Gary Neville começou em 2014 sua carreira de comentarista em tempo integral e, desde então, é uma das vozes mais ativas para discutir os problemas de seu ex-clube, o Manchester United. Uma nova faceta em seus discursos, no entanto, começou a tomar forma há cerca de um ano e chegou a seu ápice no domingo, após derrota do United para o Liverpool: a crítica aguda ao trabalho do diretor executivo do clube, Ed Woodward.

Ao longo dos últimos anos, conforme o Manchester United patinava em busca de estabilidade e Neville construía sua reputação como comentarista da Sky Sports, o ex-jogador foi criticado por parte da torcida dos Red Devis por atacar o desempenho de atletas e treinadores e poupar os proprietários do clube e mesmo Woodward. Isso começou a mudar nos últimos tempos, e neste domingo, embora não tenha citado o nome do dirigente, não poderia deixar mais claro quem era o alvo de sua crítica em forma de desabafo.

Entendendo que não há chances de o clube mudar de dono, saindo das mãos dos Glazers, americanos odiados por boa parte da torcida por ter feito uma dívida em nome do clube para comprar o próprio clube, Neville questionou como é que Woodward segue à frente do projeto esportivo do Manchester United mesmo com tantos anos de fracasso nas costas.

“Não posso mudar os proprietários do United, ninguém pode. Tenho dificuldades de entender por que os proprietários seguem confiando naquela equipe de administração para supervisionar a construção de um time capaz de vencer a Premier League desde que o Sir Alex saiu.”

Neville apontou que, com o investimento pesado em salários que o United fazia, o clube tinha que ter uma equipe com jogadores melhores.

“Vi uma estatística duas semanas atrás de que o United tem a segunda maior folha salarial do mundo. E esse é o elenco que eles têm. É imperdoável”, reclamou o comentarista.

Não ficou claro a qual relatório Neville se referia, mas a Uefa divulgou o seu próprio relatório anual, observando finanças de 2018, e apontou que, naquele ano, o clube teve a quarta maior folha salarial do mundo, com € 334 milhões gastos. O valor é o maior na Inglaterra e só é superado por Barcelona (€ 529 milhões), Real Madrid (€ 431 milhões) e PSG (€ 337 milhões).

Neville pode ter citado o número errado, mas o diagnóstico é preciso: o elenco montado pelo clube é muito fraco em relação a tudo o que foi gasto. Nos seis anos e meio desde que Alex Ferguson deixou o Old Trafford, o clube gastou £ 850 milhões em contratação (ou basicamente € 1 bilhão) e, ainda assim, não chegou perto de formar um time verdadeiramente competitivo nas principais competições, Premier League e Champions League.

“Não acredito que, com o investimento que foi colocado no elenco nos últimos cinco, seis, sete anos, você acabe colocando esse time em campo. Se você não perde seu emprego por, basicamente, supervisionar esse investimento, essa folha salarial e por colocar esse time em campo, então devo dizer que algo está muito errado”, apontou Neville.

Para o ídolo do Manchester United, um clube desta estatura deveria ter à sua frente os melhores dirigentes do futebol. Ainda assim, os Red Devils sequer seguem a estrutura básica de ter um diretor de futebol guiando o lado esportivo desta empresa multimilionária que é o United – ainda que mesmo o sucesso comercial esteja sob ameaça com tantos anos de fracasso.

“É preciso colocar ali o melhor que existe em questão de dirigentes, e eles não estão fazendo isso. Não estão fazendo, e é uma bagunça (o trabalho atual).”

Ed Woodward chegou ao Manchester United quase na mesma época em que a família Glazer comprou o clube. Inicialmente, ocupou cargos de finança e comerciais, mas, desde 2013, com a saída do então CEO do clube, David Gill, tomou a dianteira como principal executivo do futebol do United. Que pese todos os erros de todos os indivíduos na estrutura nos últimos anos, nenhum nome carrega maior responsabilidade pelos fracassos dos últimos anos do que o diretor.