Quando a Red Bull ingressou no futebol, tinha o claro objetivo de expandir sua marca dentro dos ideais esportivos da empresa. O intuito não se limitava a ter sucesso, com o investimento em equipes jovens, que pudessem transmitir a mensagem de vivacidade ao público-alvo da companhia de energéticos. Não se nega que o Red Bull Salzburg deu certo, dominando o Campeonato Austríaco e fazendo campanhas notáveis na Liga Europa – apesar de seu tabu nas preliminares da Champions. O RB Leipzig, contudo, não demorou a se tornar o predileto da Red Bull. As possibilidades competitivas na Alemanha são maiores e, além da ascensão na Bundesliga, a classificação à Liga dos Campeões logo na primeira temporada reiterou a ambição. Nesta temporada, os descaminhos levaram os dois clubes à Liga Europa. Acabaram sorteados no mesmo grupo e se enfrentaram oficialmente pela primeira vez nesta quinta. Melhor ao “original”, o Salzburg, que conquistou a vitória por 3 a 2 em uma partida bastante parelha na Red Bull Arena da Alemanha.

Na temporada passada, a possibilidade de ambos se enfrentarem nas competições continentais causou grande imbróglio. O regulamento da Uefa diz que agremiações com o mesmo dono não podem disputar o mesmo certame. Aí é que está a jogada da Red Bull. Paulatinamente, a companhia diminuiu sua participação acionária no Salzburg. Atualmente, consta apenas como uma patrocinadora – generosa, bancando estádio, camisas, escudo e nome oficial. Ainda assim, independente o suficiente para não infingir a lei, já que legalmente a empresa está ligada apenas ao Leipzig. Assim, a Uefa deu seu carimbo depois de analisar a situação e, desta vez, as bolinhas do sorteio foram fatídicas.

Como era de se esperar, um clima amistoso permaneceu na Red Bull Arena. Torcedores austríacos viajaram à Alemanha e fizeram algumas provocações leves, ocupando um dos setores do estádio sem qualquer divisória. Já a maioria das cadeiras era tomada pelos alemães, que abraçaram o projeto do Leipzig ao longo dos últimos anos. Diante da degradação do futebol na antiga Alemanha Oriental, da violência nos estádios dos clubes mais tradicionais e da ligação dos ultras com grupos extremistas, logo se criou um movimento ao redor do RasenBallsport. Garantiu bons números nas arquibancadas principalmente a partir da segunda divisão, com casa quase sempre cheia na Bundesliga. Não foi o caso nesta quinta, com apenas 24 mil presentes.

A chance da lei do ex acontecer era enorme. Afinal, tornou-se comum que jogadores de destaque do Salzburg fossem vendidos ao Leipzig nas últimas temporadas. Dos 11 titulares na equipe alemã nesta quinta, cinco já haviam jogado em algum momento da carreira no time austríaco, quatro transferidos diretamente de um para o outro. Além disso, alguns atletas sem tanto espaço no RasenBallsport também costumam ser repassados à antiga “matriz”. Não que signifique necessariamente o enfraquecimento do Salzburg: independentemente das perdas recentes, o time fez uma campanha histórica na Liga Europa passada, alcançando as semifinais. O treinador Marco Rose, campeão da Uefa Youth League com o clube, é o principal responsável pela atual guinada. Curiosamente, ele é nascido em Leipzig, atuou / treinou o Lokomotive e até mesmo seu avô foi um ídolo do futebol local, chegando à seleção. Mas nunca passou pelo RB.

Quando a bola rolou, o Salzburg desfrutou de um primeiro tempo bastante superior na Alemanha. Com parte de seus principais jogadores poupados, o Leipzig concedeu dois gols em apenas 22 minutos. Munas Dabour e Amadou Haidara não perdoaram os erros defensivos. A reação do RasenBallsport aconteceu no segundo tempo. Konrad Laimer fez valer a “lei do ex” aos 25 minutos, com os erros do outro lado, enquanto Yussuf Poulsen saiu do banco para deixar tudo igual aos 37. Todavia, um contra-ataque com ótimos toques por elevação permitiu que os austríacos arrancassem a vitória aos 44, com Fredrik Gulbrandsen – este, com passagem anterior pelo New York Red Bulls.

Por enquanto, prevaleceu a amizade fora de campo e o comprometimento dos times com a vitória. Entretanto, há o temor de que os dois clubes possam se ajudar em busca da classificação, quando voltarem a se enfrentar. O reencontro na Red Bull Arena da Áustria acontece na quinta rodada. Até lá, Celtic e Rosenborg terão que fazer valer suas camisas se não quiserem correr riscos contra os Touros Vermelhos siameses.