Bom posicionamento, agilidade, impulsão, elasticidade, segurança. Um grande goleiro é feito de muitas qualidades. Cada uma delas com a sua importância. Mas nem todas juntas são suficientes quando não se tem uma virtude fundamental: coragem. A certeza ao tomar uma decisão quando o erro está a suas costas, a centímetros de você. Valor que Manuel Neuer mostrou logo em seu primeiro grande momento com a seleção alemã. Semifinal da Euro Sub-21, falta perigosa aos 46 do segundo tempo. A Itália buscava o empate, Balotelli se preparava para soltar a bomba. Desde aquela época, a marra do italiano era conhecida. E o goleiro a ignorou. Afastou o petardo com um chutão. Para desmoralizar o adversário e colocar a Alemanha na final.

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A coragem, que também é sinal de loucura, aconteceu há cinco anos. Em junho de 2009, Neuer tinha no currículo apenas um jogo pela seleção principal e se coroava campeão europeu sub-21. Pouco tempo para o caminho gigante que o goleiro percorreu desde então. Um dos melhores goleiros do mundo e desde já um dos maiores nomes da história da meta alemã, titular em sua segunda Copa do Mundo.

É verdade que aquele time sub-21 revelou muitos talentos para o elenco de Joachim Löw. Ao lado do goleiro, outros cinco titulares na final contra a Inglaterra também devem começar jogando a decisão deste domingo – Boateng, Hummels, Höwedes, Khedira e Özil. Ainda assim, o feito de Neuer é notável. Porque ocupa uma posição de extrema confiança, para qual a Alemanha revela muitos jogadores de excelência. E ele tomou seu lugar de maneira indiscutível, mesmo que ajudado por algumas fatalidades.

Aos 23 anos, Neuer estava nos planos de Löw para ser apenas o terceiro goleiro em 2010. A um ano da Copa, o suicídio de Robert Enke e a lesão na costela de René Adler deixaram um vácuo. Alguns defendiam os experientes Butt e Wiese para assumirem o gol da seleção. O técnico resolveu confiar no novato, e não se arrependeu. Neuer fez um grande Mundial na África do Sul. A partir de então, tornou-se intocável na seleção.

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É claro, Neuer não está livre das críticas. Houve certa dúvida se ele seria mesmo o titular da Alemanha no Mundial do Brasil. Vinha se recuperando de lesão e, em um ano no qual o Bayern de Munique não sofria muitos chutes contra a sua meta, parecia que o camisa 1 tomava mais gols do que fazia defesas. Para engrossar o coro, Weidenfeller terminou a temporada em alta com o Borussia Dortmund. Contudo, Löw bancou Neuer outra vez. E, recuperado dos problemas, é candidato fortíssimo à Luva de Ouro.

Neuer não precisou trabalhar tanto na primeira fase da Copa. No entanto, foi essencial quando os mata-matas começaram. Sua primeira grande partida foi contra a Argélia. Mais que um goleiro, era um líbero para travar os atacantes adversários e antecipar os contra-ataques. Contra a França, nas quartas de final, executou um milagre nos acréscimos para impedir o empate de Benzema, enquanto contou com a ajuda imprescindível de Hummels. E, apesar das circunstâncias, foi contra o Brasil que o camisa 1 mais fez defesas, contribuindo para um placar tão elástico a favor do Nationalelf.

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Quem vê Neuer jogar hoje, se lembra das características daquele jovem goleiro que surgiu no Schalke 04. Aos 20 anos, o garoto segurava um empate justamente contra o Bayern, no primeiro sinal de que se tornaria um dos grandes do futebol alemão em pouco tempo. Um ano depois, parava praticamente sozinho o Porto nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Noite antológica do jovem goleiro. O ótimo posicionamento e a agilidade seguraram os donos da casa. Porque Neuer não precisa ser espalhafatoso para realizar seus milagres. Um arqueiro de futebol que também fecha o ângulo como um goleiro de handebol, como movimentos rápidos com os braços e com as pernas. E que, naquele jogo, ainda pegou dois pênaltis para classificar os Azuis Reais para a etapa seguinte da Champions.

A atuação espetacular no Estádio do Dragão foi a confirmação de que Neuer estava pronto. A partir de então, se afirmaria como um dos melhores do mundo, e aquele era o seu cartão de visitas. Continuou fechando o gol do Schalke e a transferência para o Bayern, apesar das acusações de traição, aumentou ainda mais a sua visibilidade – ainda mais depois dos pênaltis defendidos contra o Real Madrid na semifinal da LC de 2012. Já a seleção alemã era o complemento perfeito para o seu sucesso. Em uma equipe que é tão forte coletivamente, Neuer consegue ser destaque individual muitas vezes. E isso só ressalta a sua qualidade.

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Durante a última década, o grupo de melhores goleiros do mundo foi bastante restrito. Buffon, Casillas e Cech são nomes praticamente inquestionáveis, acompanhados por Van der Sar até sua aposentadoria. Neuer ascendeu ao topo junto com eles há algum tempo. E com a aposentadoria dos outros veteranos se aproximando, vai se consolidando como a principal referência da posição, ao lado do ascendente Thibaut Courtois. Aos 28 anos, o alemão vive seu ápice. A Copa do Mundo é a grande chance de consagração. Para tanto, seu desafio será parar Messi, Higuaín, Lavezzi e o forte ataque da Argentina.

Goleiros sempre estão sujeitos às falhas – e Oliver Kahn é um infeliz exemplo disso. Ainda assim, a Alemanha confia que o seu camisa 1 possa ser o diferencial para uma vitória sobre a Albiceleste no Maracanã. Se isso acontecer, Neuer será o quarto arqueiro alemão a conquistar a Copa. E o mais capaz de se aproximar de Sepp Maier, a maior lenda da meta do Nationalelf. Porque se o veterano foi o grande mestre de uma das principais escolas de goleiro do mundo, desenvolvendo um estilo de jogar sob as traves, Neuer o aprimorou. A velocidade para sair do gol e a capacidade em defender com os pés são sinais dessa evolução. Que pode influenciar novos talentos do gol na Alemanha por anos.