga dos negros aos feitores ou à melancolia da rotina agradaria dos engenhos e fazendas – não se degradaram moral ou socialmente em proezas como as do cangaço ou nos rabos-de-arraia da capoeiragem, célebres na história da sociedade brasileira. Espécies de esportes inteiramente irracionais.

O futebol teria numa sociedade como a brasileira, em grande parte formada de elementos primitivos em sua cultura, uma importância toda especial que só agora vai sendo estudada sob critério sociológico ou para-sociológico. E era natural que tomasse aqui o caráter particularmente brasileiro que tomou. Pois tornou-se o meio de expressão, moral e socialmente aprovado pela nossa gente – pelo Governo, pela Igreja, pela Opinião Pública, pelo Belo Sexo, pela Imprensa – de energias psíquicas e de impulsos irracionais que sem o desenvolvimento do futebol – ou de algum equivalente de futebol – na verdadeira instituição nacional que é hoje, entre nós, teriam provavelmente assumido formas de expressão violentamente contrárias à moralidade dominante em nosso meio.

O cangaceirismo teria provavelmente evoluído para um como gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones ítalo-brasileiros. A capoeiragem, livre de Sampaio Ferraz, teria provavelmente voltado a enfrentar a polícia das cidades sob a forma de conflitos mais sérios que os antigos entre valentes dos morros e guardas-civis das avenidas, agora asfaltadas. O samba teria se conservado tão particularmente primitivo, africano, irracional que suas modernas estilizações seriam desconhecidas, com prejuízo para a nossa cultura e para o seu vigor híbrido. A malandragem também teria se conservado inteiramente um mal ou uma inconveniência.

O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura. A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo brasileiro de jogar futebol que de um jogador um tanto álgido como Domingos, admirável em seu modo de jogar mas quase sem floreios – os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – um crítico da argúcia de Mario Filho pode dizer que ele está para o nosso futebol como Machado de Assis para a nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado entre tropicais.

Em moderna linguagem sociológica, na situação de um apolíneo entre dionisíacos. O que não quer dizer que deixe de haver alguma coisa de concentradamente brasileiro no jogo de Domingos como existe alguma coisa de concentradamente brasileiro na literatura de Machado. Apenas há num e noutro um domínio sobre si mesmos que só os clássicos – que são, por definição, apolíneos – possuem de modo absoluto ou quase absoluto, em contraste com os românticos mais livremente criadores.

Mas vá alguém estudar o fundo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas, de qualquer forma, dança.

Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se em instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente de negro, o mulato, o cafuso, o mestiço. E entre os meios mais recentes – isto é, dos últimos vinte ou trinta anos – de ascensão social do negro ou do mulato ou do cafuso no Brasil, nenhum excede, em importância, ao futebol.

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