“Defesa que ninguém passa”. O hino do Palmeiras não é só usado pelos palmeirenses para comemorar a grande fase do clube. Serve, neste momento, para descrever o que o time tem sido em campo desde a chegada do técnico Luiz Felipe Scolari, em uma volta que pareceria improvável se dita no início de 2018. A equipe tem um aproveitamento espetacular com o treinador, melhorando em todos os setores, tirando mais dos jogadores e produzindo mais futebol – e, especialmente, resultados. Essa é a marca maior no Brasileirão 2018 até aqui: eficiência. E ser eficiente é muito, mas muito difícil.

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Em um campeonato que poucos participantes conseguem jogar bem, o que o Palmeiras faz não pode ser minimizado. É um time que está longe de ser brilhante, mas é altamente eficiente e consegue dominar os jogos com uma autoridade que poucos são capazes. Não é por acaso que derrubou um tabu de 16 anos contra o São Paulo, que ainda sonhava com o título. Felipão era um técnico que causava desconfiança em ao menos parte da torcida e na maior parte da crítica. O bom trabalho na China não parecia apagar as reticências. Mas o que ele tem feito merece os créditos justamente porque melhorou a equipe de Roger Machado, que falhou em dar o passo seguinte, embora tenha montado uma boa estrutura. Tornou o Palmeiras um time defensivamente seguro e ofensivamente mais preciso. Saiu de uma posição distante do topo da tabela ao grande favorito ao título.

Antes, o time não conseguia vencer muitos jogos que dominava, tomando gols bobos e deixando escapar pontos importantes. O palmeirense lembra bem como era sentir que o clube venceria o jogo, mas vê-lo desperdiçar oportunidades e ceder pontos, mesmo contra oponentes mais fracos, em casa ou fora de casa. Com Felipão, a equipe mudou de estilo, com menos passes, menos posse de bola, mas se tornou muito mais dura de ser batido. Ficou sem tomar gols em 10 dos 13 jogos com o treinador e passou a ter rendimento maior no ataque. Inclusive usando mais o elenco, algo que é difícil de fazer.

Com Felipão, são 10 vitórias e três empates, desde a estreia com um 0 a 0 contra o América Mineiro, no dia 5 de agosto. No total, 33 pontos de 39 disputados, um aproveitamento espetacular de 84,6%. Não por acaso, o Alviverde saiu de sexto lugar, a oito pontos do primeiro colocado, para a liderança com três pontos de vantagem sobre o segundo – e sete pontos à frente do líder quando começou a trajetória. Discutimos muito sobre questões estéticas do futebol, mas esse é um ponto que podemos dar até um passo atrás. Muito antes da estética está a capacidade de executar bem uma ideia de jogo. É daí que podemos entender a eficiência de Felipão no Palmeiras. O ataque pode não ser o que joga mais bonito, mas é certamente o que joga melhor.

São 45 gols (média de 1,55 por jogo), o que o coloca como o segundo melhor do Brasileirão até aqui, atrás apenas do irregular Atlético Mineiro, que tem 47 (1,62 por jogo). A diferença mesmo está na defesa, com apenas 18 gols sofridos, a melhor da competição, empatada com a do Grêmio (0,62 por jogo). Se considerarmos apenas o período com Scolari no comando, são três gols sofridos em 13 jogos (impressionantes 0,23 por jogo). Os números nunca contam toda a história e nada substitui assistir aos jogos, são apenas indícios. Em campo, o Palmeiras sofre muito pouco. Esqueça aquela frase que se tornou batida de “saber sofrer”. O Palmeiras não passa grandes apuros. Contra o Grêmio, dono de um estilo de jogo vistoso, ainda que com o time reserva, os alviverdes não sofreram um chute a gol no alvo. Não é por acaso.

O São Paulo, enquanto foi líder, também era de uma eficiência enorme: poucos gols sofridos, ataque econômico e muito preciso. Só que o baixo número de chutes a gol e o aproveitamento acima da média para converter eventualmente caiu, enquanto a defesa, antes raramente batida, passou a sofrer mais e mais ataques, falhar e, assim, as derrotas se tornaram mais frequentes. O São Paulo ainda é um dos times que menos chuta a gol – em média 11,7 por partida, melhor apenas que América Mineiro (10,2), Corinthians (10,5) e Chapecoense (11,4). Eis um ponto que o São Paulo não evoluiu, ao contrário, e a queda de posições para a atual quarta posição, acabou sendo uma consequência.

O ataque do Internacional, em número de gols marcados, é pior que o do São Paulo, com 39 gols (o São Paulo marcou 40). Nos gols sofridos, porém, a diferença aumentou, com o Inter sofrendo 20 gols e o São Paulo sofrendo 27. É a pior defesa entre os cinco primeiros colocados. Enquanto o Inter conseguiu uma reação jogando mais futebol, o São Paulo sofreu, passou a jogar pior, não supriu as ausências por lesão, especialmente a de Éverton. Não mudou a forma de jogar, ao contrário do Inter, que também vinha mal e fez ajustes. Faltou eficiência na manutenção do time. Exatamente o mérito que Felipão teve de não jogar tudo para o alto, mas melhorar em todos os setores.

O que o Palmeiras de Felipão consegue é utilizar mais jogadores, rodando o elenco de forma muito mais inteligente. Atletas como Gustavo Gómez, Deyverson e Mayke subiram de desempenho. Ao que tudo indica, o rendimento deles atuando no Campeonato Brasileiro os garantiu como titulares no time. Mayke já tomou a posição de Marcos Rocha, que aí passou a atuar no Brasileiro e também foi bem. Outros, como Felipe Melo, aproveitaram a suspensão na Libertadores para reconquistar espaço com grandes atuações (e melhora na questão disciplinar, seu ponto fraco).

Desde 2015, com o fortalecimento do Palmeiras, que encheu o elenco de bons jogadores, se fala que o clube tem capacidade para jogar com dois times. Ninguém até agora tinha conseguido tornar essa ideia viável na prática. Com Felipão, pela primeira vez, o que tem acontecido é o Palmeiras rodar muito o grupo e, mesmo assim, conseguir resultados expressivos e importantes. Tanto que passou a se questionar os titulares, especialmente entre os dois zagueiros, pelo ótimo desempenho da dupla Luan, que estava esquecido, e Gustavo Gómez, que chegou no meio do ano. Deyverson ganhou espaço que era de Borja, mas ainda há uma disputa.

Se o Brasileirão 2018 é um campeonato que não será lembrado por muitos concorrentes jogando bem, certamente será lembrado por ser dos times mais eficientes do que bonitos. E não se engane: isso é um enorme mérito também. Tanto que o Palmeiras ainda pode ganhar os dois principais títulos do ano, já que está na semifinal da Libertadores também. Seja como for, Felipão conseguiu mostrar que tinha mais para realizar. O carinho da torcida do Palmeiras já possuía. Com o que tem feito, Felipão vai apresentando que o futebol brasileiro estava carente de uma equipe que fosse capaz de fazer o simples de modo cirúrgico. Isso Felipão tem alcançado, e com muita sobra.