A História geralmente se conta através dos vencedores. Assim, a Austrália eternizou a noite de 11 de abril de 2001. Há 15 anos, os Socceroos estabeleceram a maior goleada de todos os tempos em uma partida oficial entre seleções principais. Em duelo válido pelas Eliminatórias da Copa de 2002, os australianos enfiaram 31 a 0 sobre a Samoa Americana – com 16 gols no primeiro tempo e mais 15 no segundo. Apenas três mil pessoas testemunharam o massacre em Coffs Habour, embora ele tenha repercutido no mundo todo. Já o nome de Nicky Salapu, o goleiro que buscou a bola no fundo das redes cada uma das 31 vezes, virou folclore.

VEJA TAMBÉM: O adeus do lendário Mario Frick: conheça outros 25 heróis de seleções nanicas

 

Salapu, contudo, tornou-se um herói nacional na Samoa Americana. O camisa 1 era o único jogador do elenco principal naquela partida. O país fazia sua estreia nas Eliminatórias e, por conta das regras da Fifa, todos os atletas que já haviam defendido Samoa Ocidental em jogos oficiais eram inelegíveis. O goleiro acabou como remanescente. Para resolver o impasse, os samoanos tentaram convocar a equipe sub-20. Em época de exames no colégio, ninguém pôde participar da viagem à Austrália. Desta maneira, a federação montou um time cuja média de idade não passava dos 18 anos, recheada de peladeiros do ensino médio.

Não bastasse o enorme desafio contra a maior potência da Oceania, Salapu tinha nos ombros o peso da responsabilidade por seu país – uma ilha de 54 mil habitantes controlada pelos Estados Unidos. O goleiro, que começara a jogar futebol na infância, em um campo de rúgbi, sequer atuava profissionalmente. Aos 20 anos na época, o camisa 1 defendia a meta do PanSa East, o então campeão nacional na amadora liga de Samoa Americana. Mesmo assim, o jovem era lançado na fogueira, como o líder de uma legião de meninos.

E as dificuldades não pararam na montagem do elenco. Os samoanos esqueceram suas chuteiras no país durante a viagem à Austrália, onde disputaram a sequência de quatro jogos pelas Eliminatórias. Precisaram comprar novas em lojas australianas. Já no início da competição, antes de pegar a seleção da casa, Samoa Americana tomou de 13 a 0 de Fiji e de 8 a 0 de Samoa Ocidental. Porém, nenhuma surra se compararia ao que aconteceu em 11 de abril.

Sem alguns de seus craques, como Viduka e Schwarzer, a Austrália precisou de nove minutos para marcar seu primeiro gol. Olímpico, de Boutsianis. Depois disso, a porteira se abriu. Sozinho, Archie Thompson balançou as redes 13 vezes. E, acredite, a goleada só não foi maior por causa de Salapu. O arqueiro operou diversos milagres, impedindo os Socceroos de irem além dos 40 gols. Defesas à queima-roupa, pontes, saídas de gol. De qualquer forma, nada que diminuísse a sua vergonha. Terminados os 90 minutos, ao chegar aos vestiários, o camisa 1 não conteve as lágrimas.

“Era loucura pura. Eu era o único jogador com alguma experiência e estava sob as traves. Tentava fazer o meu melhor, mas não podia reduzir o placar. Sabia o que iria acontecer naquela noite, mas não queria deixar o meu país abatido”, declarou, em entrevista concedida em 2014. “Eu estava jogando para que meu time não perdesse por 50 gols. Mas não posso voltar ao passado. Independente do que aconteceu, aconteceu. Foi vergonhoso”.

Salapu passou a enfrentar a depressão pela goleada. Durante algum tempo, seu refúgio era a bebida. Até que ganhou um Playstation de um amigo. Para lidar com o trauma, ele refazia o caminho no jogo da Copa de 2002. Enfrentava a Austrália, desta vez no videogame. Só se sentia aliviado quando vencia os algozes por placares maiores que os 31 a 0. “Foi realmente muito difícil lidar com aquela derrota. Mas eu pensei que se não voltasse a campo eu nunca iria conquistar uma vitória por Samoa Americana. Era um desafio seguir em frente e deixar o rótulo de pior time do mundo. Tornou-se um obstáculo mental para mim”, afirmou.

Em 2004, Salapu voltou a atuar pelas Eliminatórias em mais quatro jogos. Chegou a perder de 11 a 0, mas nenhuma derrota superou o baque de três anos antes. Em suas oito primeiras partidas oficiais pela seleção, sofreu 91 gols. Depois disso, o goleiro se afastou da equipe nacional por alguns anos. Viveu na Áustria, atuando em divisões amadoras, antes de se mudar aos Estados Unidos. Morando em Seattle, o samoano trabalhava em uma empresa de telefonia, ajustando sinais em torres de celulares. Até que, em 2011, recebeu o convite para reintegrar a seleção.

Ex-jogador da NASL, o técnico holandês Thomas Rongen assumiu o comando de Samoa Americana e buscava elevar o moral de seu elenco. Viu em Salapu a grande chance de transformar a trajetória da pior seleção do mundo. “Foi uma grande aposta. Eu não tinha ideia quando liguei para ele para saber o quão motivado estaria. Eu tinha um goleiro que poderia fazer um bom trabalho, mas Nicky era o único jogador daquela derrota por 31 gols. Todo mundo o conhecia. Ele se tornou uma verdadeira inspiração. Quase como se devêssemos a ele pelo trabalho duro em busca de fazer algo especial”, falou o técnico, à Al Jazeera.

Em novembro de 2011, mais de 10 anos após o seu maior pesadelo, Salapu disputava as Eliminatórias da Copa de 2014. Samoa Americana não passou da primeira fase, mas melhorou os seus resultados significativamente. Inclusive, conquistou a primeira vitória de sua história, ao bater Tonga de virada por 2 a 1. No último minuto, em um lance no qual estava fora do gol, Salapu quase permitiu o empate dos adversários. Pôde ver um companheiro lhe salvar. Segundo suas próprias palavras na saída de campo, teve o gosto de se sentir como um campeão. Finalmente deixava o passado para trás.

“Eu me senti incrível. Foi espetacular. Eu pensei que estava sonhando. Isso está acontecendo? Nós ganhamos o jogo? No momento, eu sentia como se nunca fosse ganhar, mas eu acreditava no time, na comissão técnica e no apoio do país. Eu acreditava que nós poderíamos conquistar algo. Eu me senti empolgado. Foi o melhor que aconteceu no futebol. Eu até mesmo me esqueci que os 31 a 0 haviam acontecido. Eu tenho o vídeo do jogo em casa e todas as vezes que eu assisto ao final da partida, continuo chorando, não importa o que aconteça. Continuo chorando. Isso significa muito para mim”, analisou.

Em setembro, Salapu disputou sua quarta edição das Eliminatórias. Desta vez, viu do banco Samoa Americana ser eliminada por apenas um gol de saldo a menos na primeira fase. E o goleiro tem como objetivo de vida voltar ao qualificatório rumo à Copa de 2022. Aos 35 anos, segue vivendo com sua família em Seattle, enquanto se divide por sete equipes de várzea nos torneios amadores da cidade. Além disso, mantém a forma com o filho Dylan, de oito anos. Contra ele, o veterano não liga de sofrer gols. Aliás, até deixa o menino vencer no videogame. Desde que esteja controlando Samoa Americana e o pai, é claro, a Austrália.


Os comentários estão desativados.