A intenção aqui era escrever um texto sobre o Palmeiras 2×2 Bahia, jogo importante à sequência do Campeonato Brasileiro. E, na bola, foi uma partida bastante movimentada. Teve gols, intensidade, busca pela vitória até o último minuto. O problema é que, em tempos de VAR no Brasileirão, se torna quase impossível fazer qualquer relato da partida sem que exista alguma crítica central à arbitragem. Pior, mal dá para assistir ao jogo em paz, diante da irritante condução realizada pelos árbitros brasileiros. O futebol é um esporte secundário, no qual a torcida pela afirmação ou pela negação do juiz diante de um monitor é bem mais fervorosa.

Não vou nem entrar nos méritos de erros ou acertos ocorridos no Palmeiras 2×2 Bahia – ainda que, de fato, o recurso de vídeo realmente ajude na tomada de decisões. Não é essa a questão. O ponto nevrálgico do VAR no Brasileiro é tudo o que provoca ao redor do jogo. O que deveria ser uma lupa para se conferir os erros, no fim das contas, se transforma em uma lupa para conferir o tamanho do ego dos árbitros e a incapacidade dos apitadores. O acerto ou o erro no lance até parece uma questão menor.

Tudo soa como uma conspiração para colocar o VAR no papel de vilão. Os árbitros abusam do recurso, muitas vezes por falta de confiança e por falta de preparo. O que deveria ser uma decisão simples desencadeia uma conferência de minutos para se rever o que aparece na tela. Até mesmo escolher se o juiz de campo vai ou não ao monitor ganha ares de grande (e demorado) evento. A CBF tem culpa por oferecer um equipamento defasado ao Brasileirão, de recursos lentos sobretudo em impedimentos. Mas antes fosse apenas isso. O papel trivial do árbitro do futebol, de facilitar o desenvolvimento da partida, acaba ignorado por outros tantos entraves que não se restringem à tecnologia.

Como diria Diego Alves, os árbitros “infelizmente são humanos”. E, diante das cobranças que sofrem, é natural que tomem o máximo de cuidado. Errar com o VAR, afinal de contas, culmina em um erro basicamente inaceitável – embora existam interpretações divergentes, algo inerente à regra. No entanto, a maneira como se maneja a tecnologia no Campeonato Brasileiro também parece um erro gravíssimo. Ela é um antijogo por si, diante da letargia que provoca e da irritação que se acumula.

Houve um esforço para se implantar o VAR no futebol brasileiro e, de fato, há benefícios pela diminuição nos erros. Porém, a relação se desgasta em pouquíssimo tempo. Há necessidade de educação e de compreensão, não apenas por parte de quem gere a tecnologia, mas também de quem trabalha ao seu redor. A postura intempestiva e pouco honesta de parte dos jogadores ou mesmo de técnicos não contribui. E o “efeito bola de neve” é perceptível, com a confiança cada vez mais comprometida para se esperar as indicações.

Os jogos são mais truncados pelas paradas. Perde-se também a paciência para se assistir. As reclamações pelos erros que passaram batidos ou que se confirmaram através do vídeo contaminam ainda mais as discussões. A própria imprensa não ajuda, muitas vezes preferindo enfatizar uma interferência correta do VAR do que os fatos da partida. E o produto, que deveria se valorizar com menos marcações equivocadas, sofre outros tipos de golpe. Tolo foi quem pensou que o VAR seria ruim porque “acabaria com as polêmicas de bar”. Tal pensamento torpe foi virado do avesso.

E, que fique bem claro, este texto não é contra o VAR ou contra a tecnologia no futebol. Muito pelo contrário. Afinal, a primeira rodada da Premier League mais parecia utopia a quem vê o Brasileirão todas as semanas. As decisões foram extremamente rápidas, o VAR só interferiu quando necessário, os árbitros de campo não abusaram da revisão no monitor e a mensagem transmitida ao público era clara sobre o que estava sendo analisado. A introdução inglesa foi excelente, mesmo quando comparada a outros campeonatos estrangeiros que já utilizam a tecnologia. Se alguns britânicos reclamaram, no que realmente sempre será passível a melhorias, vale convidá-los para “aprender” um pouco com a experiência do Brasileirão.

Ah, é mesmo, e rolou um jogo no Allianz Parque. Teve boa estreia de Luiz Adriano, Dudu conduzindo o ataque do Palmeiras, Gilberto mantendo a fome de gols pelo Bahia. Felipe Melo foi expulso e dois pênaltis foram marcados. O vídeo gastou um bom tempo para conferir até impedimento em cobrança de lateral. Por todo esforço, o árbitro Igor Junio Benevenuto e o árbitro de vídeo Ricardo Marques Ribeiro merecidamente apareceram mais na transmissão do que os outros personagens da partida.

Quem quiser acreditar em uma autossabotagem ao VAR por mau uso possui seus argumentos. Enquanto não houver um esforço maior pela eficiência e pela transparência, este tipo de tecnologia enfrentará uma compreensível resistência – no Brasil ou em qualquer outro lugar. É preciso melhorar o protocolo e o preparo dos responsáveis. Os recursos são e serão cada vez mais essenciais dentro do futebol. Mas, por enquanto, o VAR do Brasileirão tantas vezes serve para salvar a pele dos apitadores e, a quem se interessa por isso, colocá-los como protagonistas de um jogo no qual o ideal é serem imperceptíveis figurantes. Até o momento, se repete um espetáculo enfadonho dos árbitros.