A cada rodada do Campeonato Brasileiro, o Cruzeiro sente seu abismo particular se tornando mais escuro. A permanência na Série A ainda representa um fiapo de luz, mas a vista se torna turva por tudo aquilo que não se concretiza à Raposa. Fora de campo, há um escárnio com a torcida e com a instituição que se arrasta há meses, e que ganha novos capítulos a cada semana. Já dentro de campo, os cruzeirenses parecem presos a uma barreira invisível, que impede o time de conquistar os necessários pontos. Mais uma vez, os celestes entraram em campo precisando da vitória a qualquer custo. Mais uma vez sucumbiram aos seus próprios erros, na vitória por 1 a 0 de um motivado Vasco, que também tirou a noite para celebrar sua grandeza e a manutenção na primeira divisão.

São Januário estava abarrotado nesta segunda-feira de futebol. Não era um interesse apenas pela partida, mas sim a vontade de celebrar o momento que o clube vive. Na última semana, o Vasco lançou sua campanha para atrair novos sócio-torcedores e bateu os 130 mil inscritos. Assim, o encontro com o Cruzeiro nada mais era do que a oportunidade de extravasar tal orgulho. Era um ato de paixão cruzmaltina, que não dependia da colocação na tabela ou do resultado. Melhor, de qualquer forma, se a noite terminasse com vitória.

O Cruzeiro, por outro lado, via a sua crise se alargar durante este início de semana. Thiago Neves está lesionado, mas foi flagrado em um show no Mineirão e terminou suspenso pela diretoria. Pode até ser um ato correto ante à falta de comprometimento, mas também valeu à demagogia dos dirigentes que desejam limpar a sua barra e tratar o veterano como um bode expiatório. Numa derrocada que tem inúmeros culpados, entre eles Thiago, o comando celeste possui uma grande parcela de culpa. E a situação se torna pior quando o “gestor” Zezé Perrella faz pouco caso dos salários atrasados, dentro de um clube denunciado nos últimos meses por corrupção. É vergonhoso todo o contexto e a tabela do Brasileirão serve de reflexo.

Dentro de campo, o Cruzeiro precisava se desligar do noticiário e cumprir sua missão, no primeiro jogo de Adílson Batista de volta à equipe. Até esboçou uma pressão nos primeiros instantes, mas viu o Vasco crescer com sua torcida e achar o gol logo aos nove minutos. No contra-ataque, Andrey passou a Guarín, que acertou um chute no cantinho e correu para o abraço. O dramalhão cruzeirense se ampliava, sufocado por uma torcida que explodiu com o tento e jogava junto com sua equipe.

A situação do Cruzeiro na sequência do primeiro tempo poderia ter sido pior. Aos 25 minutos, o árbitro anotou um pênalti sobre Marrony, mas corretamente voltou atrás, após consultar o vídeo. Não era um bom primeiro tempo, bastante travado. A diferença é que o Vasco, mais aceso, resolveu quando levou perigo e a Raposa tinha enormes dificuldades no ataque. Somente nos minutos anteriores ao intervalo é que os celestes criaram certo incômodo, em cruzamentos que não deram muito resultado. Era um time sem ideias e sem criação.

Para o segundo tempo, Adílson Batista veio logo com duas trocas, ao mandar Fred e Marquinhos Gabriel a campo. Os efeitos, no entanto, não foram imediatos. O time seguia nervoso e tinha problemas para romper a defesa do Vasco. Quando Fred conseguiu cabecear, só assustou porque Fernando Miguel não segurou a bola, aos 14 minutos. Os cruzmaltinos, por sua vez, tinham muita energia aos combates – especialmente com Guarín na proteção do meio-campo. Faltava acertar as transições para conseguir ampliar. Marrony até fez uma grande jogada aos 26, para corte da zaga, naquele que seria o melhor lance dos cariocas na etapa complementar.

O passar dos minutos fazia o desespero do Cruzeiro aumentar. O Vasco recuou e deu campo aos visitantes, mas eles não conseguiam invadir a área para finalizar. O ataque cruzeirense se resumia a um caminhão de cobranças de escanteio, sem qualquer repertório. E a certeza de que nem o empate viria se deu aos 40 minutos, com as chances desperdiçadas pelos visitantes. Marquinhos Gabriel ficou de frente com Fernando Miguel e mandou para fora, sem que Ezequiel conseguisse completar. Depois, viriam outros tantos chuveirinhos, sem que ninguém aproveitasse algumas saídas de Fernando Miguel. A derrota se confirmou ao apito final e o sinal de alerta quase cega os celestes.

Na saída de campo, a desolação. Fred passou batido por todo mundo e foi o primeiro a entrar nos vestiários. Orejuela estava aos prantos. Henrique deu uma entrevista ao SporTV bastante emocionado, quase grogue. E os espólios celestes eram aproveitados pela torcida do Vasco, que espezinhava, declarando todo o desejo de ver os adversários na Série B. Os cruzmaltinos, mesmo assim, não estava ali apenas para rir da desgraça alheia. Celebravam também a permanência na Série A e a esperança que a mobilização recente criou. De quebra, Fluminense e Botafogo também confirmaram a permanência com a ajuda dos rivais.

O Vasco deu um passo firme, além do mais, para se classificar à Copa Sul-Americana. Com 47 pontos, ocupa o 12° lugar no Brasileirão. A situação dos cariocas é bem diferente ao ranger de dentes que se experimenta na Toca da Raposa. Com 36 pontos, o Cruzeiro permanece no 17° lugar, ocupando o Z-4. São dois pontos de distância em relação ao Ceará, com a certeza de que não o time conseguirá mais igualar o número de vitórias do Vozão.

Os alvinegros pegam Corinthians (casa) e Botafogo (fora) nos dois últimos compromissos. Já os celestes jogam sua vida contra Grêmio (fora) e Palmeiras (casa). Têm uma tabela mais difícil e não aparentam possuir força mental para reverter o quadro desalentador. Cada jogo parece o roteiro perfeito a uma queda que muitos jogadores e a diretoria fazem por merecer. A torcida, entretanto, é quem mais sofre com a ingerência e a impotência do clube.

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