Uma partida, duas histórias. Ao Athletico Paranaense, a noite de quarta-feira termina com um capítulo memorável à trajetória recente do clube. Contra um adversário pesadíssimo como o Grêmio e precisando reverter uma desvantagem de dois gols, o Furacão arrancou uma virada que até parecia inimaginável. Contou com a força da Arena da Baixada e com uma intensidade enorme, para alcançar a vitória por 2 a 0 durante os 90 minutos, o suficiente para forçar os pênaltis. Na marca da cal, Santos se confirmou como o herói ao pegar o pênalti de Pepê e garantir o triunfo por 5 a 4. A vaga na decisão da Copa do Brasil provocou uma erupção em vermelho e preto. O time de Tiago Nunes, mais uma vez, comprova o tamanho de sua ambição.

A glória do Athletico, entretanto, não anula o desgosto do Grêmio. E os tricolores têm motivos para lamentar. Esta semifinal contará uma outra história aos gremistas, na qual deverão remoer a interpretação do árbitro na reclamação de um pênalti que não foi anotado durante os primeiros minutos. Contudo, além disso, o time de Renato Portaluppi precisa reconhecer também as próprias impotências, pela maneira como não construiu uma vantagem maior em Porto Alegre e pela forma como permaneceu acuado durante grande parte do tempo em Curitiba. Numa eliminatória de dois jogos completamente distintos, em que a balança se equilibrou, a classificação pendeu àquele que foi ligeiramente melhor nos pênaltis. E não é isso, afinal, que diminui o enorme prazer dos atleticanos pelo feito. A diferença mínima torna a partida mais saborosa. Desde já, inesquecível.

Logo nos primeiros minutos, o tamanho da ocasião ficou evidente. A Arena da Baixada necessitava de uma mera faísca para ver a tensão incendiar a partida. E bastaram segundos para que o primeiro atrito acontecesse entre as equipes. Na beira do campo, Alisson e Tiago Nunes se estranharam, no primeiro ato de uma série de entreveros ao longo da etapa inicial. O Grêmio, entretanto, não se abalou com isso. Os tricolores começaram o jogo mais ligados. O lance cabal se deu aos quatro minutos. Após cobrança de escanteio, Geromel desviou de cabeça e o arremate foi bloqueado pelo braço de Wellington. O árbitro Wagner do Nascimento Magalhães foi ao vídeo conferir o lance e demorou um bocado até tomar a sua decisão, mas não marcou a penalidade – o que gerou uma óbvia insatisfação dos gremistas.

Aos poucos, a partida se tornou mais equilibrada. E o Athletico crescia, muito mais agressivo em suas ações. Logo os lances de perigo começaram a pender ao outro lado do campo. O gol não demoraria a sair, aos 16 minutos. O lance começou a se desenrolar um pouco antes, quando Leonardo sofreu lesão no joelho e não teve condições de continuar na partida. Com a lateral desprotegida, o Grêmio pagou as consequências. Rony fez grande jogada pela ponta esquerda e passou a Bruno Guimarães, que encheu o pé dentro da área, carimbando o travessão. A sobra ficaria com Nikão, que não desperdiçou. Os atleticanos indicavam também seus méritos.

A vantagem aumentou o vigor do Athletico. O Grêmio sentia a força dos anfitriões e mal conseguia passar do meio-campo. Faltava ligação aos tricolores. Enquanto isso, Bruno Guimarães mandava no meio-campo e conduzia a pressão do Furacão. Galhardo até entrou na lateral direita, mas encontrava enormes dificuldades para marcar o inspirado Rony, muito ligeiro nos dribles. Já nas arquibancadas, a vibração da torcida ditava o ritmo do sufoco imposto pelos rubro-negros.

Faltava ao Athletico romper a linha defensiva gremista. Os tricolores limitavam os paranaenses, que precisaram se contentar basicamente com chutes de média distância. Já do outro lado, a única chance de empate ao Grêmio veio em bola alçada. Alisson poderia ter feito melhor, mas sua cabeçada veio nas mãos de Santos. No mais, o clima elétrico seguia rendendo bate-bocas e outros pequenos problemas entre os jogadores. Os sentimentos se afloravam.

O Athletico Paranaense recomeçou o segundo tempo com uma atitude bem parecida, desta vez tentando empurrar ainda mais a linha de zaga do Grêmio. Léo Cittadini poderia ter ampliado a vantagem no primeiro minuto, em sobra de bola que ele finalizou e passou por cima do travessão. Nada que fizesse falta. Aos três minutos, o Furacão já igualou o placar da ida. Rony encontrou espaço pela esquerda e fez o cruzamento. Marco Ruben se antecipou na área e desviou de cabeça, para deixar o confronto definitivamente aberto.

O momento permaneceu nas mãos do Athletico. Quando o Grêmio tentou sair um pouco mais, um contragolpe veloz dos rubro-negros deixaria a situação um pouco mais complicada, aos 14. Kannemann deu um carrinho desnecessariamente violento em Léo Cittadini, para matar a jogada, e o árbitro mostrou o cartão vermelho direto. Renato Portaluppi precisou ajeitar a zaga com David Braz no lugar de André. A única esperança aos tricolores era encaixar um contra-ataque, o que quase deu certo aos 20, em chute desviado de Matheus Henrique. Pouco depois, ainda haveria um gol anulado de David Braz, em claro impedimento.

Durante a reta final da partida, a missão do Grêmio era evitar o terceiro gol e garantir ao menos os pênaltis. O Athletico ia para cima e rodava a bola na intermediária, buscando principalmente os cruzamentos. Tiago Nunes precisou tirar o extenuado Rony, colocando Vitinho, mas também deixou o time ainda mais ofensivo com Marcelo Cirino no lugar de Wellington. Só que a troca não faria efeito ao Furacão e os gremistas criaram esperanças de um gol, melhorando a partir da entrada de Thaciano. Após uma escapada do substituto, aos 39, David Braz cruzaria pela direita e Marco Ruben quase fez contra. Santos salvou o companheiro com uma defesaça. Os minutos finais teriam poucas emoções, numa partida já tomada pela tensão. O nervosismo prevalecia. No melhor lance, Cirino cabeceou para fora. A definição dos finalistas estava fadada aos pênaltis.

Durante a disputa, os jogadores exibiam uma confiança imensa. Bruno Guimarães, Galhardo, Lucho González, David Braz, Nikão, Alisson, Marcelo Cirino: um a um, todos convertiam com precisão. Santos ficou a um triz de pegar a quarta batida do Grêmio, de Matheus Henrique, ao tocar a bola e não evitar o gol. Porém, depois que Marco Ruben balançou as redes pela quinta vez ao Athletico, o goleiro realmente foi o herói no décimo tiro. Pepê telegrafou seu chute e Santos foi buscar no canto, confirmando a virada do Furacão.

O Athletico Paranaense disputará a sua segunda final de Copa do Brasil. Além do mais, pelo segundo ano consecutivo, chega a uma decisão de grande porte. A equipe demonstra sua força ao eliminar o Grêmio e enfatiza que, nos mata-matas, não fica devendo a outros adversários brasileiros. Que se pondere as circunstâncias da eliminatória, isso não diminui a vontade e a fome do Furacão. As penalidades coroam uma noite memorável à Arena da Baixada, pulsante. O prêmio pela reação poderá ser ainda maior dentro de algumas semanas.