Uma rápida olhada na tabela da Primera Fuerza de 1938/39, uma das duas principais ligas de futebol do México naquela época, causa certa estranheza para quem está por dentro do futebol espanhol – e basco. O Euzkadi, neologismo criado para se referir ao País Basco, aparece na segunda posição, bem próximo do campeão Asturias. Era, na verdade, a própria seleção basca que durante a Guerra Civil Espanhola, cujo início foi há exatamente 80 anos, fez uma turnê mundial de amistosos para arrecadar dinheiro para a causa republicana e dar visibilidade a ela.

A Guerra Civil Espanhola durou dois anos meio, depois que o general Francisco Franco deu um golpe de estado, em 18 de julho de 1936, para tirar do poder a coalizão de esquerda que havia vencido as eleições contra os conservadores. O medo do exército e das outras instituições que apoiaram a bruta tomada de poder era que o governo esquerdista desse início a uma revolução marxista. Começando pelo Marrocos, no norte da África, Franco e suas tropas começaram a tomar territórios dentro da Espanha. O País Basco, no entanto, era alinhado aos republicanos e resistiu enquanto pode.

Com o início da guerra, o governo republicano espanhol ficou aberto a dar mais autonomia a algumas regiões. O País Basco concluiu suas negociações em outubro e, no dia 7 daquele mês, elegeu seu primeiro presidente: José Antonio Aguirre. O político, por acaso, havia sido jogador do Athletic Bilbao e sabia o quanto o futebol poderia ajudar a causa. Foi entusiasta de formar novamente uma seleção basca, que já havia disputado duas partidas contra a seleção catalã, no começo da década. O time foi montado majoritariamente com jogadores do Athletic Bilbao (como Gregorio Blasco, Leonardo Cilaurren, José Muguerza, Ángel Zubieta e José Iraragori), mas também do Real Madrid (Luis e Pedro Regueiro), Bétis (Serafín Aedo) e Oviedo (Isidro Lángara).

Euzkadi 01
O time posado do Euzkadi

“A formação da equipe Euzkadi era um projeto liderado por nacionalistas e também afetou o simbolismo do time, porque as camisas eram estilizadas com as cores da ikurriña (bandeira do País Basco) e o nome Euzkadi foi escolhido. O termo foi criado para o País Basco por Sabino Arana, fundador do PNV (Partido Nacionalista Basco)”, escreve este artigo publicado na Sport Science Review, a revista oficial do Instituto Nacional de Pesquisas em Esporte, em Bucareste, na Romênia. “O objetivo principal parecia claro: o Euzkadi deveria ser um embaixador do País Basco, mas sua tarefa não era apenas essa. Deveria também arrecadar dinheiro para a população basca que sofria durante a guerra”.

A primeira parada do Euzkadi foi Paris, onde disputou um amistoso contra o Paris Racing Club, simbolicamente no mesmo dia em que a cidade basca de Guernica foi bombardeada por aviões alemães que apoiavam Franco, ação militar que seria imortalizada no famoso quadro de Picasso. Os bascos ainda disputaram partidas em Praga e novamente na França antes de partirem para a Polônia, onde não foram muito bem recebidos.

O Euzkadi deveria jogar duas vezes em solo polonês, mas apenas um duelo foi realizado. A Polônia não via a causa basca com bons olhos e temia o comunismo – não que os bascos fossem todos, de fato, marxistas, mas, como Franco dizia combater comunistas na Espanha, e os bascos combatiam Franco, a associação foi inevitável. Pela mesma lógica, a União Soviética abriu os braços. A melhor perna da turnê mundial do Euzkadi foi contra equipes russas, ucranianas e bielorrussas, com a ajuda financeira dos soviéticos. Em seguida, o time rumou ao norte, à Dinamarca e à Noruega.

Euzkadi 02
O time posado do Euzkadi

No entanto, as tropas de Franco avançavam na Espanha e tomaram o controle de Bilbao e outras cidades bascas. Foi ordenado o retorno do time, mas os jogadores se recusaram e partiram para a América. A Fifa e a Federação Espanhola, alinhadas com o generalíssimo, pararam de reconhecer o Euzkadi como um time filiado a essas entidades. Dispararam ameaças contra equipes e seleções que o enfrentassem. Nem México e nem Cuba quiseram saber disso e realizaram os jogos previstos normalmente.

O México foi ainda mais longe: para solucionar o impasse, o Euzkadi filiou-se à Federação Mexicana, segundo este artigo, da Universidade Nacional Autônoma do México:

“Em 8 de dezembro de 1937, a seleção basca, com ajuda de dirigentes de equipes mexicanas, conseguiu se filiar à Federação Mexicana. Isso foi devido aos problemas que tiveram com a Federação de seu país, que praticamente os havia desconhecido, tornando-os uma equipe ‘ilegal’. Por terem que fazer uma turnê de mais três meses por terras sul-americanas, precisavam estar amparados por alguma federação. Além disso, concedeu-lhes a oportunidade de voltar ao México para disputar o campeonato local, caso as coisas continuem deste jeito na Espanha”.

E olha que os mexicanos tinham motivo para expulsarem o Euzkadi do país, já que os bascos haviam vencido os três amistosos contra a seleção nacional, por 4 a 1, 2 a 1 e 4 a 0. O clube europeu, na realidade, só foi perder na sua oitava partida em solo mexicano, para um combinado de jogadores do España e do Asturias. No último jogo da primeira perna no México, finalmente perderam para o time nacional, por 3 a 1.

A viagem deveria ter sequência na Argentina, com amistosos contra os grandes Independiente, Racing, Boca Juniors, River Plate e San Lorenzo. Mas as autoridades locais não quiseram desafiar a Fifa. Não ficaram satisfeitos com os documentos provando que o Euzkadi agora era membro da Federação Mexicana e exigiram um comprovante da Federação Espanhola, atestando que o clube não era mais filiado a ela. Foram três meses em terras argentinas sem disputar nenhum jogo.

O Euzkadi seguiu sua jornada no Chile e novamente em Cuba, onde conseguiram arrecadar dinheiro suficiente para voltar ao México, na metade de 1938. E como estavam filiados à Federação Mexicana mesmo, disputaram a Primera Fuerza. Foram 12 partidas oficiais, com sete vitórias, um empate e quatro derrotas. Somaram 15 pontos. Ficaram a dois do campeão Asturias.

Mas a aventura teria que chegar ao fim. Em abril de 1939, Franco venceu a Guerra Civil Espanhola. Uma de suas medidas foi proibir símbolos bascos e catalães, como bandeiras, hinos e idiomas. Imagina uma seleção? Poucos meses depois, o Euzkadi foi dissolvido e seus jogadores debandaram para equipes argentinas e mexicanas, com o sentimento de dever cumprido pelos resultados, mas sem conseguir ajudar o seu povo a vencer a guerra contra o general.